Moedas inaugura residência estudantil em Lisboa com quartos a partir de 650 euros. Oposição fala em "alheamento da realidade", autarquia sublinha que "não marginaliza ninguém"

22 mar, 16:26
Carlos Moedas inaugura nova residência universitária em Lisboa (Twitter)

Autarquia garante que vai fazer mais de mil camas, mas não divulga os valores que vai pedir por ser "prematuro"

Um quarto de 12 metros quadrados por 650 euros ou um de 15 metros quadrados por quase 1.100. Estes são alguns dos preços da nova residência para estudantes que foi inaugurada pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa no dia 17 de março, no Campo Pequeno.

Carlos Moedas afirmou no Twitter que esta nova construção vem “para aumentar a oferta de habitação” assinalando que para isso contribuem, em paralelo, os setores público e privado.

Numa altura de crise habitacional em todo o país, os preços praticados levaram a uma grande indignação nas redes sociais, sobretudo no Twitter, onde vários utilizadores vieram criticar a intervenção do autarca.

Questionada pela CNN Portugal em relação aos preços praticados pela residência universitária, a Câmara Municipal de Lisboa defende-se dizendo que "se tratou de um investimento exclusivamente privado, sendo as opções definidas pelos seus responsáveis".

Então e a oferta pública? A autarquia refere que este ano será terminada uma residência universitária na zona da Alameda, com 320 camas, tendo outras 900 camas em projeto, e cuja conclusão ainda não tem prazo. Em paralelo foi também cedido um terreno à Junta de Freguesia de Benfica "destinado à construção de uma residência para estudantes com 120 camas".

Sobre os preços a praticar nessas novas residências, a autarquia não divulga, para já, os valores, alegando que "nesta fase é prematuro divulgar qualquer informação quanto aos preços a praticar". "Certo é que esses valores serão numa lógica de oferta pública, com preços acessíveis e tendo em conta as caraterísticas da população estudantil, nomeadamente de estudantes deslocados e bolseiros", garante a câmara.

"Da parte da Câmara Municipal de Lisboa, reforçamos que o trabalho para aumentar a oferta a este nível deve ser feito em todas as frentes, com os contributos de todos os setores e não marginalizando ninguém. Sem complexos e agradecendo os investimentos privados em Lisboa, que neste caso ascendeu a 150 milhões de euros na cidade", acrescenta a autarquia na resposta à CNN Portugal.

A verdade é que, independentemente dos preços, a esmagadora maioria dos quartos disponíveis na nova residência já estão alugados, de acordo com a informação disponibilizada no website. Entre os poucos quartos ainda disponíveis no Campo Pequeno contam-se apenas quatro, cujos preços variam entre os 1.001 e os 1.096 euros.

Os quatro quartos ainda disponíveis para aluguer no Campo Pequeno (Nido)

PS fala em "insensibilidade" de Moedas

O PS Lisboa critica a atuação de Carlos Moedas neste caso, acusando o presidente da Câmara Municipal de Lisboa de "indiferença e insensibilidade social". Em declarações à CNN Portugal, o vereador socialista Pedro Anastácio afirma que há "algum alheamento da realidade social dos estudantes", algo que entende estar expresso nos preços que são cobrados.

"O quarto mais barato é quase o preço da propina anual", refere, reiterando que, ao contrário do que diz Carlos Moedas, "não basta aumentar a oferta, é preciso aumentar a oferta pública".

Neste ponto o PS Lisboa defende-se, dizendo que os projetos em fase de conclusão, como o da Alameda, transitam do mandato anterior, quando ainda era Fernando Medina o presidente da autarquia. "Temos visto a câmara paralisar ou diminuir a oferta", acusa Pedro Anastácio, assinalando que foram anulados três concursos públicos que previam mil casas em Benfica, Parque das Nações e perto do Paço da Rainha. Em paralelo, afirma o vereador, está também por licenciar uma residência na Avenida 5 de outubro à qual Carlos Moedas "tem feito veto de gaveta".

"Toda esta história demonstra um preconceito. Têm estado a fazer veto de gaveta por causa de uma agenda, dizendo que os estudantes fazem muito barulho. Um estudante que paga mil euros faz menos barulho que um que paga cem?", questiona, referindo-se aos 100 euros como o preço que estaria previsto para os quartos da Avenida 5 de Outubro.

Ainda sobre a Alameda, e mais concretamente sobre os preços, refere Pedro Anastácio que estava previsto que fossem os serviços sociais da Universidade de Lisboa a gerir o processo, mas que, entretanto, a vereação responsável não deu mais informações. "Estamos preocupados com os preços que podem vir a ser praticados", conclui Pedro Anastácio.

De acordo com a informação disponibilizada na tabela daquela universidade, os preços variam entre os 77,56 euros (para estudantes bolseiros da Universidade de Lisboa) e os 368 euros (por um quarto individual para um estudante de fora da Universidade de Lisboa). Existe ainda a modalidade de apartamento, cujo preço pode custar até 680 euros por mês.

Estudantes falam em preços desajustados

A Federação Académica de Lisboa afirma que esta nova residência estudantil apresenta preços "desajustados às condições dos estudantes". Em declarações à CNN Portugal, a presidente da organização refere que os preços são "muito avultados", ainda que sejam uma pequena resposta à pressão que se sente no setor.

Catarina Ruivo entende que esta nova residência só irá ser resposta para uma certa franja da população, bem como para estrangeiros que vêm fazer programas de Erasmus ou em outras condições, e que têm mais posses para pagar preços a este nível.

"A grande maioria dos estudantes do Ensino Superior não tem condições para pagar estes quartos", afirma.

O presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa concorda, admitindo que serve uma parte pequena do mercado, mas que a solução não serve o estudante comum. "Sem dúvida que esta residência não é para estudantes portugueses, praticamente só serve para quem vem de Erasmus", afirma José Afonso Garcia.

O responsável acusa mesmo a câmara de vender esta residência como uma "solução que não é", até porque "não é viável para o estudante comum", que não consegue ter acesso a uma residência a estes preços, que "são superiores ao salário mínimo".

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