Antes do Benfica-Bayern Munique, que terminou com a primeira vitória de sempre das águias sobre os bávaros, o Maisfutebol esteve à conversa com vários benfiquistas que assistiram ao jogo em Charlotte. Luís e a irmã planearam a viagem dois dias antes, António e Helena fizeram 12 horas de viagem de carro e Vítor e o filho são fanáticos pelo clube
* Em Charlotte
O destino começou por trocar a voltas aos irmãos Luís e Inês, que atravessaram o oceano por causa do Benfica. Nos planos, desenhados dois dias antes de se meterem no avião, estava assistirem o jogo com o Auckland City, em Orlando, e depois ao Benfica-Bayern Munique.
«Viemos de Lisboa, mas ficámos presos em Nova Iorque e perdemos o segundo voo porque ficámos presos por causa do mau tempo e não pudemos voar. Foi muito azar, porque estávamos todos contentes e até íamos chegar um dia antes. Depois, quando já estávamos quase a descolar, já tinham passado três horas e tivemos de sair do avião. Passado algum tempo, voltámos a entrar. Quando estávamos mesmo quase a descolar outra vez – éramos o próximo avião – tinham passado o número de horas que o piloto podia fazer. Foi um filme autêntico», recorda Luís.
A companhia aérea arranjou um novo voo, mas só no dia a seguir. Luís e Inês acalentaram a esperança de que a suspensão do jogo entre o Benfica e a equipa neozelandesa permitiria que ainda assistissem ao jogo na segunda parte, mas não conseguiram e a estadia na Florida foi passada a visitar os parques de diversões. «Não vimos esse jogo, mas agora vamos ver o Benfica ganhar aqui», aponta.
Antes do Benfica-Bayern, os adeptos do conjunto alemão estão em maioria, mas as camisolas da equipa portuguesa também são em número considerável nas imediações do Bank of America Stadium, que será o palco da primeira vitória de sempre das águias sobre a equipa bávara.
Ali perto encontramos Helena sentada num banco à sombra, a tentar proteger-se do sol e calor impiedosos enquanto as portas do estádio não abrem. Vive nos Estados Unidos há 32 anos, mais particularmente em Manassas, Virgínia. «É o sítio onde houve a primeira grande batalha da guerra civil entre norte e sul e fica a 30 minutos de Washington.
Helena conta que tinha 25 anos – «quase 26» - quando deixou o norte de Portugal em busca de uma vida melhor e para se juntar ao namorado, que estava nos Estados Unidos desde 1985. «Namorávamos pelo telefone e ele foi-me buscar em 1991. Casámos nessa altura em Portugal pelo civil e 18 anos depois casámos pela igreja, também em Portugal.»
Enquanto o marido prefere guardar lugar na fila para a entrada no estádio, Helena fala com orgulho do que os dois conquistaram na América e na vida. «Ele veio para cá para juntar dinheiro para comprar uma mota e para montar uma oficina de carpintaria em Portugal. Mas 40 anos depois continua cá e a mota foi a última coisa que comprou [risos]. Mas comprou! A primeira em 2005 e agora tem cinco.»
«E a oficinal de carpintaria?», perguntamos. «Montou uma companhia de construção e já a temos há 25 anos. E temos casa em Portugal, casa aqui e ainda uma casa na praia em Outer Banks, também aquia em North Carolina, mas bem longe de Charlotte. Estamos muito bem. Viajámos aos 50 e não trabalhamos muito», diz enquanto solta uma gargalhada.
António José, açoriano, deixou São Miguel depois do 25 de Abril. «Estou cá há 50 anos, cheguei com 20, por isso é fazer as contas. Porque é que vim? Pela mesma razão de toda a gente: à procura de melhores condições de vida. A vida em São Miguel era muito difícil nos anos 70», recorda.
Ao lado de António José está Paula, esposa de Vítor, que ainda vai juntar-se à conversa. «Sou de Viseu e estou cá há 33 anos. O meu marido já cá estava. Namorávamos à distância e um dia ele foi-me buscar. Queríamos ter filhos e proporcionar-lhes melhores condições de vida, por isso viemos para os Estados Unidos, primeiro em Rhode Island e agora na Florida. Palm Coast, perto de Daytona.
Paula chama o filho Jason e o marido. Qual dos dois o mais benfiquista? Nem Paula consegue decidir-se. «O meu filho é ferrenho e o meu marido nem se fala», dispara. «São os dois ferrenhos. O pai até grita para a televisão quando os benfiquistas não estão a jogar bem. Até tenho de dizer-lhe para se calar, já viu?»
E o filho? «Só para você ver, quando ele era mais novo tinha um tapete que punha no chão quando o Benfica jogava. E ele via o jogo em cima do tapete porque dizia que dava sorte. Depois mudou-se para Nova Iorque e levou o tapete com ele», conta.
Natural da Guarda, Vítor sorri a ouvir a mulher a contar histórias e fala mais sobre o Benfica, que acredita que vai voltar a ganhar na próxima época depois de um ano de tristezas. «Fiquei só um bocadinho doente, mas estou confiante para o ano que vem. Se houver boas aquisições, acredito que o Benfica vá ser campeão, yeah! Mas vamos ver», diz este fervoroso benfiquista que vai ver o primeiro jogo do clube em mais de 20 anos.
António José vai ver este e deixa a palavra de que vai ver mais, assim o Benfica avance no Mundial de Clubes. Mesmo que tenha de voltar a fazer uma longa viagem de carro até Charlotte, como, ainda não sabe, mas vai acontecer. «São só seis horas de viagem. Isso aqui não é nada.»
Já na fila para entrarem no estádio, o Maisfutebol encontra mais uma Helena (de Ponta Delgada) e um António (de Viseu), também imigrantes há muitos anos. «Fizemos uma viagem de 12 horas de carro desde Rhode Island, mas fomos parando. Quem é que conduziu? Foi aqui o mestre. O mestre da culinária», diz o marido. «Ele não gosta que eu conduza o carro novo», brinca a esposa, elogiando-lhe depois a perícia ao volante.
«Só vamos ver este jogo. O que nós fizemos foi uma pequena loucura», acrescenta António enquanto aponta para Helena. «A ideia foi minha, yah. Quando vamos a Portugal vemos os jogo!»
Os dois atravessaram o oceano há 25 anos. Helena tinha a família toda já nos Estados Unidos e com boas condições de vida. Um dos filhos em comum nasceu já nos Estados Unidos e o outro «veio de lá pequenino». «Se nos imaginamos a voltar a Portugal? Não vale a pena imaginar. Temos a nossa vida toda estruturada cá. Vamos a Portugal para beber uma cervejinha e um peixinho grelhado», diz António.
Em Portugal, mais concretamente em Lisboa, Helena trabalhou num escritório. «No departamento de accounting. Sabe quem era o meu patrão? O João Rocha, ex-presidente do Sporting. Avenida 5 de Outubro, número 56.»
E o jogo com o gigante Bayern Munique? António está tranquilo. Afinal de contas, quando ele e Benfica se juntam nunca corre mal. «Tenho uma coisa boa. Sempre que vejo o Benfica ao vivo, nunca perdemos. Tem sido assim desde os meus 20 anos. Já lá vão 40 e tal anos assim!»
E não é que se manteve a tradição?
