Aos sete anos ficou sozinho, aos dez foi preso e aprendeu a sobreviver

29 jan, 09:54
Farid Walizadeh

Ficou sozinho nas montanhas do Afeganistão, atravessou o Paquistão e o Irão até à Turquia, onde foi preso e apanhou muita porrada. Em Portugal encontrou o refúgio para sonhar com os Jogos Olímpicos

Este é um fim de semana especial. A MF Total chega à edição mil: um número redondo e sintomático da importância que a revista tem assumido para o Maisfutebol. Para celebrar esta data, viajamos no tempo. Oito jornalistas escolhem a reportagem que mais os encantou escrever. Esta é a escolha de Adérito Esteves, foi publicada a 24 de abril de 2020 e conta a história do que o instinto de sobrevivência é capaz de fazer... até numa criança.

Boas leituras.

O passatempo preferido de Farid Walizadeh é ler.

Tornou-se um leitor insaciável quando chegou a Portugal, sozinho, aos 15 anos. «Li 80 por cento dos livros da biblioteca do Centro de refugiados. Foi assim que aprendi português», revela para início de uma prosa que iria passar por Camões, Pessoa ou Saramago.

Mas por muito que leia, dificilmente Farid encontrará impressa uma história mais incrível do que aquela que ele próprio viveu.

Nem mesmo a Odisseia, que diz ser do tipo de livros que mais gosta de ler - «históricos e mitológicos» -, relata uma epopeia tão incrível como a deste jovem, nascido no Afeganistão há quase 23 anos.

«Por causa da guerra, a minha família foi obrigada a fugir quando eu tinha um ano. Como não me conseguiram levar, os meus pais deixaram-me com uma família em quem confiavam», relata Farid, em conversa com o Maisfutebol.

A estadia com essa família, porém, só se manteria até aos sete anos, quando foi entregue a um traficante de seres humanos que prometia levá-lo até à Turquia.

Sete anos. Foi com essa idade que Farid integrou um grupo de «cerca de 200 pessoas, talvez» que atravessaram a pé as montanhas do nordeste afegão até ao Paquistão, com muitas perdas pelo caminho.

«Algumas pessoas foram morrendo, outras desapareceram ou fugiram, algumas caíram das montanhas», relata, antes de contar como acabou por se ver isolado do resto do grupo.

«Houve um ataque ao grupo e eu fugi para o lado contrário das outras pessoas e escondi-me num buraco. Como era pequeno, os atacantes não me encontraram, mas quando saí não havia ninguém», recorda.

«Como sobrevivi? A fome obriga a muitas coisas»

A partir daí, numa travessia que foi do Afeganistão à Turquia, atravessando o Paquistão e o Irão, o pequeno Farid fez o percurso, que durou cerca de dois anos, quase sempre em solitário.

«Não podia confiar em ninguém. Sempre que confiava, era enganado», atira, sem se alongar muito sobre a forma como foi sobrevivendo.

«Comia o que calhava. Tudo o que houvesse. A fome obriga a muitas coisas», diz apenas.

Depois da dureza da travessia que fez até chegar à Turquia, onde pensava ter encontrado a tranquilidade, a vida continuou a colocar o pequeno Farid à prova. Porque, aos 10 anos, ele atreveu-se a confiar em alguém.

«A última pessoa em quem confiei prometeu que me ia levar para a Europa e meteu-me cocaína na mochila. Disse-me que era açúcar e que eu não podia mexer. Eu era uma criança e confiei», lamenta.

A inocência valeu-lhe a passagem para uma prisão de menores, ao chegar a Istambul. Da prisão, enviaram-no para um centro educativo - «que era outra prisão» - e, aos 14 anos, foi transferido para um centro de refugiados.

Ali, e apesar de um centro de refugiados estar muito longe do que imaginamos de bom quando pensamos num adolescente, a vida de Farid começou a tomar um rumo. Uma vez mais, contudo, graças ao seu instinto de sobrevivência.

É assim que surgem as artes marciais na vida do jovem. Pela necessidade de se defender.

«Eu levava muita porrada. Havia sempre alguém a querer bater-me. Talvez por não ter ninguém para me proteger. Queriam mandar em mim e como eu nunca gostei que mandassem em mim, levava porrada. E tive de começar a bater também. Porque era isso, ou levar, ou ter de fazer coisas que não queria», justifica, explicando que foi naquele centro que começou a praticar taekwondo e aikido.

«Portugal? Só sabia que havia um futebolista chamado Cristiano Ronaldo»

Aos 16 anos, uma nova reviravolta surgiu na vida de Farid. Desta vez, uma mudança positiva. Finalmente.

Numa carta do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), um convite: mudar-se para Portugal.

«Honestamente, nem fazia ideia de onde ficava. Sabia que havia um futebolista português chamado Cristiano Ronaldo e mais nada. Mas assinei e vim», resume Farid, que confessa nem ser grande fã de futebol.

Chegado ao nosso país, e depois do primeiro refúgio encontrado nos livros, o jovem afegão teve um primeiro contacto com o boxe. E passou a ser de punho cerrado que iniciou a perseguição a um sonho.

Ao fim de apenas seis meses de treinos, Farid foi campeão nacional de cadetes na categoria de -57kg e partir daí nunca mais parou.

Pelo meio, deixou também de encarar o desporto como uma necessidade de se defender. «O boxe ajuda-me a relaxar. Agora encaro-o como um desporto no qual quero fazer carreira e escrever o meu nome na história», sublinha.

Isto porque afirma ter encontrado em Portugal a tranquilidade que sempre procurou.

«Fui muito bem recebido e estou muito bem em Portugal. Os portugueses são muito simpáticos e tratam-me bem. Em todo o lado fui encontrando pessoas boas, mas também muita gente maluca. E aqui tive sorte, porque só encontrei ainda pessoas simpáticas. Só espero que a sorte continue», desabafa.

Reencontro com a família e… licença para sonhar

Sorte.

Esta é uma palavra difícil de encaixar na história de Farid. Mas é ele próprio que a lança na conversa.

E por um momento, deixamo-nos levar por ela. Porque tem de haver alguma à mistura para aquilo que aconteceu há cerca de um ano na vida do boxeur.

Mais de duas décadas depois de ter sido deixado pela família em fuga, Farid reencontrou a mãe biológica. E este ‘reencontrou’ talvez não seja muito rigoroso. ‘Conheceu’. Conheceu a mãe biológica. Talvez assim seja mais correto.

«Através de testes de ADN e de buscas durante alguns anos, encontraram a minha mãe. O meu pai morreu na guerra, mas a minha mãe está bem e eu não descansei enquanto não a consegui trazer para Portugal», nota.

Incrível, não é?. Há cerca de um ano, a mãe e cinco irmãos de Farid estão também em Portugal e moram na Margem Sul. «Ainda estamos a conhecer-nos», confidencia.

Entretanto, um outro objetivo começou a ganhar forma: o curso de Arquitetura.

«Sempre gostei de artes e a arquitetura é uma arte. Eu gosto de criar coisas e, talvez por ter visto tanta destruição ao longo da minha vida, gostaria de construir coisas», justifica, o também aluno do primeiro ano do curso.

Mas neste momento, o foco é outro. E foi por ele – e devido à pandemia – que Farid voltou a separar-se da família, há cerca de um mês e meio. Desta vez, contundo, foi por um sonho maior.

Farid com o equipamento do Comité Olímpico Português, que lhe atribuiu uma bolsa

Desde há alguns meses, Farid Walizadeh tem sido apoiado pelo Comité Olímpico Português com vista a poder integrar a Equipa Olímpica de Refugiados nos próximos Jogos Olímpicos.

Com o surgimento da pandemia, o torneio de qualificação no qual ia participar foi cancelado e Farid ainda não sabe quando se irá realizar. Ainda que ter mais tempo para se preparar seja encarado como algo positivo.

«Normalmente, a preparação olímpica de um atleta dura cerca de quatro anos e eu ia ter mais ou menos 10 meses. Claro que agora não tenho condições para treinar de forma apropriada, mas vou ter um pouco mais de tempo», concede, ele que permaneceu no Centro de Alto Rendimento do Jamor.

«Estou outra vez preso. A minha vida parece que é estar preso em centros: em centros educativos, em centros de refugiados e, agora, aqui no centro de alto-rendimento», ironiza.

Desta vez, porém, a escolha foi dele. E tem como objetivo estar nos Jogos Olímpicos. Ou não será apenas estar?

«Estar ou ganhar os Jogos Olímpicos? Estar, para ganhar. Estar, para ganhar… Olha, ficou fixe, é meio poético e tudo», brinca, antes de reforçar: «O sonho é ganhar os Jogos Olímpicos. Sei que o caminho é longo, mas nada é impossível. E se eu trabalhar para isso, vou conseguir».

E alguém se atreve a duvidar? Se há pessoa que conhece a definição de «caminho longo», essa pessoa é Farid Walizadeh. O jovem a quem a vida já tentou fazer vários KO, mas falhou sempre. Porque Farid insiste, invariavelmente, em reerguer-se. E está a ganhar-lhe aos pontos.

Terá é de continuar a procurar nos livros uma história mais incrível do que a dele. Mas isso está longe de ser um problema para Farid.

Farid com o seu treinador, Paulo Seco

 

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