O que move quem larga tudo para ir atrás da seleção de andebol

Adérito Esteves , Budapeste, Hungria
17 jan, 23:54
Adeptos de andebol em Budapeste

São poucos os adeptos portugueses em Budapeste, mas é muito o amor que os liga à modalidade

Na bancada parece ser apenas mais um. Um fervoroso adepto de Portugal a tentar fazer-se ouvir no apoio a Portugal, num pavilhão com capacidade para 20 mil pessoas.

Mas não é apenas mais um.

Primeiro, porque são muito poucos os adeptos portugueses presentes na bancada. Qualquer um é muito importante no apoio à equipa de Paulo Jorge Pereira.

E depois, porque aquele adepto é Paulo Faria. Nada mais, nada menos, do que o 25.º mais internacional de sempre do andebol português, tendo participado, por exemplo, no primeiro Europeu de andebol de sempre, em 1994, organizado em Portugal.

Paulo Faria voltou a 'vestir' as cores de Portugal numa grande competição

É o antigo central de ABC, Sporting e Águas Santas, senhor do andebol com 118 internacionalizações A e 182 golos marcados com a camisola de Portugal, que apanhamos na véspera do jogo que vai decidir o futuro de Portugal no Europeu de 2022, diante dos Países Baixos.

Mas não é apenas como adepto que ele tem estado em Budapeste, na companhia de cinco amigos. É o próprio que o admite.

«Andei muitos anos ligado ao andebol como jogador e treinador e, infelizmente, agora não posso voltar a entrar como jogador. Mas o sentimento e a emoção de ouvir o hino nacional num jogo da seleção mantém-se intacto», confessa, sem esconder a paixão que mantem pelo jogo.

«Só esse amor me faz prescindir da família por uns dias para estar aqui a viver este momento. E posso dizer que está a valer mesmo a pena», reforça o antigo andebolista, agora com 49 anos.

Talvez seja até ofensivo referirmo-nos a Paulo Faria como ‘antigo andebolista’. Porque o sentimento que transmite não tem espaço para ‘antigo’.

«Sinto alguma frustração por já não poder estar lá dentro, mas o sentimento de orgulho é muito próximo do que sentia enquanto jogador. E estar na bancada faz-me sentir de regresso à seleção. Tenho muito orgulho e saudades daquilo que fiz enquanto jogador. E sinto-me orgulhoso também de estar aqui a apoiar esta seleção», acrescenta, demonstrando novamente a paixão que sente pelo andebol.

«Estar aqui permite alimentar memórias de coisas que vivi e que nunca mais vou apagar», define.

Memória viva de um ABC de ouro

No primeiro jogo de Portugal no Europeu, há uma camisola que de destaca no meio das mais de 6 mil pessoas na Arena.

Mesmo de uma posição elevada, aquele amarelo é inconfundível a olho treinado do andebol português.

É uma camisola do ABC.

Vestida, orgulhosamente por Paulo Faria, que fez no clube de Braga toda a formação e as primeiras épocas enquanto sénior, nas épocas douradas do ABC, por quem jogou uma final da Liga dos Campeões.

«Não se pode esquecer nunca aquilo que o ABC representou. E como não existe história sem memória, estar ali com aquela camisola foi uma forma de homenagear ainda mais o ABC e lembrar os momentos áureos do clube na Champions», justifica Paulo Faria, agora empresário na área da educação.

«O ABC foi durante anos o grande embaixador do andebol português e continua a sê-lo por ser um clube só de andebol. Mas durante muito tempo foi o responsável por uma época de ouro do andebol nacional, também na seleção».

E que melhor forma de homenagear a história do clube que o ajudou a fazer história no andebol, que levar para uma Arena monumental a camisola do ABC?

«É mesmo muito especial estar a participar num evento assim, num pavilhão incrível como este e sentir o ambiente criado por 20 mil pessoas, como aconteceu no Hungria Portugal».

Ora, esse jogo, decidido para o lado húngaro nos últimos segundos, deixou Portugal a fazer conta para seguir em frente na prova. E retirou alguma esperança a Paulo Faria.

«Se nos bastasse apenas vencer para nos apurarmos, diria que íamos seguir em frente. Dependendo de terceiros, é mais difícil, mas temos possibilidades», sublinha, ele que não vai conseguir estar presente no jogo desta terça-feira, diante dos Países Baixos, mas que já faz contas a um regresso à Hungria.

«Pois, se Portugal passar, vou ter de falar com o patrão para ver se ele me deixar voltar», atira, sorridente.

Uma ‘ilha portuguesa’ num mar de desportivismo

Ao longo de uma semana em Budapeste, contam-se pelos dedos de uma mão os adeptos portugueses com quem o Maisfutebol se cruzou.

Na Arena, durante os jogos, é possível perceber que serão cerca de duas dezenas de adeptos com as cores de Portugal.

Há várias décadas ligado ao andebol, primeiro como jogador e há mais de 20 anos como dirigente, Paulo Elísio Sousa estreia-se em Budapeste numa grande competição. E a experiência não podia estar a ser mais impactante.

«Os jogos têm sido experiências fantásticas. Temos de nos sentir uns privilegiados. Estamos a inaugurar uma arena com 20 mil lugares. Nunca tinha estado num pavilhão com esta dimensão e é incrível o ambiente que se sente», descreve.

O presidente do Alavarium, clube que se tem destacado sobretudo no panorama do andebol feminino, admite que, além do gosto pela modalidade, foi a vontade de sentir o pulso ao ambiente que o fez comprar bilhetes para a fase de grupos do Europeu.

«Era oportunidade de ver, primeira vez, uma competição internacional de andebol. E queria conhecer o ambiente, a envolvência e, claro, tentar aprender também com uma experiência dessa dimensão», explica.

O resultado não podia ter sido melhor, garante. Prova disso é o facto de dois dos quatro amigos que foram nunca antes terem visto andebol ao vivo e estarem rendidos.

«Está a ser realmente fantástico. Dois meus amigos que vieram nunca tinham visto andebol e estão absolutamente fascinados. Ao ponto de já terem dito que querem voltar a ver andebol assim que voltarem a Portugal», sorri o adepto de 53 anos.

Depois de já ter tido experiência como adepto em Europeus de futebol, Paulo Elísio Sousa revela que aquilo que mais lhe tem agradado é o ambiente saudável que se vive no andebol entre adeptos de todas as seleções.

«Nos lugares onde estamos, somos uma pequena ilha de quatro portugueses no meio de adeptos islandeses, holandeses e húngaros. E o melhor de tudo é que conseguimos conversar sem fanatismos. Há desportivismo entre toda a gente», enaltece.

Por outro lado, apesar de assumir que esta não é a fase ideal para viajar e estar no meio de milhares de pessoas quando o mundo ainda atravessa uma pandemia, Paulo Elísio Sousa elogia a segurança que sente em todos os espaços.

«As pessoas estão sempre de mascara e sentimo-nos em condições de total segurança. Acho que as entidades daqui estão a lidar bem com a situação, como se vê, por exemplo, pela insistência para que as pessoas mantenham as máscaras, e pelos muitos dispensadores de álcool-gel que há no pavilhão», elogia.

Agora, com Portugal «na luta» apesar do cenário ser difícil, o adepto português só deseja que a seleção o ‘obrigue’ a regressar a Budapeste nos próximos dias.

«Volto a Portugal na quarta-feira, mas a seleção se apurar, conto regressara para ver mais jogos», confidencia.

Tem a palavra a seleção. Uma equipa que se habitou, nos últimos anos, a surpreender a Europa e que teima em dar alegrias aos apaixonados pela modalidade.

O sonho mantém-se vivo. Tal como o amor ao andebol.

 

 

 

 

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