Histórico ginásio de Joe Frazier está devoluto, à venda e pode ser demolido

David Marques , Enviado-especial aos Estados Unidos
18 jun 2025, 09:00
Ginásio de Joe Frazier em Filadélfia (David Marques/Maisfutebol)

Local onde o lendário pugilista treinou para os principais combates da carreira está fechado há vários anos e deteriora-se mais a cada dia que passa, vítima da negligência dos donos que teve depois de Joe Frazier ter perdido o espaço nos últimos anos de vida

Saio do metro na estação de North Philadelphia e atravesso uma bomba de gasolina. Olho para a frente, para trás, para a esquerda e a direita. Afinal, onde está o prédio do antigo ginásio do lendário pugilista Joe Frazier?

Tiro o telemóvel do bolso e googlo ”2917 N. Broad Street.” Cheguei ao destino, diz-me. Ando uns metros e quase à sombra de um viaduto, do lado direito da estrada, vejo um edifício devoluto com um painel grafitado no topo, ervas enormes ao lado e uma trepadeira a ganhar terreno numa das paredes.

Em baixo, porta e janelas cerradas por placas de madeira, panfletos e publicidade a uma marca de whisky irlandês colados na fachada. Subo o olhar: «Joe Frazier’s gym» lê-se em letras já carcomidas pelos anos, mas ainda bem visíveis. Em cada um dos lados, um par de luvas de boxe esculpidas na parede de cimento. E, à direita, um letreiro a indicar que o edifício, construído no final do século XIX, está à venda.

Custa acreditar, mas foi aqui que Joe Frazier, que se mudou de uma pequena cidade da Carolina do Sul para Filadélfia com 15 anos e aqui viveu até a sua morte aos 67 anos, se preparou para as maiores lutas da carreira, como o «Combate do Século» em 1971 com Muhammad Ali, considerado por muitos, ainda hoje, o maior da história do boxe.

O espaço foi adquirido em 1968 e convertido num ginásio pela Cloverlay, empresa que começou a apoiar financeiramente Joe Frazier após a medalha de ouro olímpica em 1964, apenas com 20 anos. Então com poucas posses, Frazier recebeu um apartamento, tinha um salário, treinador pago e um espaço só para treinar no cruzamento entre a Broad Street e a Glenwood Avenue, que em 2018, sete anos depois da morte do pugilista, passou também a chamar-se Smokin’ Joe Frazier Boulevard.

Frazier comprou o ginásio quando se retirou com o registo de 32 vitórias, cinco derrotas e múltiplos títulos de pesos-pesados, e abriu as portas dele, sem cobrar um cêntimo, para que os jovens do bairro passassem mais tempo dentro daquelas quatro paredes do que nas ruas.

Em 2008, três anos antes de morrer vítima de cancro, perdeu o ginásio por dívidas de 127 mil dólares em impostos à cidade e o edifício foi vendido em 2011 a um grupo de investidores de fora de Filadélfia por mais de 300 mil dólares.

«O edifício está fechado há uns três anos. Antes era uma loja de móveis», conta ao Maisfutebol um morador do bairro. «O Joe é uma lenda aqui em Filadélfia.»

A alguns quilómetros dali, no complexo de desporto, à entrada de uma zona de restauração e perto das três arenas onde jogam os Philadelphia Phillipes (Liga profissional de basebol), os Philadelphia 76ers (NBA), os Philadelphia Flyers (NHL) e os Philadelphia Eagles, atuais campeões de futebol americano, a lenda está imortalizada em estátua. «No topo da carreira, ele foi umas das figuras mais reconhecidas do desporto a nível internacional», lê-se na placa colocada na base redonda da figura de bronze de 3 metros e meio. A homenagem foi feita em 2015, uma década após a morte do pugilista e 39 anos (!) depois da estátua de Rocky Balboa, personagem interpretada por Sylvester Stalone, ter sido inaugurada numa das zonas mais nobres da cidade, junto ao Museu da Arte.

Perante a ameaça de uma demolição e de ver esvaziada a herança histórica do antigo ginásio, um professor de uma universidade local pôs mãos à obra com os alunos. Logo em 2012 iniciaram uma luta pela preservação daquele património material de Filadélfia.

Segundo o Philadelphia Inquirer, o ginásio então convertido numa loja de móveis voltou a ser vendido em 2022 por 850 mil dólares. Quase seis vezes mais do que o montante das dívidas que obrigaram Frazier a desfazer-se da propriedade nos últimos anos de vida. Desde então, tem estado fechado e chumbou em várias inspeções de segurança. Até hoje, o atual dono, que desde então acumulou mais de 20 mil dólares em impostos e outras taxas camarárias, nada fez para corrigir as falhas do edifício, que em 2013, fruto da luta do professor e dos alunos da Temple Architecture University, o prédio deu entrada no registo nacional de lugares históricos, classificação que devia impedir demolições ou alterações estruturais radicais.

«Ninguém quer saber do prédio. Está ali, fechado…», lamenta um outro morador do bairro.

Em dezembro do ano passado, um vereador da cidade apresentou uma moção para impedir que qualquer plano de demolição do ginásio possa ser concretizado. A moção foi aprovada, mas a autarquia pode deitar abaixo qualquer construção que represente um perigo iminente para a segurança pública.

Não muito longe de Filadélfia, 130 quilómetros a norte, também na Pensilvânia, um outro ginásio de uma outra lenda do boxe foi recuperado a tempo. Uma casa de madeira no meio de um bosque, que entre 1972 e 1980 foi o local de treino de Muhammad Ali, o maior rival da carreira de Joe Frazier. Chama-se «Fighters Heaven» e é, desde 2018, um museu aberto ao público para visitas guiadas e para celebrar a vida e a obra de um dos maiores campeões de boxe.

Como «Smokin' Joe» também o merecia.