No próximo adversário do Benfica na Taça de Portugal há uma história de amor, dedicação (e sonhos). Paulinho já transmitiu jogos do clube pela internet e tem uma rubrica de fotografia. Portador de trissomia 21 pratica judo desde 2015 e soma medalhas nacionais e internacionais
Para Paulinho, como é carinhosamente conhecido em Pevidém, a paixão pelo futebol e por um clube está ali, a poucos quilómetros de casa, no Campo Albano Martins Coelho Lima. Onde o Maisfutebol o encontra a poucos dias do histórico jogo que opõe a equipa que milita no Campeonato de Portugal ao Benfica.
Para viver a festa da Taça vai ser preciso ir desta vez a Moreira de Cónegos, a dez quilómetros de distância. É a casa emprestada para os cavaleiros defrontarem as águias. Mas não é preciso sair da freguesia de São Jorge de Selho, da vila de Pevidém, para sentir o grande amor de Paulinho ao clube da terra.
«Sempre gostei e, além de ser o meu clube, é a minha terra».
Portador de trissomia 21, Paulo Jorge Ribeiro Lemos já dedicou centenas de horas ao seu Pevidém SC. Começou a acompanhar o clube desde 2006 (ano da fundação, após a extinção do GD Pevidém). Era então um jovem cheio de sonhos e ideias. Como agora, na verdade.
Nos jogos em casa ou fora. Pela fotografia, pela escrita ou pelo vídeo, Paulinho demonstrou ao longo dos anos a paixão pelo Pevidém. De máquina na mão, por gosto, começou a tirar fotografias nos jogos... e tornou-se fotojornalista do clube. Até foi criada uma rubrica sua: o “Olhar do Paulinho”, com fotografias suas a cada jogo, publicadas nas redes sociais do Pevidém. Mas não só: na pandemia transmitiu jogos através de uma plataforma de streaming. Já teve também um projeto de entrevistas a jogadores do clube e já ensaiou crónicas de jogos.
Paulinho tem 33 anos e divide a sua vida entre a paixão pelo Pevidém, o trabalho na Câmara Municipal de Guimarães e ainda… o judo. Sim, Paulinho ama futebol, nunca jogou futebol, mas pratica desporto: no judo adaptado, acumula êxitos nacionais e internacionais.
A fotografia, o “Olhar do Paulinho” e… a música: «Comecei a ter aulas»
Mas é a acompanhar o Pevidém que mostra ser muito «feliz». É acarinhado por jogadores, técnicos, diretores… e como é que tudo começou?
«Desde que começou o Pevidém SC, desde 2006. Fiz tudo sozinho. Primeiro fazia fotografias, fazia vídeos com as fotografias dos jogos e punha no Youtube. Depois, mais tarde, surgiram novas oportunidades e comecei a ser fotojornalista. Depois fiz entrevistas. E depois comecei a fazer o “Olhar do Paulinho”. Um coordenador que já esteve aqui, o Sérgio Abreu, convidou-me: eu tirava as fotografias, passava para ele e publicava-se. Mais tarde, o diretor-desportivo, o João Moreira, da direção, disse que queria continuar com o “Olhar do Paulinho” e continuo a fazer», conta Paulinho, que também já levou os jogos a quem estava lá em casa e não ia ao estádio.
«Já não transmito há alguns anos, mas era bom. Foi na altura da pandemia, na MyCujoo [ndr: antiga startup portuguesa de transmissão de jogos]. Estava muita gente em casa e eu comecei a fazer isso», lembra quem foi fazendo «tudo» por sua «iniciativa», sem curso em nenhuma área digital, mas cheio de ideias. Outra, a propósito das claques, é… criar músicas para o clube.
«Gosto de música, a paixão pela música foi através do desporto, porque no desporto toda a gente faz músicas e eu comecei a ter aulas de canto para começar a melhorar, para começar a ser um cantor bom, para fazer as músicas do clube. Neste momento o Pevidém tem pelo menos quatro músicas e eu quero fazer mais. Ainda estou a pensar, não comecei. Mas quero começar a fazer as próprias letras», afirma.
«Benfica? 1-0 ou 2-0 e gostava que fosse o Pedrinho a marcar»
Para chegar à 3.ª eliminatória da prova rainha, a equipa do concelho de Guimarães, isenta na 1.ª eliminatória, protagonizou uma das surpresas da ronda anterior: a jogar em casa, eliminou o Marítimo, da II Liga, por 2-1. Pedrinho, de penálti, no fim do prolongamento, soltou a festa minhota, depois de Euller ter anulado o golo de João Marna e forçado horas extra em Pevidém.
E agora, o Benfica? Paulinho reconhece a diferença, mas aponta só e só a um Pevidém «tomba-gigantes». «Espero que o Pevidém ganhe. Já não digo 3-0 ou 4-0, mas 1-0 ou 2-0, por aí. O Benfica está forte, mas quanto mais se passar na Taça, além de se ganhar mais dinheiro, é sempre bom…», atira, entre risos.
E ante o Benfica, Paulinho apostaria em Pedrinho novamente herói. Pedrinho que é, tal como Paulinho, um símbolo de Pevidém e do Pevidém. É da terra, é capitão de equipa. E ambos andaram juntos na escola.
«O Pedrinho, além de ser da minha idade, andou comigo na escola. Dou-me bem com ele. Gostava que fosse o Pedrinho [a marcar]. É daqui da terra, é uma pessoa cinco estrelas», diz.
No sábado, em Moreira de Cónegos, Paulinho lá estará para ver o Pevidém, o Pedrinho e a festa da Taça.
Paulinho, um campeão no judo adaptado: «Se não for à medalha…»
Se ao fim de semana acompanha o Pevidém, durante a semana divide o trabalho entre os recursos humanos e a biblioteca. E ao fim do dia, duas vezes por semana, pratica judo.
O futebol era um sonho, mas… «Se conseguisse emagrecer pelos menos cinco ou seis quilos, porque não? Tenho 33 anos, sou novo, também gostava de dar um toque na bola, jogar aqui no Pevidém. Era um sonho, não era? Como todos têm».
Não foi – nem é – no futebol. É no judo adaptado. Paulinho é atleta no Vitória SC e ao longo dos últimos anos teve títulos nacionais e mundiais para atletas com Síndrome de Down. Já em 2024, na Turquia, foi medalha de ouro na 2.ª edição dos Jogos Mundiais da Trissomia, evento que se assemelha a uns Jogos Olímpicos para portadores de Síndrome de Down.
«Comecei a ver judo no Youtube e comecei a apaixonar-me. Em 2015 comecei no judo, em 2016 a ir a torneios, em 2017 a ser internacional. Já fui à Madeira, a Itália, Turquia... E saio com medalha sempre. Se não for à medalha, não vale a pena estar a viajar (risos)», atira, bem-disposto. Para futuro, há ainda a ambição de seguir o ramo da arbitragem no judo e também dar aulas na modalidade.
Do Pevidém ao judo. No desporto ou no trabalho. Paulinho quebra barreiras, finta a trissomia e tem sempre no seu clube uma garantia.
«Gosto da equipa, dos jogadores, de todos. Sinto-me bem quando vejo o Pevidém jogar».
Sábado, no Pevidém-Benfica, é mais uma oportunidade, Paulinho.
