«Lobo solitário»: a história do único adepto do Arouca frente ao Santa Clara

23 dez 2025, 23:50

Francisco Esteves saltou para a ribalta depois do jogo nos Açores, mas esta não é a primeira vez que é notícia pela sua paixão pelo clube

Agendar um jogo para as 20h30 de um domingo em pleno inverno, nos Açores, e em vésperas da época natalícia, não é propriamente convidativo para que os adeptos se desloquem ao Estádio de São Miguel. Menos para Francisco Esteves, o único apoiante do Arouca presente no encontro com o Santa Clara. Dos 2029 espectadores que estiveram nas bancadas, todos estavam a apoiar a equipa da casa, menos um, o Lobo de Arouca solitário.

Ser o único a apoiar a sua equipa num jogo já é algo que dificilmente se esquece, mas ser acarinhado por todos os elementos da sua equipa é indescritível. Após o apito final, jogadores, equipa técnica e demais elementos da estrutura arouquense foram ao encontro de Francisco Esteves para cumprimentá-lo e agradecer a sua presença. Pouco depois, já no hotel, reuniram-se para uma fotografia e, na passada segunda-feira, Tiago Esgaio, um dos capitães, ofereceu-lhe, em nome do clube, a mais recente camisola de Natal.

«Agradeço à direção do Arouca, mudou a minha vida»

Pese embora ter feito a viagem de avião para o continente, e outra de autocarro até à cidade do Porto, mostrou-se disponível para falar com o Maisfutebol no dia seguinte ao jogo. Apesar das várias partilhas, muitas pessoas continuam sem conhecer o adepto em questão: trata-se de Francisco Esteves, jovem arouquense de 24 anos que reside com os pais em Vila Nova de Gaia, onde está a tirar o curso de Gestão Hoteleira.

Como os bons amores, a paixão de Francisco pelo Arouca foi crescendo no seu coração ao longo dos anos. Hoje em dia, com a ajuda dos pais, vai a vários pontos do país apoiar o seu clube. Já na época 2024/25, tornou-se também viral o gesto do clube ao trazê-lo no autocarro, com a equipa, de Faro até Arouca, tendo depois rumado até Gaia novamente à boleia, mas desta vez de um dos jogadores. Esta temporada, nas vésperas da quadra natalícia e do aniversário do clube (o Arouca foi fundado a 24 de dezembro de 1952, sob a designação de Ginásio Clube de Arouca), foi agraciado com momentos de comunhão com a equipa.

«Quando os vi a aproximarem-se de mim, pensei que eles iam fazer o normal, bater palmas. E bater palmas e reconhecerem que eu fui lá já me deixava feliz, o meu trabalho foi feito, vieram agradecer. Mas quando os vejo a aproximarem-se mais, reparo que eles queriam cumprimentar-me. Tento fazer o máximo para não começar a chorar, porque eu estava mesmo... Nunca esperei chorar de felicidade, sabe? Fiquei mesmo feliz e sempre que vejo o vídeo agora, uma parte de mim quer chorar e a outra fica muito feliz», confessou.

Não só o momento em si, mas também a atenção mediática que o mesmo gerou, continua a deixar Francisco Esteves espantado e feliz: «Uma parte de mim acredita que aquilo aconteceu, porque eu vivi-o, mas outra parte também não acredita. Ver que fui reconhecido pelo mundo e os muitos comentários positivos, porque os negativos ignoro. Infelizmente, nunca vou ser jogador do Arouca, mas, como adepto, vou ficar para a história, espero eu».

Para muitas pessoas, o futebol é muito mais que um desporto. É um estado de espírito, uma forma de viver a vida. Francisco é um desses casos, dedicando-se de corpo e alma ao Arouca, a quem agradece por todas as felicidades que o clube lhe proporcionou desde a infância.

«Vou ser honesto. Agora já os tenho, mas ao crescer não tive muitos amigos. A escola era difícil porque ia e voltava, não conversava com ninguém e ficava em casa muito tempo. Via muita televisão, muitos desenhos animados e filmes de super-heróis, e havia sempre aquela história do pequenino, sabe? E eu a ver o Arouca, quando subiu para a I Liga da primeira vez... Uma vila tão pequena, parece uma história de super-heróis e não há nada para mim melhor do que o protagonista, que é o Arouca, o super-herói em quem ninguém acredita», conta.

«Ser presidente do clube? É um sonho, seria o melhor dia da minha vida»

De todas as partilhas que existiram do episódio nos Açores, uma delas, no Brasil, comparou o caso de Francisco ao de Tiago Rech, que o Maisfutebol destacou em 2021. Este último sentou-se sozinho na bancada para ver o seu Santa Cruz e, posteriormente, tornou-se presidente do clube e foi campeão pelo mesmo.

Por isso, impunha-se a questão: existe a pretensão, o sonho de, algum dia, Francisco poder vir a ser presidente do Arouca? «É um sonho. Se acontecer, depois de apoiar tanto tempo o clube, não sei como pôr isto em palavras, mas seria o melhor dia da minha vida», respondeu, sorrindo, expressando de imediato todo o seu respeito pela atual direção presidida há vários anos por Carlos Pinho, que merece a sua «lealdade».

Para além das duas histórias acima contadas, há uma outra até então desconhecida. Francisco fez Erasmus no estrangeiro, em 2023 e 2024, mas nem isso o impediu de regressar a Portugal e de ver o seu Arouca em campo. «Há duas épocas, Daniel Sousa era o treinador. Fiz Erasmus e estive uma semana em Portugal, para passar o Natal com os meus pais. O Arouca jogou na Amadora e eu disse à minha mãe: “Desculpa, mas tenho de ir à Amadora ver o Arouca”. E fui. Estive aqui cinco dias e, em dois deles, por causa das viagens, estive em Lisboa. Não me arrependo», confidencia.

E apesar da logística e das viagens serem exigentes, que ocupam muitas horas, bem como os custos associados a todas estas travessias aqui relatadas, Francisco deixa uma reflexão que dá que pensar: «Se eu gosto e tenho essa oportunidade, porque é que não hei de fazer?»

Jogue onde jogar, no final de cada encontro a equipa do Arouca irá, certamente, receber o apoio de Francisco Esteves, sozinho ou acompanhado, no setor visitante de um qualquer estádio português.

Relacionados

Liga

Mais Liga