Há resoluções de Ano Novo que são mesmo para cumprir. "Decidi deixar a minha carreira em standby e ficar em casa a cuidar dos meus pais"

1 jan, 08:00
Idosos (DR: Pexels/Mathias Zomer)

Sofia Santos tomou uma resolução na última passagem de ano que lhe mudou a vida, a mudou como pessoa e mudou a vida de quem está à volta dela. O objetivo era muito concreto: cuidar de quem cuidou dela. Também Mariana Santos tomou, há cinco anos, uma resolução de Ano Novo que lhe mudou a vida. Mas nem sempre é assim: a esmagadora maioria das resoluções de Ano Novo falham na concretização. Duas especialistas explicam porquê

Foi numa noite fria de fim de ano que Sofia Santos tomou uma decisão que afetou a família inteira. Ela, o marido, os filhos - um pré-adolescente e um bebé de dois anos – e os pais dela tinham acabado de jantar. Ainda faltava algum tempo para a meia-noite. O pai e a mãe de Sofia tinham acabado de fechar a porta da casa da filha, para irem dormir à deles, que fica a poucos metros. Não sabiam que também a vida deles ia mudar com a decisão que foi tomada nos minutos imediatos.

“Tinham sido tempos muito duros. Fiquei desempregada e pouco depois recebemos o diagnóstico da minha mãe. Com 64 anos, foi diagnosticada com Alzheimer. Lembro-me perfeitamente desse dia: ouvi o diagnóstico da minha mãe com o meu filho recém-nascido ao colo. Em novembro do ano passado, acabou o meu subsídio de desemprego e, em dezembro, o meu pai foi diagnosticado com uma patologia cardíaca grave, que exigiria uma cirurgia de peito aberto nos meses seguintes”, começa por contar.

Sofia diz que se lembra de ver os pais saírem de casa dela na última noite do ano de 2024 e sentir neles uma “vulnerabilidade” que a deixou profundamente triste. “Eles foram embora mal acabámos de jantar. Vi-os tão tristes e tão frágeis que me sentei à mesa com o meu marido e disse-lhe que estava a pensar deixar de procurar emprego de forma ativa. Nessa passagem de ano, decidi colocar a carreira em standby e ficar em casa a cuidar dos meus pais e dos meus filhos. Ele não hesitou e disse logo que me apoiava”, acrescenta.

Os filhos de Sofia "ganharam muito" com o convívio mais frequente com os avós, garante a farmacêutica. (Imagem de arquivo)

É farmacêutica. Trabalhou mais de uma década em farmácias públicas. Por razões que se prendem com a própria saúde, aproveitou a ‘oportunidade’ que o desemprego lhe trouxe e procurava um lugar na área da investigação farmacêutica. Mas, no último ano, Sofia Santos dividiu o tempo entre a casa dos pais e a dela, entre hospitais e consultórios médicos. Dedicou a sua vida aos pais e aos dois filhos. “Foi um ano difícil. Somos quatro e é só um ordenado a entrar em casa. Não passámos fome, claro, mas cortámos os luxos todos e os meus filhos pedem-me coisas que eu daria se estivesse a trabalhar, mas não dou porque não podemos. Mas ganhei muito mais do que dei. Foi um ano muito enriquecedor”, garante.

"Cuidar dos meus para estar bem comigo"

Sofia sofre de uma doença autoimune e faz tratamentos duros com imunossupressores. A saúde mental, já afetada pela própria doença, sofreu um revés, com a dedicação exclusiva aos seus. “Claro que me faz falta falar com pessoas, arranjar-me… agora ando sempre de fato de treino e não pinto o cabelo tantas vezes e isso também afeta uma pessoa. Já tinha acompanhamento psiquiátrico para conseguir lidar com a dor permanente que a minha doença provoca, mas tive de procurar também apoio psicológico. Até porque vejo a saúde dos meus pais degradar-se de dia para dia e isso também me afeta emocionalmente”, reconhece.

Falou com a CNN Portugal depois de receber mais um telefonema do hospital onde a mãe está internada e passou por uma cirurgia de urgência há dois dias por causa de uma hérnia inguinal que estrangulou. O internamento “descompensou-a por completo”: “ligaram-me a perguntar se eu ia lá ao meio-dia, porque ela estava muito agitada”. A mãe Maria, de 66 anos, “foi-se muito abaixo”, literalmente da noite para o dia, quando o pai Manuel, de 71, foi operado, em fevereiro: “Ficou a dormir uma semana em minha casa e sentiu muito a falta do pai. Logo depois da primeira noite, acordou muito apática, sem reação. Eu, que sou profissional de saúde, sei bem que o stress no caso dela é um gatilho muito grande – provoca a produção excessiva de uma hormona que lhe mata as células cerebrais e essas células não voltam”.

“Ontem foi um dia muito duro. Tiveram de amarrar a minha mãe, porque ela arrancava os tubos e estava muito agitada. Foi muito duro ver a minha mãe tão nova naquele estado, a dizer que se ia matar se eu não a tirasse dali e ter de manter a compostura e tentar explicar-lhe que era para o bem dela. O meu irmão ligou-me ontem e só chorava. Nem conseguiu falar comigo”, confessa.

Sofia diz que, no último ano, teve dias em que questionou a decisão que tomou na última noite de dezembro do ano passado. Mas garante que nunca se arrependeu. “No fim do dia, quando lá vou à noite a casa antes de jantar dar-lhes a medicação e estar com eles um bocadinho, sinto que ganhei muito mais do que dei. Quando a minha mãe se abraça a mim e diz ‘gostei tanto deste bocadinho’ e quando olho para ligação deles com os meus filhos e do carinho que eles têm a oportunidade de receber dos avós, sinto que tudo valeu a pena”, assegura.

“Ouço muitas vezes dizer que temos de cuidar de nós para estar bem. Mas, se não cuidarmos dos nossos, nunca estaremos bem. Eu tenho de cuidar dos meus para estar bem comigo”, resume.

E assim nasceu uma empresa

Mariana Santos andava a maturar a ideia há meses. Mas foi aquela última noite de 2019 que determinou o rumo que a sua vida tomou. Trabalhava com crianças há anos. Em creches e jardins de infância. Sonhava com um projeto em que pudesse trabalhar com as crianças de uma forma mais personalizada. Queria, ao mesmo tempo, ajudar os pais na azáfama diária em que o tempo para os filhos é sempre escasso. Queria evoluir como pessoa e como profissional.

“Decidi sair de uma creche onde trabalhava, com o objetivo de procurar algo que me preenchesse e fizesse evoluir. Foi em 2020, quando cuidei de dois meninos a tempo inteiro, que começaram a surgir mais pedidos por parte de outras famílias, mas eu não conseguia dar resposta. Surgiu assim a necessidade de criar uma equipa”, conta.

A empresa WeCare4U nasceu de uma resolução de Ano Novo da fundadora. (Imagem de arquivo)

E assim nasceu a WeCare4U. É muito mais do que uma agência de babysitting ao domicílio. Todos os anos, Mariana estabelece um objetivo novo para a empresa. Primeiro, os cursos de formação para babysitters, as consultas de apoio à amamentação e os cursos de preparação para os pais. “Não servem só para ‘ensinar os pais a serem pais’. Servem para os ajudar a encaixar rotinas e a gerir o dia-a-dia de uma forma mais tranquila”, destaca.

A empresa nasceu em 2020, depois de uma resolução da fundadora de que, no ano que então ia começar, era mesmo para avançar. Hoje, conta com 12 colaboradores fixos. Mariana estabeleceu, no último fim de ano, que, em 2025, ia abrandar. Estava grávida, queria mais tempo para dedicar à filha que ia nascer, sem descurar a empresa. Colocou como objetivo que iria deixar de fazer ela própria babysitting e ia ficar a cuidar apenas da gestão da empresa. “Quando engravidei, ambicionava ficar a cuidar da minha filha até aos dois anos, enquanto geria a equipa e assim foi. Hoje estou na gestão, enquanto posso dar o melhor à minha filha e acompanhar o seu crescimento. Foi também com o seu nascimento que surgiu o programa para pais com o objetivo de tornar o pós-parto mais simples e mais leve”, revela.

A WeCare4U presta serviços de babysitting ao domicílio, mas não basta ligar quando o casal quer sair para um jantar a dois: “O serviço é mais personalizado do que isso. Faço sempre uma reunião com os novos clientes, apresento a colaboradora que vai ficar com eles. Não quer simplesmente colocar uma estranha na casa de uma família a cuidar das crianças”.

"O cérebro humano não muda por decreto"

Sofia e Mariana são casos raros, no que toca às resoluções de Ano Novo. As determinações para o ano seguinte raramente são cumpridas. E, quando a gente as toma, até já sabe como vão terminar. Fazemos promessas no fim do ano porque o cérebro adora a ilusão de recomeço. “31 de dezembro funciona como um reset simbólico: um corte artificial no tempo que nos dá a sensação de que, no dia 1, vamos acordar com mais força de vontade, mais disciplina e menos cansaço acumulado, mesmo que nada mais mude. Spoiler: não vamos”, constata a psiquiatra Maria Moreno.

“Como psiquiatra, vejo isto todos os anos. As resoluções falham não por falta de carácter ou de fibra, mas porque escolhemos resoluções grandes demais, vagas demais ou que estão além dos nossos recursos (naquele momento). Pedimos ao ‘eu de janeiro’ que faça o trabalho pesado que o ‘eu de novembro’ já não conseguiu fazer. E isso é não é justo”, acrescenta.

Maria Moreno alerta que “o cérebro humano não muda por decreto. Muda por repetição”. “Resolver ‘a partir de agora vou ser outra pessoa’ ativa o entusiasmo - a dopamina adora o plano -, mas desaparece quando chega a rotina. Queremos muito, mas não ativamos os circuitos certos para manter o comportamento. A intenção é boa, mas o sistema não aguenta. Falta o circuito da repetição, do hábito”, explica.

"Expressão de necessidades emocionais"

A psicóloga Jéssica Araújo sublinha que o virar do ano é, emocionalmente, “um marco temporal”. “Equivale ao fechar de um ciclo e assinala um ponto de viragem como se fosse ‘uma página em branco’, o que aumenta a motivação e a esperança de mudança associada ao efeito do novo começo”, explica.

Muitas das resoluções são a expressão de necessidades emocionais não satisfeitas: descanso, reconhecimento, controlo, pertença e autoestima, sendo mais do que apenas objetivos concretos”, acrescenta.

Então, se marcam um ponto de viragem e exprime necessidades emocionais, porque são tão difíceis de cumprir? “A literatura científica mostra que a maioria das resoluções falha logo nas primeiras semanas devido à formulação inadequada de objetivos, à sobrecarga emocional traduzida numa dependência excessiva da ‘força de vontade’ e ao pensamento dicotómico e autocrítica”, diz a psicóloga.

Adotar as resoluções formuladas não depende só das boas intenções que a elas estão associadas. Depende da forma “pouco realista” e “emocionalmente exigente”. “Entre os motivos mais frequentes, encontram-se os objetivos pouco concretos, vagos ou demasiado ambiciosos como ‘vou mudar de vida’, ‘vou ser mais feliz’, ‘nunca mais vou falhar’, que não se traduzem em comportamentos concretos”, explica Jéssica Araújo.

A psiquiatra Maria Moreno corrobora a posição da psicóloga: “O problema das resoluções de Ano Novo não é sonhar alto. É ignorar como o cérebro realmente funciona”.

“As pessoas que cumprem resoluções até ao fim não fazem promessas grandiosas. Fazem ajustes específicos e pouco românticos e sexy”, resume Maria Moreno.

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