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Padre do Opus Dei nos Colégios Fomento e na Paróquia de Ramalde (Porto)

Mãe, não podemos levar tudo?

12 ago 2025, 12:40

Porto, Aeroporto Francisco Sá Carneiro numa manhã de 6.ª feira. Muita confusão, vozes misturadas com os anúncios que se ouviam pelos altifalantes. À minha frente, no check-in, uma família vivia um drama. Havia três malas abertas no chão, roupas espalhadas e no rosto da mãe um misto de pressa e frustração. O pai pesava cada mala na balança portátil, e a funcionária da companhia aérea, com um sorriso treinado, dizia:
- Esta passa… aquela não. Esta está acima do limite.

A criança mais nova segurava um urso de peluche, e a mais velha perguntava: “Mãe, mas não podemos levar tudo?”. Ocorreu-me então um pensamento, enquanto os via tirar casacos, livros e brinquedos para conseguir fechar as malas.

Aquelas malas são uma metáfora da nossa existência e do nosso coração. Não podemos levar tudo. Temos de escolher.

Gostaríamos de viver sem limites. A sociedade promete-nos tantas coisas impossíveis:

- Perca 30 kgs num mês sem passar fome;

- Prepare-se para uma maratona em 72 horas;

- Aprenda a falar fluentemente alemão com este curso de 10 aulas online;

- Converta-se num cozinheiro Michelin num workshop de fim-de-semana. 

Nascemos com limites. O tempo é limitado: só temos 24 horas por dia. O corpo é limitado: não podemos estar em 2 lugares ao mesmo tempo. A mente é limitada: não podemos aprender alemão em 3 aulas. O coração é limitado: não conseguimos amar tudo e todos.

Aceitar isso não é resignar-se, é tornar-se realista. O Papa Leão XIV disse no Jubileu dos Jovens: “ A escolha é um ato humano fundamental. Não se trata apenas de escolher algo, mas de escolher alguém e de saber quem somos”. 

Sem limites, não temos identidade. Se alguém me pedir para desenhar um mapa de Portugal, eu desenho as linhas com os seus limites. Na verdade, eu não desenho Portugal, mas sim onde começa e termina Portugal. Sem limites, não sei quem sou. 

A lição daquela manhã no aeroporto assemelha-se à que podemos ler na Bíblia, no Génesis. Adão e Eva tinham um paraíso inteiro à disposição. Mas havia um limite: a árvore do conhecimento do bem e do mal. A tentação não foi simplesmente desejar algo proibido, mas rejeitar a condição de criatura. Eles quiseram tudo. Quiseram ser como Deus, mas sem Deus. E é precisamente aí que está o desafio: quando rejeitamos os nossos limites, recusamos também a relação de confiança com Quem nos criou. 

Os mandamentos, a nossa consciência sobre o bem e o mal e até mesmo os “nãos” de Deus, não são barreiras para nos oprimir, mas para nos guardar.

Li há uns anos o livro The 7 Habits of Highly Effective People de Stephen Covey que recorda algumas ideias de como estabelecer prioridades. No primeiro hábito "Put First Things First", sugere dicas que podem ajudar: 

1. Coloque primeiro o que é mais importante. E mesmo que nem sempre tenhamos essa consciência, Deus faz parte do que mais importa na vida. Não o deixemos fora da mala. Lembremo-nos que Ele nos espera na Missa de domingo. Fale com Deus logo de manhã e pergunte-Lhe: “Jesus, quais são as 3 coisas que me pedes para hoje”? E peça-lhe ajuda para o pôr em prática. 

2. Dê atenção à família. Passe tempo de qualidade com a família, sem telemóvel à mesa ou durante as conversas. Planeie momentos de leitura, conversas distendidas com os filhos. Escute sem pressa o que os filhos ou cônjuge têm para dizer. 

3. Cuide das amizades verdadeiras. Os amigos são parte da bagagem que torna a vida mais leve. Marque um café com alguém que não vê há muito tempo; telefone a esse amigo que está a passar por uma fase difícil; dê os parabéns àquele que faz anos.

4. Inclua o voluntariado no seu dia. Visite um familiar doente ou idoso, pergunte ao seu pároco se precisa de ajuda, participe numa campanha de recolha de alimentos, apoie uma instituição.

5. Tire da mala o que pesa: não perca tempo com discussões antigas, ressentimentos, comparações com os outros que o deixam sempre sem energia.

***

No aeroporto, aquela família finalmente fechou as malas. Ficaram umas poucas coisas para trás. Assim também é a nossa vida. Não vamos chegar ao Céu com tudo o que gostaríamos. Mas se tivermos escolhido o essencial (Deus e os outros) não nos vai faltar nada. Porque no destino final já não haverá limites. Só plenitude. E o peso da mala já não importará porque Aquele que nos espera levará sobre Si tudo o resto.

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