O almoço foi no quartel dos bombeiros. E houve soldados da paz que não apreciaram que Pedro Nuno, já que ali estava, não tenha aproveitado para lhes dar uma palavra. Primeiro em Lisboa, depois na Amadora, duas arruadas onde foi difícil encontrar gente para convencer em escala. Repetiu-se a aposta nos reformados, que estão entre os principais traumatizados da austeridade a que o PS tem colado a AD. Vieram autocarros de longe para o encontro. Só que o líder do PS chegou, acenou, falou um pouco e abandonou
Cármen Ferreira segue a mancha socialista. Faz perguntas, quer saber para onde vão, o que vão fazer. Segura-nos pelo braço para que o caminho fique mais fácil. “Soube que o Pedro Nuno vinha e quis fazer grupo.” Encaixa na perfeição no programa desta tarde: um encontro com reformados na Amadora.
Foi modista de alta-costura das “melhores famílias de Lisboa”. A memória, confessa, é que já não ajuda a dizer quais. Aos 97 anos vive da sua reforma. E, com ela, faz o que sempre fez toda a vida aos tecidos. “Que remédio, estica-se, qualquer dia rebenta. Gostava de saber se os que governam se governavam com a reforma que eu tenho.”
Com esta idade, Cármen ainda tem esperança na mudança – uma expressão que Pedro Nuno repete ao longo do dia para insistir no apelo ao voto que é cada vez mais derradeiro. “Ainda hei de ver isto de outra forma.” É emocionante um desejo tão puro numa vida tão avançada. Ao entrar no pavilhão, Cármen fica na parte da frente. É o que lhe vale um beijo e uma conversa breve, muito breve com o secretário-geral do PS.
Acenar e pedir o voto
O encontro com reformados na Amadora é um instante. Serve para acenar, pedir o voto, tirar umas fotografias com quem está mais à mão. “Já vai embora”, lamenta Maria Fernanda Lopes, de 70 anos, na primeira fila. Nas últimas o que não faltava era cadeiras.
Mesmo que as estruturas socialistas se tenham esforçado para trazer, de autocarro, idosos de outras partes do distrito de Lisboa. É o caso desta antiga funcionária da Casa da Moeda, que veio em excursão da União de Freguesias de Santa Iria da Azóia, Bobadela e São João da Talha.
“A gente gostava que ele tivesse mais tempo, mas compreendo.” Compreende, sobretudo, porque vê neste candidato alguém que lhe defende a reforma que diz ser ativa, inclusive com voluntariado nos hospitais, onde o cenário “tem vindo a piorar”. Reformas e pensões, saúde, os temas mais repetidos nestes dias de caravana.
Uma arruada para ver da janela
O percurso faz-se a pé entre o almoço-comício e o encontro com reformados. Sempre pelo passeio. Tirando quem faz parte da comitiva, não há quase ninguém na rua a esta hora. Resta olhar para cima. Nas janelas há quem acene.
No passeio oposto, à porta da mercearia, Maria Teresa Correia explica quem vai a passar. Ou melhor, tenta. “É o Pedro não sei das quantas, é tudo igual, uma fantochada.” Trabalha num museu, é funcionária pública. “Já sei o que a casa gasta.”
Também Otília Ferreira gasta praticamente tudo o que recebe. A reforma, que veio do marido, “estica-se, dá para o essencial”. Garante que não corta nem nos remédios nem na comida, nisso não. Come pouco, é o que salva. “Não preciso de muito, vou-me remediando.” Perguntamos se gostava de se juntar ao encontro com reformados. “Não tenho pernas”, argumenta, apoiada na muleta.
Mais à frente, aos jornalistas, Pedro Nuno recusa abrir o jogo sobre com que partidos falará se ganhar as eleições, tal como acontece de manhã quando questionado sobre a necessidade de continuar a escrutinar o caso Spinumviva.
Lembra que a geringonça trabalhou “bem” no passado, mas insiste que desta vez o PS “tem de ganhar as eleições” para construir uma solução que permita estabilidade ao país. A esquerda, nas últimas horas, não tem poupado nas críticas, por ver Pedro Nuno Santos a disparar em todas as direções – mesmo na direção de uma aliança – PSD, IL e CDS-PP – que o próprio está sempre a classificar como “radical” e “o pior” que podia acontecer ao país.
Um gesto que podia ter contado
O almoço é no quartel de bombeiros de Queluz, concelho de Sintra, o segundo mais populoso do país. Pedro Nuno entra direto para a sala onde o aguardam os apoiantes. Do lado esquerdo do edifício estão os carros de serviço, prontos para qualquer emergência.
Entre os soldados da paz, há quem não tenha gostado de uma visita que não o foi. “Já que cá estava, ficava-lhe bem cumprimentar e ver as instalações. Mostra que é um partido que não se preocupa connosco”, conta um bombeiro, que pede para não ser identificado para permitir a honestidade. Sentem-se esquecidos. Mas o colega que o acompanha sabe bem quando a memória vai voltar a ficar fresca: quando o tempo aquecer. “Agora vem o verão, logo se lembram.”
Em Queluz, servem-se primeiro os discursos. Vem Basílio Horta, autarca de Sintra, avisar que tinha havido “desgraça nacional” no dia do apagão se os municípios, sem o apoio do Governo, não se tivessem desenvencilhado sozinhos.
E é o único que, neste dia, fala do caso que ditou as eleições: “Todos sabemos que os governantes têm passado. Não podem é transmitir esse passado quando exercem funções políticas. Isso é que não.”
Vem depois António Costa Silva, antigo ministro da Economia, para vincar como Montenegro se comportou “como uma barata tonta, sem saber o que fazer, o que comunicar” durante o apagão geral. E alertar para a falta de uma estratégia económica. Porque a AD, diz, “a única ideia que tem agora é trazer a motosserra da Iniciativa Liberal para dentro do Governo”.
A Ajuda sabe que o mundo não ajuda
Uma das mensagens mais repetidas por Pedro Nuno Santos nesta campanha é esta: o atual Governo não está a preparar a país para os impactos da incerteza internacional e da guerra tarifária de Donald Trump. E, na Travessa da Boa Hora, na Ajuda, Lisboa, esse argumento convence.
Raquel Rasteiro passa a palavra para a filha Sandra. Pedro Nuno acaba de cumprimentá-las, a caravana segue para o destino. “Espero que ele ganhe, com maioria, para ver se isto anda para a frente. Temos de ter estabilidade cá dentro para lidar com o que se passa lá fora.”
Sandra conta que este é um bairro de pessoas idosas, com pouco poder de compra. “O que tem alimentado o comércio é o estrangeiro.” Não vê nos imigrantes um problema. Nem naqueles que, quase loja sim loja sim, têm negócio aberto na mesma rua que ela.
À falta de mais gente, Pedro Nuno encosta ao passeio a tentar as portas das lojas. Segue acompanhado por Mariana Vieira da Silva, cabeça de lista por Lisboa, e Alexandra Leitão, candidata à autarquia. E, à falta de António Costa, ocupado nos seus afazeres europeus, há outro Costa na multidão: Pedro, o filho.
O percurso termina junto à sapatilha de Paula Tomé. Ainda acredita que Pedro Nuno tem hipóteses, mesmo contra todas as sondagens. Num mundo em sobressalto, “a maneira de ser e de falar dele, que tranquiliza as pessoas”, diz. Se ele ganhar, só lhe pede duas coisas: apareça mais vezes e “faça aquilo que promete”.