Estes relógios do "Dia D" são feitos com areia da Normandia e capacetes da Segunda Guerra Mundial

CNN , Oscar Holland
7 dez 2025, 16:00
O novo relógio comemorativo do desembarque da Normandia. (Maroussia Productions for Col&MacArthur)

Numa era em que os relógios se encontram na maioria dos bolsos e em todos os ecrãs, o trunfo da fabricante Col&MacArthur não é apenas o tempo, mas a própria história.

Conhecida por utilizar materiais não convencionais — desde água do mar de Pearl Harbor a pó de meteoritos lunares — em prol da narrativa da relojoaria, a marca assinala agora os desembarques do Dia D com uma série de relógios produzidos a partir de capacetes e mochilas de soldados norte-americanos, bem como de areia das praias da Normandia.

"As pessoas não compram este relógio para ver as horas", afirmou o diretor-executivo da empresa, Sébastien Colen, a partir da Bélgica, onde o antigo quadro do setor energético cofundou a empresa em 2013. "É porque os faz regressar a um lugar do passado".

Colen passou três anos a desenvolver um protótipo para o seu Normandie 1944, um relógio de luxo que incorpora metal de um M-1, o capacete padrão utilizado pelo exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Adquirido a um comerciante de recordações militares em Dallas, no Texas, o capacete foi espalmado numa prensa — e não com um martelo — para preservar as marcas e imperfeições originais. A folha de metal resultante foi depois cortada em círculos para serem incorporados nos mostradores e inseridos nas caixas de 43 milímetros dos relógios, no atelier da marca em Liège, na Bélgica.

A Col&MacArthur adquiriu os capacetes a um antiquário especializado em objetos militares. (Maroussia Productions for Col&MacArthur)

As peças são produzidas por encomenda, o que significa que o número de capacetes necessários depende do volume de vendas. Um M-1 contém metal suficiente para "cerca de 20" relógios, explicou Colen. A marca está atualmente a aceitar encomendas através de uma campanha no Kickstarter, que já angariou mais de 86 mil dólares até ao momento.

O design apresenta ainda uma pequena cápsula com areia da Normandia e uma bracelete feita a partir de uma mochila M-1928, amplamente utilizada pelo exército norte-americano durante o conflito. O mostrador exibe um mapa histórico da praia de Omaha, nome de código dado a uma das cinco áreas de desembarque — juntamente com Utah, Gold, Juno e Sword — utilizadas pelas tropas aliadas no Dia D.

A Operação Neptuno, como também é conhecida, foi a maior invasão anfíbia da história, marcando um ponto de viragem crucial na guerra. O M-1 foi usado pela grande maioria dos 73 mil soldados norte-americanos que desembarcaram na Normandia — nas praias ou via aérea — a 6 de junho de 1944. O desenho dos capacetes, de tamanho único, era composto por uma carapaça exterior de aço manganês e um forro interior ajustável ligado a uma tira de queixo em couro.

O M-1 era o capacete padrão das tropas do Exército dos EUA que desembarcaram na Normandia no Dia D. (Robert F. Sargent/STF/Arquivos Nacionais/AFP/Getty Images)

Na ausência de marcas de identificação, é muitas vezes impossível associar capacetes individuais a soldados ou batalhas específicas. Embora a Col&MacArthur não possa garantir que cada capacete M-1 utilizado tenha estado presente nos desembarques do Dia D, os certificados de autenticidade do revendedor, Gustafsons, confirmam que foram usados durante a libertação da Europa.

A marca produzirá duas versões do relógio, com preços que refletem as diferenças nos mecanismos internos. A edição premium "Legacy" (com um preço de 1.749 dólares e limitada a uma tiragem simbólica de 1.944 unidades) apresenta um movimento de fabrico suíço, enquanto a versão normal (699 dólares) utiliza um movimento japonês mais acessível.

Questões éticas

Colen teve a ideia quando visitou a Ciney Militaria, na Bélgica, uma das maiores feiras de colecionismo militar do mundo. De seguida, deslocou-se à Normandia para falar com os habitantes locais e familiarizar-se com o contexto geográfico. "É muito importante irmos ao local para o sentirmos", explicou.

Ao contrário dos capacetes e das mochilas, a areia representava um obstáculo legal: a recolha de areia de qualquer praia francesa é proibida por lei. Os locais do Dia D na Normandia são muito procurados por colecionadores de recordações (o Ministério da Cultura francês pediu, entretanto, à UNESCO que lhes atribuísse o estatuto de Património Mundial) e, embora as autoridades tolerem a recolha de pequenas quantidades para uso pessoal, fazê-lo em grande escala ou para fins comerciais pode resultar em multas de 1.500 euros (cerca de 1.724 dólares).

Para contornar a questão, Colen pediu autorização a um autarca local, cujos serviços o aconselharam a recolher areia que o vento arrastara naturalmente da praia de Sword Beach para uma estrada adjacente. "Se queremos respeitar a memória, é muito importante fazermos as coisas como deve ser", sublinhou o responsável.

A areia da praia está contida numa cápsula — posicionada às 9 horas — na caixa do relógio. (Maroussia Productions para Col&MacArthur)

À medida que os relógios entrarem em produção, surgem outras considerações éticas. Entre elas, a questão da utilização de partes manchadas das mochilas — possivelmente com vestígios de sangue — no verso das braceletes, ou se estas devem ser evitadas durante o corte. "É delicado, porque algumas pessoas podem sentir-se ofendidas. Mas, por outro lado, para mim é algo muito importante de mostrar", observou Colen, sem oferecer uma resposta definitiva sobre como abordará o dilema. "É uma questão de autenticidade".

Existe ainda a questão moral mais lata sobre se os artefactos históricos devem ser intencionalmente destruídos. Os capacetes M-1 foram produzidos em massa — com mais de 20 milhões fabricados entre 1941 e 1945 — e são relativamente comuns no mercado de colecionadores, onde normalmente rendem centenas, e não milhares, de dólares cada. Ainda assim, Colen compreende o motivo pelo qual a decisão de os reciclar em artigos de luxo pode ser alvo de críticas.

"Sempre que fazemos um projeto, questionamo-nos seriamente: 'Será respeitoso?'", referiu, citando Winston Churchill, para quem aqueles que "não aprendem com a história estão condenados a repeti-la".

"É exatamente isso que está a acontecer hoje", argumentou. "Portanto, em vez de ter um capacete parado num armazém, este está num relógio, suscita emoção e recorda-nos, todos os dias, os acontecimentos do passado".

Memórias "tangíveis"

A curta história da Col&MacArthur está enraizada na tradição militar britânica, e não na norte-americana. Originalmente uma colaboração entre Colen e o antigo militar britânico Iain Wood, a empresa foi fundada há 12 anos para produzir relógios para a Scots Guards, o antigo regimento de Wood. Mais tarde, a dupla desenhou peças para vários regimentos da Guarda Real, as sentinelas que protegem os palácios de Buckingham e de St. James, em Londres.

Em 2017, a marca começou a trabalhar numa linha de relógios para assinalar o centenário da Primeira Guerra Mundial — um dos quais foi oferecido ao Presidente francês, Emmanuel Macron. O sucesso do modelo ditou uma mudança de rumo em direção a peças centradas em grandes figuras e eventos históricos. "Sem o saber na altura, já estava a trabalhar nos nossos primeiros relógios comemorativos", recordou Colen.

Um capacete M1 sobre uma espingarda M1 Garand virada para cima durante uma cerimónia comemorativa do Dia D, que marcou o 80.º aniversário da operação no ano passado. (Ludovic Marin/AFP/Getty Images)

Nos anos seguintes, a relojoaria lançou coleções baseadas em mais de uma dúzia de temas, desde Leonardo da Vinci à Batalha de Inglaterra. Muitos deles contêm artefactos "tangíveis", incluindo pó lunar proveniente de um meteorito (utilizado em relógios dedicados à missão Apollo 11) e água de Pearl Harbor (encapsulada entre cristais de safira em relógios que comemoram o ataque japonês à base naval norte-americana, em 1941).

Se a mais recente campanha de financiamento colaborativo ultrapassar os 100 mil dólares, a Col&MacArthur começará a investir na próxima coleção: relógios que imortalizam a Batalha das Ardenas, a última ofensiva da Alemanha nazi na Frente Ocidental. Colen planeia incorporar no design fragmentos de um obus lançado sobre a cidade belga de Bastogne.

"Em cada relógio, tentamos realmente integrar algo único", concluiu.

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