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O dia em que o novo treinador do Boavista foi campeão... com o pior ataque

14 abr 2025, 16:39
Stuart Baxter num jogo do AIK, em 2019 (Michael Campanella/Getty Images)

Estávamos em 1998. Stuart Baxter conduziu o AIK ao título na Suécia com… 25 golos marcados em 26 jornadas. Um final épico e um herói que estava... para rumar a Portugal. Exemplo de esperança no Bessa?

Da Suécia, há cerca de 27 anos, chega uma história de esperança para o Boavista.

Stuart Baxter é o novo treinador dos axadrezados e, com ele, leva para o Bessa a esperança de resgatar a «pantera» na Liga. A cinco jornadas do fim, os nortenhos estão no último lugar e procuram a permanência.

O técnico escocês de 71 anos tem a sua segunda passagem da carreira por Portugal, depois de ter sido adjunto de Malcolm Allison no Vitória de Setúbal, na época 1987/88. E foi cerca de dez anos depois que Baxter - que conta, além da Suécia, com passagens por clubes de Japão, África do Sul, Finlândia ou Turquia - alcançou um feito raro, no seu único campeonato conquistado na Europa.

Estávamos a 8 de novembro de 1998, quando o AIK, comandado por Baxter, foi campeão sueco… com o ataque menos concretizador da liga! Foram 25 golos marcados em 26 jornadas. O AIK, por outro lado, foi a defesa menos batida, com 15 golos sofridos, o que ajudou (e muito) ao feito.

A liga foi apenas conquistada na última jornada, com o AIK a vencer o Orgryte (1-0), terminando com 46 pontos, mais dois do que o Helsingborgs IF, que perdeu na última jornada ante o BK Hacken (2-1), equipa que já estava, à partida para a jornada… despromovida! Um campeonato para a história, no qual o AIK, apesar dos poucos golos marcados (menos um do que o último classificado, imagine-se), foi a equipa com menos derrotas (duas) e “rei” dos empates (13), além de 11 vitórias.

«Não conseguiam jogar contra nós, não conseguiam marcar»

Baxter chegou à Suécia, para treinar o AIK – onde estaria três anos – depois de cinco anos no Japão. «Estava no Japão há cinco anos e planeava sair dali», contou Baxter, ao These Football Times, em 2020. Foi então que aceitou uma nova aventura, num país onde já tinha passado como jogador e treinador. «Eu estava no Japão, no Vissel Kobe, e o diretor desportivo do AIK, Stefan Söderberg, veio ter comigo, bateu-me à porta e disse: “Olha, nós queremos que venhas para o AIK”», recordou o escocês, que tinha jogado no Landskrona, no Helsingborgs e no Örebro. Um conhecedor do futebol sueco, portanto.

Na época anterior, o AIK tinha ficado no oitavo lugar. Mas, ao mesmo tempo, tinha ganho a Taça da Suécia e tinha ido até aos quartos de final da Taça das Taças (foi eliminado pelo Barcelona). À data, não era campeão há cerca de 60 anos: desde 1937. E perdera, de 1997 para 1998, algumas figuras, entre elas o guarda-redes Magnus Hedman (Coventry City). «O AIK era um clube grande, mas tinha terminado em oitavo, não ganhava nada há não sei quantos anos. Mas eu olhei para o elenco e achei que era um bom elenco de jogadores», lembrou Baxter. Exatamente isso. O grupo. Acima do individual.

Para esse AIK que seria campeão ficaram figuras como Johan Mjällby e chegaram outros nomes, como Olof Mellberg, que se tornaria, mais tarde, uma das referências do futebol sueco no novo século. As coisas nem começaram muito bem, com duas vitórias, seis empates e duas derrotas nas primeiras dez jornadas. Mas mudariam semanas depois. Com uma ideia distinta.

«Eu escolhi um clube especial. A claque é famosa. E agressiva. E é preciso ter um certo caráter para jogar no AIK para se ser bem-sucedido. A equipa… eram todos uns guerreiros. De caráter. Todos eles. Mas jogavam há muito tempo no clube e não ganhavam nada. Lembro-me que fomos jogar fora com o Gotemburgo [ndr: na 12.ª jornada] e estava perante os jogadores antes do jogo. Eu tinha introduzido novidades, os jogadores adoraram, mas não estávamos a ter os resultados que queríamos. Então disse-lhes: “Pessoal, ou fazemos o que fazemos, ou eu vou embora”. E eles disseram: “Não se preocupe, estamos nisso”. E assim foi. Vencemos o Gotemburgo por 1-0, tivemos um expulso, mas vencemos e fizemos uma sequência incrível. Os jogadores não conseguiam jogar contra nós. Não conseguiam marcar golos. Não porque jogávamos defensivamente, mas porque jogávamos de uma forma completamente diferente de todos os outros. Obrigávamos os defesas contrários a jogarem recuados e contra-atacávamos de forma agressiva», recordou.

E assim foi. Depois do tal ciclo até à 10.ª jornada, o AIK teve nove vitórias (cinco delas por 1-0 e apenas uma por mais de um golo, um 2-0) e sete empates. «Nos jogos que vencemos por 1-0, se olharmos às estatísticas, era tipo 17 remates contra dois. Dominávamos os jogos. Os jogadores estavam confiantes. Éramos nós ou o Helsingborgs. E, se o último jogo fosse decisivo, sabíamos que íamos ganhar. Não havia nervosismo para o último jogo», contou, ainda.

Baxter contou então que, antes do jogo decisivo com o Orgryte, houve uma falha de energia que afetou o sistema de aquecimento do campo, que estava em más condições, com a geada. «Estava duro, gelado. Terrível para jogar. E andava eu no balneário, a pensar: “mer**, vai ser um grande empate, não vai? Eles vão lançar todo o tipo de bolas, com os nossos nervos e com a importância do jogo. Tenho de acalmar todos”. Na reunião da equipa, chamei o capitão a um canto, disse-lhe o que fazer e ele respondeu: “Não se preocupe, nós vamos resolver”. E estavam certos. Os únicos nervos foram quando marcámos e quando soubemos que o Hacken tinha marcado», lembrou.

O herói que no início da época... estava para ir para Portugal

Mathias Larsson foi, indiretamente, o herói do AIK, ao marcar os dois golos do Hacken, que derrotou o Helsingborgs, líder à partida para a última jornada. Um adepto recordou, ao These Football Times, que Larsson foi convidado para a festa do título. «E ele veio!», disse.

Mas não foi só Larsson. Quem deu a vitória também necessária do AIK para ser campeão foi um jovem que… estava para rumar a Portugal no início dessa época: Jan Alexander Östlund.

«Quando cheguei ao clube, havia um rapaz sentado do lado de fora da sala do treinador, no primeiro dia. Eu perguntei ao diretor desportivo quem era e ele disse que era um ex-jogador», contou. Östlund «era um jovem, com um talento enorme, mas teve problemas» com os quais o clube não conseguiu lidar. E fora dispensado. No entanto, Östlund, que faria um único golo nessa época, no jogo decisivo, perguntou a Baxter se podia treinar com a equipa para manter a forma. «Ele ia para Portugal para testes. E eu disse-lhe que podia. Treinou e não foi nada mau. Ele era atacante e eu disse ao diretor desportivo que tínhamos um jovem lateral a jogar como atacante, para deixá-lo ficar um mês e oferecer-lhe contrato. Ele ficou e saiu-se muito bem», recordou.

Östlund, que mais tarde jogaria no Feyenoord e no Southampton, foi convertido a lateral-direito no AIK e tornar-se-ia herói. «A chuteira dele está coberta de ouro e está do lado de fora do estádio», afirmou Baxter.

Muito, muito tempo depois, o septuagenário pega no Boavista, não para ser campeão, mas para salvar um campeão da descida. A equipa está no 18.º e último lugar, com 18 pontos, a oito dos lugares de permanência e a cinco do lugar de play-off. Na brincadeira, Baxter já disse até como parar Gyökeres no Boavista-Sporting do fim do mês. Haverá motor, como houve no AIK, para o verdadeiro título do Boavista esta época?

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