O facto de haver mais casas para arrendar no mercado está já a refletir-se no preço, naquilo que para muitos inquilinos será uma boa notícia
Há mais casas para arrendar em Lisboa, muito mais aliás, segundo os últimos dados das plataformas imobiliárias. E não só a oferta aumentou consideravelmente como as rendas estão a cair.
A Confidencial Imobiliário revela esta quarta-feira que houve um aumento de 41% na oferta de casas para arrendar em Lisboa, quando comparado o quarto trimestre de 2024 com o mesmo período de 2023. E não só há mais casas no mercado, como, segundo a Confidencial Imobiliário, as rendas dos contratos fechados na capital nos últimos quatro meses de 2024 caíram 2,7% face ao trimestre anterior.
Realidade semelhante traça a plataforma Idealista, mais otimista nos números da oferta disponível: fala num aumento de 72% no concelho de Lisboa e de 58% no distrito.
Tanta confiança, tanto dinheiro para ganhar
A pergunta é imediata: como é que se explica um aumento tão acentuado nas casas disponíveis para arrendar em Lisboa? A resposta implica vários pontos.
Reconhecendo que “nada mudou do ponto de vista legislativo ou do enquadramento legal no mercado”, Ricardo Guimarães, diretor da Confidencial Imobiliário, explica à CNN Portugal que não foi à custa da crise da inflação e do aumento dos juros, como se esperava, que mais habitações chegaram ao mercado.
Está antes no facto de, perante tanta procura e tão pouca oferta, os preços terem subido, tornando este negócio “mais atrativo” para mais proprietários. “Em muitas geografias, como o centro histórico, é mais rentável ter a casa em arrendamento habitacional do que, por exemplo, em alojamento local”, diz.
O facto de haver mais casas para arrendar no mercado está já a refletir-se no preço, naquilo que para muitos inquilinos será uma boa notícia: está a ter um “efeito travão”. “Mais oferta tem sempre um efeito na contenção dos preços”, confirma o especialista.
Não será, antecipa, razão para inverter o ciclo, tornando as rendas tão baixas ao ponto de voltar a afastar os proprietários. Segundo Ricardo Guimarães, as necessidades continuam a ser muitas, daí que não haja muita margem para descidas assinaláveis.
“É um momento atrativo para dinamizar o mercado de arrendamento”, garante, mesmo que quem entre amanhã no mercado possa não conseguir um valor tão alto como hoje.
Para além do mercado
A explicação para esta realidade poderá ir além do funcionamento do mercado.
“A atividade de arrendamento em Lisboa registou uma contração em meados do ano passado, algo que pode ser explicado tanto pelos novos estímulos à compra de casa, como a descida dos juros ou a isenção de IMT Jovem”, argumenta fonte oficial da plataforma Idealista, acrescentando a “maior rentabilidade dos imóveis adquiridos para arrendar” e a “chegada de novos empreendimentos imobiliários à cidade”.
Ricardo Guimarães da Confidencial Imobiliário não consegue estabelecer uma ponte entre o facto de haver mais casas para arrendar e os incentivos à compra pelos jovens criados pelo Governo.
Mas há outros possíveis argumentos para este cenário. Perante o facto de as empresas estarem a limitar as regras do teletrabalho e a consciência de que há mais paraísos para além de Portugal, haverá nómadas digitais a abandonar os imóveis que tinham arrendado, fazendo-os regressar ao mercado.
Depois, perante a atratividade nas rendas em Lisboa, há também famílias que optam por colocar a sua própria casa a arrendar, mudando-se para zonas mais periféricas do distrito. Tal permitir-lhes-á suportar o custo da nova renda, garantir um extra nos seus rendimentos e, em vários casos, ganhar espaço. “Admito que possa compensar”, diz Ricardo Guimarães.
Muitas explicações, mas sem motivos perfeitamente "claros"
Vera Gouveia Barros, economista especializada na área da habitação, não consegue encontrar motivos “claros” para justificar estes dados das plataformas imobiliárias no que respeita à maior oferta para arrendamento. Ainda assim, arrisca com possíveis explicações.
Para os dados apresentados, uma das explicações passa pelo facto de existirem hoje mais contratos de arrendamento a passar pelo crivo das agências imobiliárias, facilitando esse retrato. Antes, diz à CNN Portugal, bastava o “boca a boca” para conseguir arrendar uma casa em poucas horas. Hoje, como o prazo acaba por ser maior, pode tornar-se necessário ter um intermediário.
Vera Gouveia Barros admite que também existam mais casas a regressar ao mercado porque os respetivos donos decidiram não renovar os contratos de arrendamento que já tinham, contando assim como nova oferta.
Por fim, a economista reconhece um outro movimento de saída, já da parte dos inquilinos: “Pode ser um fenómeno pelo facto de as taxas de juro terem baixado e algumas pessoas tentaram ir para a opção de compra”, libertando os imóveis onde viviam.
Mais casas para arrendar em todo o país
Segundo o Idealista, a oferta disponível para arrendar em Portugal disparou 59% no quarto trimestre de 2024, numa comparação em termos homólogos.
No que respeita a capitais de distrito, Aveiro registou um crescimento de 111% e Braga de 80%. Lisboa partilha o terceiro lugar com Faro, com 72%.