A confiança é um ativo que vale mais do que qualquer matéria-prima. Sustenta os mercados e reduz o custo das decisões. Mas é também um bem muito frágil, sujeito a oscilações bruscas. Quando se deteriora, a economia sente-o de imediato. A perceção de corrupção funciona, neste contexto, como um imposto oculto.
Os números mais recentes divulgados pela Transparência Internacional voltaram a colocar o tema no centro da discussão. Portugal alcançou 56 pontos no Índice de Perceção da Corrupção de 2025, descendo um ponto face ao ano anterior e recuando para a 46.ª posição entre 182 países. O resultado não surpreende. Resulta de um desgaste persistente. E é precisamente esse desgaste gradual que nos deve inquietar, pois mina a imagem de previsibilidade institucional que um país pequeno e aberto como o nosso está obrigado a projetar.
Na economia de um país, a perceção é frequentemente a própria realidade. Se as multinacionais suspeitam de opacidade, procurarão geografias alternativas. Se as empresas nacionais forem vistas como estando a operar num ambiente menos transparente, sentirão esse prejuízo reputacional no âmbito das suas transações internacionais. O clima de dúvida contamina a racionalidade das decisões económicas.
É neste ambiente de sensibilidade acrescida que surge uma escolha política de leitura paradoxal. O até agora Diretor Nacional da Polícia Judiciária foi chamado a assumir o Ministério da Administração Interna. À primeira vista, a decisão parece irrepreensível. Trata-se de alguém com um percurso consolidado no combate ao crime organizado e à corrupção, detentor de reconhecimento técnico e reputação sólida. Num contexto de descrédito permanente, apostar numa personalidade associada à integridade parece um sinal lógico.
Ainda assim, a política vive de símbolos. A transição direta da liderança da principal entidade de investigação criminal para o Governo, enquanto vários processos de elevada exposição pública continuam sob escrutínio, introduz um desconforto geral inevitável. Ainda que formalmente não haja conflito de interesses e que muitos portugueses admitam a clareza das explicações sobre a natureza organizativa do cargo de Diretor Nacional da Polícia Judiciária, permanecerá uma interrogação na consciência coletiva: estiveram, estão e estarão suficientemente demarcadas as fronteiras entre quem investiga e quem governa?
A ideia de proximidade excessiva entre o poder político e o sistema de investigação reforça a narrativa da “promiscuidade institucional”, mesmo que a possamos considerar injusta. Narrativas deste tipo têm consequências, que afetam a reputação do país. Alimentam o ceticismo interno, contribuem para a desconfiança externa e podem elevar custos de financiamento.
Há aqui um paradoxo evidente. A intenção de reforçar a credibilidade através de uma nomeação tecnicamente muito robusta pode, no atual contexto, amplificar dúvidas estruturais. Não por falha individual, mas por insuficiência sistémica. A confiança não depende apenas da idoneidade das pessoas. Depende, sobretudo, da robustez das regras e da firmeza das separações institucionais.
Se Portugal quer inverter a trajetória descendente no indicador de perceção de corrupção, terá de reforçar garantias de independência entre instituições. Para além de estabilidade macroeconómica, os dois atributos que os mercados mais valorizam são a consistência e a previsibilidade.
Na economia da confiança, os investimentos adiados, as oportunidades perdidas e a reputação diminuída são custos invisíveis que se acumulam rapidamente.