S. Jorge: quando a terra treme no «paraíso» nem a bola pode correr

2 abr, 09:49
Ilha S. Jorge Açores

População da ilha dos Açores está há duas semanas em sobressalto. Atividades desportivas foram todas suspensas, os clubes ajudam no que podem e houve até um título inédito já festejado no meio da crise sísmica

Podemos sentir medo do paraíso?

A resposta é sim.

E ela é-nos dada por alguém que encontrou o seu paraíso no meio do Atlântico, que arriscou ficar por lá, mas que, por segurança, enviou o filho para junto dos avós.

Há cerca de duas décadas, quando se mudou do continente para a Ilha de S. Jorge, nos Açores, para jogar no Marítimo Velense, então na 3.ª divisão nacional, Rui Diogo estava longe de imaginar que a sua vida estava prestes a mudar.

Mas apesar de ter jogado depois noutras ilhas do arquipélago dos Açores, este homem natural de Felgueiras ficou para sempre «com S. Jorge no coração».

«Costumo dizer que vim viver para um cantinho do mundo onde não se passa nada. Estou no meu paraíso. E nunca pensei passar por uma situação destas», introduz para início de conversa, o atual treinador do Velense.

Talvez «atual», neste caso, não seja o termo mais correto.

Rui Diogo é, de facto, o treinador do Velense. Mas o futebol e todo o desporto na ilha está parado devido à atividade sísmica que há duas semanas sobressalta a ilha de pouco mais de 8.000 mil habitantes.

Mais de 20 mil sismos! Em menos de duas semanas. Cerca de 200 sentidos à superfície, que levaram muita gente a abandonar a ilha com medo.

Outros ficaram. Como Rui Diogo, atual sub-diretor de um hotel de S. Jorge e ansiar por voltar a poder ser treinador de futebol.

«Esta é uma situação de que ninguém estava à espera. Começámos a aperceber da dos sismos no dia 19, mas achávamos que ia passar. Mas até hoje, ainda não parou», descreve.

«Vivem-se dias muito complicados. Sem dormir, sem saber o que vai acontecer. Muitos saíram das casas, deixaram de ir trabalhar porque têm receio do que pode acontecer», acrescenta.

Por razões profissionais, Rui Diogo permaneceu na ilha. Mas juntamente com a esposa, decidiu enviar o filho de 10 anos para junto dos avós paternos no momento em que também as aulas foram suspensas na ilha.

«Eu sou uma pessoa positiva. Além de ter de continuar a trabalhar, acredito que não vai acontecer nada de mal. Mas senti que ele está melhor com os avós, consegui que fosse treinar no Felgueiras e assim está mais distraído», explica.

Mas mesmo sendo uma pessoa positiva, Rui Diogo admite algum desconforto com a incerteza em que vive nos últimos dias.

«À noite, durmo duas horas e acordo. Tenho de ir ao telemóvel para ver se houve sismo, se há algum alerta ou emergência. E quanto mais dias passam, mais complicado fica», assume.

E para lhe afetar ainda mais o sistema, nem o hooby de sempre lhe pode valer. Tem de se contentar com umas «corridas ao final do dia para abstrair e organizar as ideias».

«Cresci ligado ao futebol e admito que não ter o treino ao final do dia, está a ser muito difícil. Seria um escape para o que está a acontecer, uma situação à qual ninguém fica indiferente», nota.

«No outro dia senti um sismo de grau 4 [o mais elevado que se registou nestas duas semanas], vi as coisas a tremer e pensei que ia tudo à vida».

O homem de 40 anos revela ainda que a vila parece estar a voltar à normalidade nos últimos dias, com algumas pessoas a regressarem. Mas não sabe quão distante está a «normalidade».

«As pessoas estão a regressar porque toda a gente tem de trabalhar. Mas como é que se vai trabalhar se esta gente não dorme?», questiona.

A «casa» do Velense fica na zona de maior risco na ilha

Carrinhas do clube cedidas para possíveis resgates

Francisco Fonseca não tem tido dificuldade em dormir. É do hábito de quem morou quase toda da vida na ilha, admite. E de quem, nem por um momento pensou deixar S. Jorge.

«De maneira nenhuma! Tenho responsabilidades do ponto de vista profissional. Podemos ter de responder a uma situação complicada», reage o presidente da unidade de Saúde da ilha.

«Continuo a morar e dormir nas Velas. Não me sinto inseguro e tenho conseguido dormir. Estava a menos de um quilómetro do epicentro do maior sismo e não o senti», confessa.

Mas a vida do também capitão da equipa sénior do Velense mudou bastante.

Nas últimas duas semanas, o trabalho aumentou. Ainda que seja, sobretudo, de organização e prevenção aquilo que tem de fazer.

«Temos de fazer a preparação de equipas de saúde para o caso de terem de atuar e ter tudo pronto, se for necessário», resume.

Nesse trabalho de prevenção entrou também o clube que representa desde os sete anos e no qual jogou em todos os escalões.

Sem atividade para os mais de 100 atletas da formação, o Velense cedeu as duas carrinhas de nove lugares que tem operacionais para o caso de ser necessário retirar a população da zona mais afetada pela atividade sísmica. Na qual ficam as instalações do clube, também.

Como se festeja um título inédito no meio de um sismo?

A cerca de 20 quilómetros do concelho de Velas, fica o da Calheta. Vizinhos e por serem os dois únicos concelhos da ilha, a rivalidade existe, todos a admitem, mas tem sido atirada para trás das costas neste momento delicado.

E é assim na sociedade, como no desporto.

Após dez anos de um domínio quase absoluto do Velense na ilha – com oito títulos em dez anos – este ano, ao fim de 42 de existência, o FC Calheta celebrou pela primeira vez o título.

O epicentro das celebrações mudou-se de Velas para a Calheta, mas nem deu bem para celebrar a conquista que foi confirmada horas antes do anúncio da paragem de todas as atividades desportivas.

«O alerta sísmico começou no dia 19, no dia 20 ainda houve jogos e na quarta fizemos o jogo que nos deu o título. E competição suspensa logo a seguir ao jogo», explica Ricardo Paiva, vice-presidente do Calheta.

«Foi uma sensação muito estranha. Durante aquelas duas horas conseguimos deixar um pouco de lado o que estava a acontecer, mas nunca no saiu totalmente da cabeça de ninguém», assume.

Até porque, momentos antes de o jogo se iniciar, o nível de alerta subiu para o quarto numa escala de cinco.

«Tínhamos mais de 200 pessoas no estádio, o que nem costuma acontecer. Mas era um jogo que podia dar o título e todos tentaram que o receio ficasse um pouco de lado durante o jogo, apesar da apreensão», lembra o dirigente.

Esse foi, porém, o último momento de normalidade para o clube e o concelho para onde se mudaram muitas das pessoas que deixaram as Velas por precaução.

Com historial também no voleibol – tem as equipas masculina e feminina na 2.ª divisão nacional, série Açores – o Calheta viu o pavilhão onde costuma jogar ser adaptado por prevenção.

O espaço onde treinavam e jogavam dezenas de atletas passou a estar ocupado com camas para receber pessoas que possam ficar desalojadas, caso o pior cenário se venha a concretizar.

«Muitos atletas já deixaram a ilha. Outros, trabalham na proteção civil municipal, nos bombeiros, temos enfermeiros e polícias», revela ainda o dirigente, enaltecendo que essas funções são, neste momento, não só a principal, mas a única preocupação possível, num «paraíso» que vive dias de sobressalto.

«Em situações como esta, o desporto deixa de ser importante. Importante é segurança de todos», remata.

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