Governo paga stands de Feira das Vocações da Jornada Mundial da Juventude. Igreja aluga-os por 600 euros

5 jun 2023, 21:15

Cidade da Alegria, em Belém, reúne Feira das Vocações e Parque do Perdão. Igreja católica diz que aluguer dos stands pagos pelo Estado vai ajudar a financiar todas as atividades do espaço.

O Governo ficou com a obrigação de pagar boa parte das despesas da chamada Cidade da Alegria, um dos principais espaços da Jornada Mundial da Juventude que vai trazer o Papa Francisco a Lisboa em agosto e que reunirá, em Belém, o Parque do Perdão com 150 confessionários e a Feira das Vocações com 150 stands de movimentos e congregações católicas. 

Numa organização conjunta em que grande parte dos gastos com a Jornada Mundial da Juventude são partilhados entre os cofres públicos e a Igreja Católica, o Exclusivo da TVI (do grupo da CNN Portugal) tentou saber quanto cabe a cada entidade nesta Cidade da Alegria. Uma Resolução do Conselho de Ministros de 2022 dizia que o Parque do Perdão e a Feira das Vocações seriam organizadas pelo Estado. 

A Igreja recusou revelar o memorando assinado com o Governo e as autarquias envolvidas, mas o documento entretanto consultado por outra via, tal como um posterior protocolo, confirmam que boa parte das despesas com a Cidade da Alegria está do lado do Estado. 

Um orçamento feito em 2022 pela Câmara de Lisboa chegou mesmo a prever despesas públicas de 3 milhões de euros com a Cidade da Alegria

Os valores finais agora revelados à TVI pela Igreja e pelo grupo de projeto do Governo para a Jornada Mundial da Juventude revela valores muito mais modestos, mas mesmo assim elevados para as contas públicas. 

Governo garante “contenção de despesas”

Ao todo, a Igreja católica estima gastar 380 mil euros com a Cidade da Alegria, valor que do lado do Governo ronda os 120 mil. 

O grupo de projeto liderado por José Sá Fernandes sublinha que este tem tido uma “postura de contenção de despesas”, dizendo que, “mesmo num procedimento por ajuste direto, conseguimos adjudicar pelo valor mais baixo" e acrescentando que “a estimativa da própria Câmara de Lisboa, entidade à qual estava afeta este procedimento desde o início, era muitíssimo superior ao valor agora despendido pelo Governo".

As despesas com a Cidade da Alegria são criticadas pela Associação República e Laicidade que há muito defende a separação entre o Estado e qualquer religião, algo escrito na Constituição da República Portuguesa, recordando o caso de Espanha onde a Jornada Mundial da Juventude de 2011 não contou com apoios públicos. 

No caso das despesas da Feira das Vocações, o presidente da associação, Ricardo Alves, afirma que “não é da competência do Estado chamar as pessoas para uma vocação religiosa na Igreja Católica que atravessa uma crise de vocações”. 

Stands chamam jovens para vocação religiosa

O memorando e o protocolo consultados pelo Exclusivo confirmam que o Estado paga inúmeras despesas da Cidade da Alegria, entre elas a limpeza e a segurança do recinto, bem como a maioria dos equipamentos. 

A despesa pública mais significativa do Estado envolve o aluguer de 150 stands que serão usados pelas organizações religiosas da Feira das Vocações, apesar do site da Jornada Mundial da Juventude revelar que o comité organizador local da Igreja está a cobrar 600 euros pelo aluguer de cada stand a essas mesmas organizações religiosas. 

Questionado, o grupo de projeto do Governo remete a opção anterior para a Igreja Católica: "A gestão do evento é da responsabilidade exclusiva do comité organizador local que, tal como cobra alguns serviços a peregrinos e voluntários, tem neste evento um modelo de gestão que compreende o pagamento de uma verba pela utilização dos stands".

“Todas as entidades que financiam a Jornada sabem que a Fundação Jornada Mundial da Juventude cobra determinadas verbas pela utilização preferencial da maior parte dos recintos", continua a resposta escrita enviada pelo gabinete de José Sá Fernandes.

Igreja promete doar eventuais lucros

A Igreja também respondeu por escrito e confirma que ao todo o aluguer dos stands deverá render 76 mil euros (20% das despesas que terá com a Cidade da Alegria). Segundo a Fundação Jornada Mundial da Juventude, “o valor cobrado aos movimentos e congregações religiosas para apresentação dos seus projetos na Feira Vocacional é uma contribuição nas despesas necessárias para a realização do conjunto de atividades da Cidade da Alegria". 

A mesma resposta deixa, contudo, uma promessa: "As receitas extraordinárias que possam advir serão doadas à Ordem Hospitaleira de São João de Deus para apoio a jovens no campo da saúde mental".

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