De terceiro guarda-redes do Ajax a titular dos Países Baixos... aos 38 anos

4 out, 11:02
Remko Pasveer

A incrível história de Remko Pasveer: depois de uma carreira modesta de duas décadas, que passou até pela II Liga, fez história no campeão neerlandês, convenceu Van Gaal e vai ser titular no Mundial. Ele que se estreou na Champions com um frango em Alvalade e partiu o dedo no aquecimento para um jogo na Luz.

Os divorciados costumam dizer que gostam de ver o filme do casamento de trás para a frente: tiram a aliança do dedo, entram no carro e vão à vida deles. Piadas de gosto duvidoso à parte, é indiscutível que a vida de Remko Pasveer é bem melhor vista de trás para a frente.

Depois de uma longa e muito modesta carreira, o guarda-redes chegou ao Ajax com 37 anos.

Num clube reconhecido mundialmente por ser uma fábrica de talentos, em que um reforço com mais de vinte anos já é considerado velho, consegue imaginar-se a surpresa que representou a contratação de Remko Pasveer. Erik ten Hag não quis saber disso.

«Apesar da idade, conseguimos ver que Pasveer está a progredir todos os dias. Na verdade, ele é como o vinho. Fica melhor à medida que envelhece», justificou na altura o treinador.

Mas há mais.

Estreou-se na Liga dos Campeões em Alvalade, foi chamado pela primeira vez à seleção dos Países Baixos agora em setembro e tudo indica que vai ser titular num Mundial já com 39 anos.

Mas quem é, afinal, Remko Pasveer?

Filho de Eddie Pasveer, um antigo guarda-redes do Twente e do De Graafschap, nasceu em novembro de 1983, em Enschede, perto da fronteira com a Alemanha.

O pai tinha feito toda a carreira na região e o filho começou muito cedo a seguir as mesmas pisadas no SC Enschede, o pequeno clube onde o pai acabara a carreira.

Já com idade adulta, foi contratado pelo Twente, a equipa grande da cidade de Enschede, à qual chegou em 2003. Nunca conseguiu tornar-se titular, em três épocas realizou apenas quinze jogos, e saiu então para o Heracles Almelo... onde foi orientado pelo pai.

Apesar de ter o progenitor como treinador de guarda-redes, as duas primeiras épocas não correram bem e Remko Pasveer foi então emprestado ao Go Ahead Eagles, da II Liga.

«Marc Overmars foi fundamental na minha história. Já me tinha abordado algumas vezes antes, por exemplo em 2006, quando jogava no Go Ahead e eu era suplente no Twente. Nessa altura preferi o Heracles, mas fui sobretudo suplente de Martin Pieckenhagen», contou Pasveer. 

«Dois anos depois, Overmars falou outra vez comigo e contratou-me para o Go Ahead, que jogava na segunda divisão, por empréstimo.»

Em dois anos realizou 84 jogos, manteve a baliza inviolada em 32 deles e ganhou o bilhete de regresso ao Heracles, desta vez para ser titular... outra vez sob a orientação do pai.

Estávamos em 2010, Remko Pasveer tinha 26 anos e só nessa altura se afirmou como titular de uma equipa da segunda metade da tabela. O que estava longe de ser uma conquista promissora.

«Em 2010 voltei ao Heracles e fui titular durante quatro temporadas. Em 2014.Overmars quis contratar-me outra vez, quando já estava no Ajax. Escolhi o PSV porque achei que teria mais hipóteses de jogar lá. O Ajax tinha acabado de contratar Jasper Cillessen», adiantou.

«No fim de contas, passei três anos no PSV, fui campeão duas vezes, mas sempre como suplente. Para além do facto de não ter jogado, diverti-me muito.»

Remko Pasveer tinha feito quatro anos muito bons no Heracles, não quis renovar contrato e mudou-se para o PSV a custo zero. Em Eindhoven foi campeão na primeira época, estreando-se já com o título matematicamente conseguido, e viu os colegas serem campeões também na segunda época, mas nunca jogou: o PSV só garantiu o título na última jornada.

Após três anos quase sempre no banco, durante os quais jogou sobretudo na equipa B, o guarda-redes saiu a custo zero para o Vitesse. Mas a sorte demorou a mudar.

«O meu primeiro ano no Vitesse foi muito fraco. Nesse ano o meu pai teve que fazer uma cirurgia de coração aberto e estava a lutar pela vida. Um acontecimento tão violento marca-te muito, eu não estava focado a cem por cento. Nessa época o meu jogo foi criticado», disse.

«Depois da operação perdi a esperança de que ficasse melhor. Mas ele acabou por sair do coma e eu disse-lhe que tinha escolhido o Vitesse. Ele piscou os olhos. Mais tarde conseguiu recuperar. Hoje o meu pai está bem, até consegue andar e pedalar novamente.»

Após um primeiro ano mau e um segundo ano no banco, como suplente do português Eduardo, Remko Pasveer afirmou-se como titular do Vitesse e tornou-se até capitão da equipa. O que atraiu a atenção de um velho conhecido: Marc Overmaars, então diretor desportivo do Ajax.

«Tinha decidido assinar com o Vitesse mais um ano. De repente, Overmars ligou-me e perguntou se estava interessado em ir para o Ajax. Ofereceu-me um contrato de dois anos.»

No verão de 2001 saiu então, mais uma vez a custo zero, para o gigante de Amesterdão, já com 37 anos e com o objetivo de ser o terceiro guarda-redes do plantel.

Até que algo surpreendente aconteceu.

O titular Onana tinha sido suspenso por doping pelo TAS, Steckelenburg lesionou-se e Pasveer foi chamado a assumir a baliza. Em Alvalade, frente ao Sporting, estreou-se até na Liga dos Campeões. Deu um frango, mas por falta de alternativas manteve o lugar no onze.

A partir daí criou a história mais romântica dos últimos anos em Amesterdão.

Durante doze jogos na Liga Neerlandesa sofreu apenas dois golos, manteve a baliza inviolável nas goleadas sobre o Borussia Dortmund (4-0) e o PSV (5-0). Cometeu até a proeza de parar três remates enquadrados com a baliza de Haaland, o que dizem que foi uma estreia.

«Acho que isso diz tudo, não é?», sorriu o guarda-redes no fim do jogo.

«Marcámos quatro golos, não sofremos nenhum, acho que os adeptos do Ajax não podem pedir mais. Foi uma das melhores noites da minha carreira.»

No final do ano Remko Pasveer tinha feito a melhor época da carreira. Aos 38 anos. O Ajax foi campeão sofrendo uma média de meio golo por jogo e o veterano guarda-redes tornou-se uma das figuras da equipa. A temporada só teve um amargo: a eliminatória com o Benfica.

«No aquecimento para o jogo em Lisboa lesionei-me no dedo. Os médicos ainda estavam a ver o que era, eu apertei o dedo e disse: acho que estou bem. Fita, analgésico e vamos. Durante o jogo senti o dedo a inchar. Quando tocava na bola doía-me muito. Quando voltámos a Amesterdão, fui imediatamente ao hospital e disseram-me que o dedo estava quebrado.» 

A época terminou nessa altura, no fim de fevereiro, para o guarda-redes. O Ajax tinha apenas dez golos sofridos (seis na Champions e quatro na Liga Neerlandesa). Depois de ele sair da equipa, as coisas não correram tão bem. O clube foi afastado da Champions na segunda mão em casa, perante o Benfica, e em onze jogos do campeonato sofreu... quinze golos.

«Não quero levar o crédito todo, mas sou um tipo de guarda-redes diferente. A minha força é que eu vejo o jogo e dou muita importância a quem está à minha frente. Eu orientei-os, eles ouviram-me e as coisas funcionaram como um relógio até à minha lesão. É muito simples: se estivermos em harmonia, eles acertam mais vezes e eu tenho menos trabalho», revelou.

«Eu sou aquilo a que gosto de chamar um guarda-redes preventivo.»

Esta capacidade de orientar os defesas, assente numa experiência de 25 anos – que leva até os colegas a dizerem que ele já faz parte da mobília da Liga Neerlandesa –, mas esta capacidade de orientar os defesas, dizia-se, somada a um excelente jogo de pés convenceu até Van Gaal.

O selecionador dos Países Baixos gosta de guarda-redes que saibam começar a construir, pelo que não hesitou em dar-lhe a titularidade nesta jornada internacional: estreando-o na seleção com muito respeitáveis 38 anos. Nesta altura, tudo indica que vai ser titular no Mundial, aliás.

O que só vem reforçar as palavras de Ten Hag no início deste texto, Remko Pasveer é como o vinho, fica cada vez melhor à medida que envelhece.

E neste conto de fadas, 1983 foi um ano de bom vinho.

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