Equipa de Águeda composta inteiramente por atletas surdos disputa campeonato amador de futsal, em Aveiro, com adversários que ouvem. Experiência inspiradora trouxe uma maneira diferente de se encarar a competição, dentro e fora das «quadras»
À entrada do pavilhão da Escola Básica Fernando Caldeira, em Águeda, o barulho, mesmo que abafado pelas divisórias, de bolas ressaltando e estremecendo contra paredes, ecoa no exterior. O treino já começou. Depois do aquecimento, segue-se um sem número de reposições de bola, ensaiadas uma e outra vez, até que os movimentos se sincronizem na perfeição. Diogo Teixeira, o treinador, bate com o pé no chão sempre que pretende repetir o exercício. Ou levanta as mãos, e tudo volta ao ponto de partida. A comunicação que quebra a barreira do som. Esqueci-me de mencionar? Esta é uma equipa composta inteiramente por jogadores surdos, mas que compete contra adversários que ouvem. E assim quebra outra barreira: a da integração.
De equipa bem-sucedida no Campeonato de Surdos, de âmbito nacional, a Associação Cultural dos Surdos de Águeda, que disputa provas de futsal há 25 anos, quis passar a ser competitiva frente a adversários com quem não partilhava as suas limitações físicas. Foi assim que descobriu a Liga Census, um campeonato amador, no distrito de Aveiro, promovido no âmbito da recreação e do lazer que é reconhecido pela Federação Portuguesa de Futebol.
«Já pensávamos nisto há algum tempo», admite Diogo Teixeira, com o capitão da equipa, David Lourenço, a regozijar-se por, «finalmente, poder jogar contra ouvintes».
As ideias são transmitidas em Língua Gestual com o auxílio de uma intérprete. Por muito que se queira, a comunicação continua a ser aqui um ponto chave. E durante os jogos, as coisas complicam-se um pouco.
«Às vezes, o árbitro assinala uma falta e nós queremos perceber porquê, mas não é fácil de o fazer. Muitas vezes, temos apenas de aceitar», desabafa Diogo. E casos há em que essa dificuldade se adensa. «Num jogo com o Salreu, um jogador da nossa equipa caiu e magoou-se na perna, mas o adversário começou a dizer que não era nada. O nosso jogador dizia que se tinha magoado, mas em Língua Gestual, e o adversário insistia que não. Foi uma quebra na comunicação, ninguém se entendia», conta.
Para mitigar essas dificuldades, os árbitros passaram a assinalar as faltas abanando o braço ou com recurso a lenços de papel. «Houve até dois árbitros, já com alguma idade, que trouxeram bandeiras grandes para, visualmente, ser mais fácil para nós. Foi perfeito», aponta o capitão David Lourenço.
Isso demonstra que «a Liga tentou adaptar-se» às necessidades naturais da equipa, elogia Diogo Teixeira. Ajustes que começaram ainda antes de a ideia virar realidade. «Quando recebemos o pedido de inscrição, questionei as outras equipas e fui completamente surpreendido pela proatividade de todas elas. Deram o aval e predispuseram-se a ajudar. Isso é visível quando as equipas defrontam a de surdos, o convívio é melhorado para lhes dizerem que eles fazem parte do campeonato», elogia Armando Tavares, pela organização da prova.
A AC Surdos de Águeda também tem feito a sua parte para se integrar da melhor forma na Liga. «Éramos bastante calmos, mas sentimos que as equipas ouvintes têm o dobro da energia e da motivação», nota o treinador Diogo Teixeira, o que obrigou os seus jogadores a subirem o nível competitivo e a «responder com pressão».
«Somos muito de toque, mas tentamos não tocar tanto (nos adversários) para evitar as faltas. Para além disso, temos de utilizar muitas mais táticas. Estamos a crescer nessa parte», acrescenta um treinador de perfil discreto durante os jogos, uma qualidade importante para não criar distrações aos seus atletas.
É que «os surdos precisam de estar bastante concentrados no que fazem», pelo que qualquer informação visual é potencialmente distrativa, o que o leva a «esperar pelo intervalo para dar as indicações» mais significativas.
Quebrar o preconceito
Tantos ajustes e cuidados criam impacto em quem, até aqui, talvez nem os tivesse sequer imaginado. Para Diogo Teixeira, isso é natural. Entende que, «para os ouvintes, de repente, receberem uma equipa surda os coloque numa posição difícil». Aliás, «no primeiro jogo, pareciam receosos por jogarem connosco, não nos queriam magoar». No fundo, «é uma realidade diferente», com tudo o que isso implica.
Também o é para os jogadores da AC Surdos de Águeda, convém não esquecer. A equipa é composta por atletas entre 21 e os 50 anos, alguns naturais de Viseu, da Lousã ou de Coimbra, que se juntam uma vez por semana em Águeda para treinar. Os jogos são a face mais visível do projeto.
«A estreia na Liga Census foi um grande desafio para todos nós», recorda o treinador. As razões eram muitas. «Foi o início do jogo, tentar perceber qual era a dinâmica da equipa ouvinte, também a do árbitro e porque tínhamos de comunicar. Estávamos bastante ansiosos e apreensivos, mas tentámos manter a calma», conta.
David Lourenço já sofreu pessoalmente com essas diferenças. Natural de Viseu, diz que o gosto pela bola lhe está no sangue, de tal forma que, na juventude, arriscou treinar numa equipa de futsal com jogadores ouvintes. Mas nem tudo correu como esperava.
«Quando entrei nesse clube, ao perceberem que era surdo, fisicamente mostravam que não queriam (que lá estivesse). Antes, quando jogava num registo informal, nunca tinha tido esse problema, mas a barreira comunicacional acabou por ser muito pesada e passei a jogar com surdos», desabafa.
Hoje, trabalha numa loja de roupa e joga como universal na AC Surdos de Águeda. Tem em Ricardinho o seu ídolo e vê na «criação de amizades» com outros jogadores uma das principais mais-valias da experiência na Liga Census.
«Ensinámos aos jogadores do Veiros como se diz cerveja em Língua Gestual e o clube publicou uma história nas redes sociais sobre isso. Foi engraçado», conta, entre sorrisos.
«É bastante importante haver uma partilha e troca de experiências. Aproveitamos para explicar a nossa Língua, a nossa cultura e identidade», acrescenta Diogo Teixeira, que falhou um convívio promovido pela Juv Futsal Team, de São João da Madeira, por ter sido pai pela segunda vez. «O feedback foi bastante positivo, os jogadores disseram que gostaram. Aproveitaram para se conhecerem melhor», diz.
Apesar de ainda não ter vencido qualquer jogo na Liga Census (com a relevância que isso terá), a AC Surdos de Águeda espera poder repetir a experiência no futuro. É preciso perceber se os apoios chegam para tal, porque em campo a equipa mostra melhorias evidentes.
«Adaptámo-nos, sentimo-nos mais confiantes e a partir do segundo ou do terceiro jogo começámos a estabelecer algum tipo de comunicação, através da mímica, essencialmente. No primeiro jogo perdemos 17-0, foi muito confuso para nós, mas no último jogámos melhor e já ficou 4-0», explica Diogo Teixeira. É um processo evolutivo, como em tudo na vida. O importante é que possam vivê-lo.
«Quem os vê jogar acha excelente a alegria que têm nos jogos, apesar dos resultados. É uma equipa bastante organizada, que sabe jogar e tem um fair-play incrível. É uma mais-valia para a Liga», elogia Armando Tavares, pela organização da Liga Census, para quem «a AC Surdos de Águeda trouxe uma maneira diferente de encararmos as competições». E como a diferença é enriquecedora. Ou deveria ser. Incondicionalmente.