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"A minha família não é estranha, é perfeita". Dinis tem dois pais, Lúcia duas mães: a adoção ensinou-lhes como o amor reconstrói

30 mai, 08:00
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REPORTAGEM || 'FAMÍLIAS COMO AS OUTRAS' || Portugal aprovou a adoção por casais do mesmo sexo há uma década. Desde 2016, nasceram novas famílias, que se descrevem como “normais”, mas que ainda vivem com a sombra do preconceito. Há, em especial, o receio de que a orientação sexual dos pais ou das mães possa ser usada como uma forma de ataque aos próprios filhos. Com os discursos conservadores a ganhar força cresce um outro medo: o de que a própria lei possa voltar atrás e deixar de reconhecer estas famílias

Dinis tem os brinquedos espalhados pela sala. A manhã banha-os de luz nesta casa de Setúbal cheia de campo à volta. O rapaz está na fase dos super-heróis. E os pais, para tentar conter a desarrumação constante, têm ensinado que também os super-heróis de capa organizam bem as suas coisas. Até porque, no chão, os brinquedos podem transformar-se num obstáculo para a cadeira de rodas da irmã Emma.

“É o papá, o Dinis, a Emma e o dada”, explicam os expressivos olhos claros escondidos pelos óculos vermelhos. É um dos livros favoritos da casa, porque mostra a família transformada em personagens de animação. Mas esta família é de verdade, de carne e osso.

E, como em todas as famílias, há um ponto inicial. Não um nascimento, mas sim um encontro. Uma ligação chamada adoção. “O Dinis entra, olha para nós. A diretora pergunta-lhe ‘sabes quem são?’. E ele responde: ‘são os meus papás’. Imediatamente, corre e salta para o colo”.

Era – ainda é – o colo de Natanael Vidal e de António Ferreira. Dinis foi adotado por um casal do mesmo sexo. Tem dois pais. “O papá e o dada”, para ser mais fácil distinguir.

Uma “coincidência divina”

No cabeleireiro, sempre que a porta se abre, a campainha toca. O som é bem-vindo: sinal de negócio. A maioria das clientes no Pinhal Novo conhece bem os seus anfitriões. Afinal, eles fartaram-se de aparecer nas televisões e nos jornais no Brasil.

“Foi há 20 anos. No Brasil, não era autorizado a adoção por casais do mesmo sexo. Também não era proibido. Então, o que não é proibido é permitido. Foi essa a brecha que o nosso advogado pegou para solicitar o reconhecimento da adoção”, conta Vasco da Gama.

Sim, Vasco da Gama, como o navegador. Neste caso, o primeiro a desbravar o território da adoção por um casal homossexual no Brasil, juntamente com Junior de Carvalho. O calendário mostrava 2006 quando Theodora se torna filha deles. Primeiro de Vasco, depois de Junior, para serpentear a lei da maneira mais fácil. Theodora Carvalho da Gama.

“Quando adotamos a primeira, vamos para o fim da fila. Havia, mais ou menos, trinta e poucos casais na fila. Quando a Helena é libertada para a adoção, somos o primeiro casal da fila”. Passaram-se sete anos desde a adoção de Theodora. E aquilo que parecia coisa de novela da Globo acaba por acontecer na vida real.

“A gente acaba por descobrir que a Helena era irmã biológica da Theodora, da parte da mãe”, revela Vasco.

A vida, tal como neste salão de cabeleireiro, acaba sempre por dar um jeito às pontas soltas. A cumplicidade entre as irmãs, que não se explica só pelo sangue, está à vista de todos. Theodora desliza a mão pelo rosto da irmã. Helena aceita, sabe que é proteção. Os abraços vão surgindo como parte da coreografia. Há uma gratidão pelo inexplicável dom de duas histórias que se unem quando nada apontaria nesse sentido.

“Sempre quis ter uma irmã ou um irmão. Quando descobri que a Helena era minha irmã de sangue, biológica, fiquei bem mais feliz, óbvio”, diz Theodora num sorriso branco que lhe rasga a tez morena.

Os pais são de lágrima fácil. Os olhos inundam-se enquanto observam as filhas contar com orgulho a sua história. “Eu costumo dizer que não é coincidência, é coisa de Deus mesmo. É uma coincidência divina”, nota Junior.

Ou, como Theodora marcou para sempre na pele do braço, um “presente de deus”.

Duas mães? “Eu acho normal”

“Estava destinado. A minha mãe foi amor à primeira vista. As duas. A ligação que tivemos foi tão grande”. Tão grande que superou o maior teste de todos: o do tempo. Filipa Moura era voluntária no orfanato onde Lúcia vivia. E, a cada visita, o amor se tornava mais evidente. Ao ponto de Filipa ser desafiada a um caminho inesperado: primeiro como madrinha civil, depois como adotante. Uma espera de praticamente dez anos, cheia de reviravoltas. E com uma única certeza: Lúcia seria filha, para a vida, independentemente do que dissessem os papéis.

“Adotei a Lúcia 15 dias antes de ela fazer 18 anos. Tive de bater muito o pé, de dizer que ela ia acabar por não ter família. Mas a verdade é que ela teria sempre família. Não teria o vínculo ou o nome, no fundo, o legado, que é algo importante. Acabámos por conseguir, mas não foi um processo fácil”, recorda Filipa Moura. Nunca esteve sozinha neste processo porque, quando ele começou, começava também a relação com Mariana Oliveira.

“Ganhei de bónus uma filha. Foi um presente muito lindo que a vida me deu. Numa questão de um ou dois meses, a Lúcia já me chamava de mãe. Não tive dúvida do amor que tinha por ela”, resume Mariana, com o seu delicado sotaque brasileiro da Bahia, que se replica discretamente na filha.

Lúcia vem do latim “lux”. Luz. É dela que se ilumina o rosto desta adolescente quando fala da família. Não guarda mágoas do passado, do abandono pela família biológica, dos anos passados numa instituição onde se sentia a disputar o amor dos adultos. Essa é uma caixa de que está fechada. O presente, e o futuro dela, tem outros nomes: Filipa, a “mãe”, e Mariana, a “mãinha”. Por muita estranheza que esta configuração familiar possa gerar nos outros.

“É uma pergunta que me fazem sempre, quando descobrem que tenho duas mães. É normal? Eu acho que é normal. Nunca tive um pai e uma mãe. Na minha realidade, é super normal”.

 

O mundo do avesso, na direção certa

Quando receberam “o telefonema”, foi como se tivesse caído o mundo a Gilberto Oliveira e José Pereira. Mesmo quando queremos muito uma boa notícia, nem sempre estamos preparados para ouvi-la. Afinal, foram muitos os sinais de esperança e os “baldes de água fria” antes de o maior sonho se concretizar. “Temos dois irmãos para adotarem”. Depois de anos de espera, tudo se desenrola em questão de dias. A pressão é intencional, porque quem quer um filho tem de torná-lo prioridade. Encaixa-se uma nova vida (ou duas, neste caso) na vida que já se tem. Compram-se roupas e mobílias. Monta-se um novo mundo.

Esta é uma tarde de sol nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto. José à esquerda, Gilberto à direita, os filhos no meio. Lá vai o “cordãozinho de São João” à procura de patos e gaivotas. Os miúdos adoram as aves, apesar de alguns sustos momentâneos, porque os bichos não sabem medir a distância da fome quando há restos de bolachas na mão.

“É óbvio que o momento mais emocionante foi quando os vimos pela primeira vez. Ficaram na porta, paradinhos, a olhar para nós. E nós para eles”, lembra José. É preciso tempo para o reconhecimento, para confirmar que ali está a nascer uma família. Mesmo que fotografias prévias tenham feito as apresentações entre as duas partes - os casais só têm acesso a fotografias das crianças depois de dizerem que “sim” à adoção.

“Não senti imediatamente um amor por aquelas crianças. Senti um carinho e uma vontade de os acolher e de os cuidar”, descreve José. “E de os conquistar”, completa Gilberto. É a prova de que o amor também se constrói, sem regras próprias. “Agora não temos qualquer dúvida do amor imenso que temos por eles”, rematam.

Um filho é uma descoberta constante. Mesmo com uma tenra idade, podem carregar marcas, traumas, sinais de um passado que nenhuma criança deveria experimentar. A missão dos pais também é ensinar a começar do zero, a confiar.

“Eles vêm com uma necessidade de testar, de perceber se aquele terreno é seguro para eles, porque nunca tiveram esse terreno. Os nossos filhos nunca souberam o que era uma família até estarem aqui. Vêm com todos os gatilhos. ‘Deixa lá ver se isto funciona’, ‘É mesmo isto?’”, explica Gilberto.

Amor sem tamanho

António retira Emma da cadeira de rodas. São muitos os passos a cumprir em cada transferência. Fá-lo de forma automática, tantos são os anos de experiência. No sofá ficarão os dois mais confortáveis, num abraço embalado pela música. O som é das coisas que mais estimula Emma. Ela sorri com os olhos, vocaliza. O pai ajuda-a a colocar a mão nos botões da guitarra de plástico.

Foi com Emma que António e Natanael aprenderam o que significa ser pai. O amor sem condições, a entrega, a dedicação. Emma nasceu por barriga de aluguer no outro lado do mundo. Um problema de saúde da gestante durante a gravidez transformou o sonho da paternidade em algo mais exigente. E adiou outros planos.

“Queríamos ter mais do que um filho, sim. Depois do nascimento da Emma, com todas as necessidades médicas que ela teve, a nossa vida acabou por se concentrar muito nela. Aí esquecemos o plano de uma família maior”, conta Natanael Vidal.

Para ter uma rede de apoio maior, com os avós, esta família tomou a decisão de regressar a Portugal, deixando para trás a Irlanda, onde tinham vivido largos anos. O processo para regularizar Emma acabou por se revelar parecido à adoção, com passos e formações semelhantes. Sem essa consciência, Natanael e António estavam a fazer o caminho para o segundo filho. E disso tiveram a certeza quando a Segurança Social os questionou se queriam entrar para a lista de espera. Eles aceitaram, novamente, o que a vida lhes poderia trazer.

“Quando preenchemos os questionários, a única coisa que colocámos foi que queríamos uma criança que fosse completamente independente. Poderia ter algum tipo de deficiência, mas tinha de ser independente”, explica António. O que significa isto? Que o segundo filho teria de conseguir andar, vestir-se, comer sozinho – tarefas que Emma não consegue executar. “Seria complicado para nós ter um filho com as mesmas condições”.

É aí que entra Dinis. Tem agora seis anos, mas quem o vê, tão reguila e agitado, jamais lhe daria essa idade. Dinis é pequenino, tem uma síndrome de desenvolvimento, que poderá ter tido origem na falta de cuidados durante a gravidez.

“Quando nos ligaram, disseram-nos que a criança que tinham disponível teria alguns problemas de saúde, de desenvolvimento. E que, já que nós nos sabíamos mexer um pouco no meio, em termos de terapias e instituições, achavam que seríamos as pessoas ideais para conseguir que aquela criança tivesse um desenvolvimento mais natural”, justifica Natanael.

O tamanho da roupa é sempre um desafio para estes pais. Quando o adotaram, com cerca de quatro anos, a indicação foi para comprarem roupa para 24 meses. Uma das primeiras coisas que António fez, no dia em que foram buscar o filho à instituição, foi espreitar a etiqueta da t-shirt: “12 meses”. “As coisas que tínhamos comprado para ele não serviam. Tivemos de ir outra vez às compras no próprio dia”.

“Mas quem é a mãe?”

Quando se cresce com pouco, ou nada, aprende-se a dar valor ao que verdadeiramente importa. “Tens família? Tens amor? Tens um carinho? Quem te proteja? Então está ótimo”, aponta Lúcia.

Os álbuns de fotografia desta geração estão espalhados pelas memórias dos telemóveis e pelas publicações nas redes sociais. É nesses registos que se confirma uma das coisas mais maravilhosas desta família: mesmo sem partilharem património genético, Lúcia tem traços das duas mães. O formato dos olhos, o cabelo, o tom da pele, o arco do sorriso. Talvez seja por isso que, para muita gente a quem contam a sua história, seja difícil acreditar na adoção.

“Há bastante estranheza. Ouvimos muitas vezes ‘quem é a mãe?’. Respondemos que somos as duas, mas insistem na pergunta. Não sei se é preconceito, se é ignorância. Acho que são os dois”, reage Filipa.

E Mariana remata: “É óbvio que vão sempre existir pessoas com preconceito, com homofobia. Tentamos deixar isso muito claro para a Lúcia, que o mundo talvez não esteja preparado. Tentamos conversar em família e amparar esse lado”.

Até porque famílias como estas continuam a ser raras em contexto português. A lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo foi aprovada em 2016. Os dados disponibilizados à CNN Portugal pela Segurança Social mostram que, na última década, foram mais de 70 as crianças adotadas neste contexto. Ao todo, criaram-se pelo menos 55 famílias. Os dados são relativos ao período entre 2017 e 2024: em 2016, dada a proximidade à aprovação da lei, não existiram casos; os dados de 2025 ainda não estão disponíveis.

(atenção gráfico aqui)

Há alguma diferença? A ciência e a experiência respondem

Perante a estranheza, a discriminação e o preconceito, há uma pergunta que se impõe: aos olhos da ciência, haverá algo que distinga as famílias homoafetivas das heterossexuais, que impacte no desenvolvimento das crianças? “O que é que distingue? Serem dois pais ou duas mães”, arriscam José e Gilberto entre risos.

É, de facto, a resposta que está à vista de todos. Mas a psicóloga Inês Oliveira Ferreira ajuda-nos a mergulhar mais fundo: “O que a evidência nos mostra é que não existe nenhuma diferença. O desenvolvimento de uma criança não se relaciona com a orientação sexual dos pais, mas sim com a qualidade da relação familiar. Tem muito mais a ver com vínculo, segurança, estabilidade emocional”.

Prova disso são Theodora e Helena Carvalho da Gama. Foram preparadas para lidar com o olhar dos outros, preparadas para responder ao preconceito. Os pais, Vasco e Junior, arranjaram as estratégias mais criativas para cultivar a “normalidade”. Nunca faltavam às reuniões de pais, convidavam a escola inteira para os aniversários, deixam as filhas ir a todas as festas dos colegas também. “Assim, o assunto também era discutido dentro da casa dos amigos delas”, argumenta Vasco.

“Para elas, o assunto é completamente normal. ‘Os seus pais são gays?’, ‘São, o que é que tem?’. Não há diferença nenhuma. A nossa família não é diferente de família nenhuma. Lavamos, passamos, cozinhamos, trabalhamos como todas as famílias, apesar de sermos dois homens. Não há motivo para alguém falar seja o que for. Não há argumento”, contrapõe Junior.

Theodora garante que nunca sentiu qualquer forma de discriminação. Teve até colegas a confessar-lhe que também adorariam ter dois pais homens. O facto de ter sido uma espécie de ‘estrela’ da televisão naquela altura, com a cobertura mediática que o caso teve no Brasil, pode ter ajudado. Mas o mesmo já não pode dizer a irmã Helena que, já na escola em Portugal, viu uma colega usar a orientação sexual dos pais como forma de ataque.

“Eu disse-lhe que não tinha nenhum problema, que os meus pais são como os outros. Só muda o facto de serem dois homens. E que eu tenho muito orgulho dos meus pais”, recorda. Theodora apressa-se a completar o argumento: “é uma família normal, a única diferença é que são dois homens”.

Respostas que são reflexo de muitas conversas ao longo dos anos. Para os casais homossexuais com filhos, não há “a conversa”. É preciso que existam vários momentos de sensibilização para a diferença, adaptados à idade dos miúdos.

“Se há alguma diferença em relação a estas crianças, pode estar relacionada com a empatia e com a tolerância, porque estes temas são mais discutidos no seio destas famílias do que habitualmente nas restantes”, nota a psicóloga Inês Oliveira Ferreira.

Vasco e Junior concordam: “as crianças não têm esses conceitos, não têm maldade. O preconceito vem da família, da educação. É preciso ter muito cuidado com o que se diz. Você acha que a criança não está a prestar atenção naquilo que você diz, mas ela presta mais atenção do que os adultos”.

Proteger os filhos

Em cima da mesa de vidro da cozinha há uma caixa de sapatos. Dinis levanta a tampa. Há outra família dentro da sua própria família. Os bichos-da-seda estão a transformar-se. “Está a fazer um casulo e depois vai transformar-se em…”. O pai António aproveita a oportunidade para um pequeno teste. “Borboleta”, responde o rapaz em microssegundos.

Para Dinis, o orfanato era “a escola dos bebés”. E foi na escola dos mais crescidos que ele começou a perceber que todas as famílias são diferentes – inclusive a dele. “Tivemos de ter uma conversa, para a idade dele, a dizer que havia vários tipos de famílias”, explica Natanael.

Conversas como esta terão de acontecer várias vezes ao longo do crescimento de Dinis, para que ele consiga fazer o seu próprio caminho, defender-se sozinho. É um bocadinho como andar de bicicleta, uma das suas atividades favoritas. Agora tem de fazê-lo com rodinhas, com os pais sempre a supervisionar tudo. Mas chegará o dia em que o equilíbrio virá dele próprio.

“Até agora, nunca sentimos nenhuma discriminação. Há abertura. Também temos dois filhos lindos, o que ajuda um bocadinho. As pessoas olham para eles, ‘ah, tão bonitos’, e esquecem-se de tudo o resto que está à volta”, justifica Natanael.

Dlim, dlão, cabeça de… Cão? Gato? Pato? É a única divisão entre a família no parque infantil. A brincadeira segue. Os pés dos irmãos vão até ao céu, cada um na sua direção. Gilberto e José dão o balanço necessário à felicidade dos filhos. “Durante o processo de adoção, sempre nos disseram o que parecia óbvio: que iam procurar os pais certos para a criança certa”.

Eles são os pais certos para estes dois irmãos. Porque querem proteger os filhos de um “mundo que pode ser cruel”. Porque não querem que os filhos sejam atacados por causa da sua orientação sexual. Ainda assim, com a consciência de que a natureza humana é pródiga em encontrar motivos para conflitos. “Eles, como qualquer criança, têm muitas frentes por onde ser atacados ou por onde atacar. Estas aqui são duas visíveis: a adoção e os pais serem gays”, reage Gilberto.

O que a instituição não pode dar

Há um álbum de fotografias na casa da família Vidal-Ferreira cheio de pontas dobradas. Tem uma capa de plástico translúcido e argolas de metal de unir as folhas. Não há dia em que Dinis não lhe toque. “Olha, aqui eu era bebé”, “aqui é a piscina da minha casa”, “vim cá para casa e fiquei feliz”. Foi com ele que o rapaz se preparou para uma nova vida.

“A Segurança Social pediu-nos para fazer um pequeno álbum com fotografias da casa, nossas, da Emma, do futuro quarto. Ele olhava para aquele livro como uma vida futura”, explica Natanael Vidal. Com uma família, Dinis não ganhou só bases. Aprendeu o que pareceu básico para qualquer criança nos primeiros anos de vida.

“Há vivências e experiências que a instituição não é capaz de dar. Quando o recebemos, o Dinis não sabia o que era um supermercado. Só reconhecia as uvas e a banana”, aponta António Ferreira. “A pera e a maçã também”, completa o outro pai.

Pelo mesmo passou Lúcia, agora maior de idade. Para ela, são claras as diferenças entre uma instituição e uma casa, inclusive nas coisas mais simples: “Ter alguém que me dê um banho, que me ensine que o meu cabelo é bonito, que me mostre que está tudo bem em ser quem sou, foi uma coisa muito boa. A minha família não é estranha, é perfeita”.

Mesmo que as mães, tal como acontece em milhares de outras famílias, se tenham separado. Acabou a relação amorosa, não a ligação entre as três. Lúcia defende o seu lar de todas as críticas, até das mais infundadas. Uma delas é recorrente: “‘Tens duas mães, deves ser homossexual’. Não, sou heterossexual. Ter duas mães não implica nem uma coisa nem a outra”.

A evidência científica segue no mesmo sentido. “São críticas totalmente infundadas. Não é a orientação dos pais que define a orientação da criança. Temos, como exemplo, os casais heterossexuais que têm filhos com uma orientação diferente”, atesta a psicóloga Inês Oliveira Ferreira.

A “nuvem negra” dos discursos conservadores

O rapaz de um lado, a rapariga do outro. A mola do balancé contorce-se. O pato desafia a gravidade. E Gilberto não se contém na proteção. “Não larguem as mãos, sempre agarrados”. Mesmo com uma tarde de sol, há “uma nuvem negra que vai pairando”.

É a metáfora de uma preocupação transversal a estas famílias: a ascensão de discursos conservadores e, com eles, a possibilidade de inversões na legislação. “Vamos vendo as notícias e percebendo que essa nuvem se torna mais intensa. E não é, de todo, fantasiosa. Vemos a realidade realmente a andar para trás”. E, por fim, um desabafo de Gilberto: “Muitas vezes digo ‘bom, já conseguimos adotar’. Ufa, mas ainda assim…”.

Posição semelhante têm Filipa Moura e Mariana Oliveira. “É um pouco assustador, a mim assusta-me bastante”, começa a primeira. “São vários passos atrás que temos estado a ver. E depois há também a agressividade das pessoas”, completa a segunda.

É a prova de que, quando um direito se conquista, por mais basilar que ele pareça, há sempre a sombra de um recuo. A psicóloga Inês Oliveira Ferreira explica que este estado de espírito é fácil de entender: “estes pais não têm o controlo sobre a nossa legislação, daí ser tão válido esse receio de que possa haver algum retrocesso”.

Dinis e Emma passam alheios a estas preocupações também partilhadas pelos pais. Há aviões para alinhar em fila e fazer voar. Há músicas tradicionais para estimular a imaginação. Natanael observa o marido e os filhos confortavelmente deitados no sofá. Os olhos brilham, o sorriso instala-se, embevecido.

“Temos de continuar a viver a nossa vida normalmente, como dois pais que têm as mesmas dificuldades que um pai e uma mãe têm. Temos as mesmas vivências, o mesmo trabalho, as mesmas preocupações”, defende Natanael. António conclui: “Toda a gente passa demasiado tempo a tentar estabelecer regras para como é que os outros deveriam viver a vida deles”.

A natureza das famílias

Lúcia, Filipa e Mariana percorrem os jardins do Palácio Nacional de Queluz. A escolha para o cenário da entrevista não foi delas, mas calhou bem por ficar pertinho de casa. Espantam-se com o cuidado nas sebes do jardim, com as figuras mitológicas nas fontes, com a imponência das fachadas. Aqui viveu, outrora, uma família real. Tão real como a delas. Real nos afetos, real nos ensinamentos.

“A minha filha ensinou-me a ter paciência, a amar incondicionalmente, a ser forte. Ensinou-me a viver, com muita vontade e felicidade”, resume Mariana.

A vários quilómetros de distância, Vasco e Junior acabaram de cuidar do cabelo das filhas. Helena teve direito a uma trança que lhe segura o cabelo atrás das orelhas. Theodora, por ter cabelo curto, a uma ligeira manutenção nas pontas. Está tudo pronto para a fotografia de família.

Há uma árvore de raízes profundas nas traseiras do salão. Esta família desenhou a sua própria árvore genealógica, com raízes mais profundas do que o sangue. Helena aventura-se a subir, aproveitando a brecha entre os ramos. Junior estica-lhe o braço direito, Vasco sustenta-a pelas costas. “A vida é assim, para cima, filha”. E ela sobe, embora com receios. A irmã observa tudo. No seu âmago, uma lição de vida: “o amor vai reconstruindo aos poucos”.

Numa clareira dos Jardins do Palácio de Cristal, com vista privilegiada para o Douro que corre para o mar, Gilberto abraça o filho, segurado com delicadeza no colo. A irmã no colo de José balança-se e procura ninho onde encostar a cabeça. O sono começa a chegar. Foi um dia cheio de emoções.

“Não estamos aqui a definir ideologias. Estamos a criar dois seres humanos para serem autónomos neste mundo. Eles, depois, farão as escolhas deles”, posiciona Gilberto. “Estamos a guiá-los, a dar-lhes as possibilidades que eles não teriam de outra forma. É o que qualquer pai, sendo heterossexual ou homossexual, quer”, completa José.

Na casa onde esta história começou, António define-se como o mais “aventureiro”. Mas Natanael desafia as alergias para mostrar as flores silvestres aos filhos. É primavera, a paisagem está em transformação. “Isto é o pólen, vê lá se o teu dedo ficou amarelo”. Dinis delicia-se com a descoberta. Emma solta uma tosse ligeira. Para os pais, a verdadeira preocupação é uma noite em que ela não tussa.

Cada família é um lugar onde o mundo começa. A prova de que o amor não tem formas – nem fórmulas. E de que essa é a sua natureza.

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