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O novo relatório climático da ONU é aborrecido... até deixar de o ser

CNN , Andrew Freedman
3 abr, 12:00
Um veículo de emergência atravessa um bairro devastado pelo incêndio de Eaton, a 9 de janeiro de 2025, em Altadena, Califórnia. Está a entrar mais energia térmica no sistema terrestre, o que está a resultar num planeta mais quente e com mais catástrofes relacionadas com o clima, como o incêndio de Eaton. John Locher/AP

Há mais de 30 anos que a Organização Meteorológica Mundial das Nações Unidas nos alerta para o agravamento das alterações climáticas globais. O seu relatório anual "Estado do Clima" é um compêndio de factos e números sobre a evolução do clima, recolhidos ao longo dos 365 dias anteriores. Trata-se de um olhar fidedigno sobre o estado do nosso clima global e a sua condição cada vez mais precária.

E eu, enquanto jornalista especializado em ambiente, quase nunca escrevo uma linha sobre o assunto.

A edição deste ano, referente a 2025, é hoje publicada.

As conclusões são duras, até assustadoras. Mas, como acontece todos os anos, também soam um pouco a repetição. Antes de avançar para a próxima reportagem, costumo pensar: "O que há de exatamente novo aqui".

Não sou o único a desvalorizar este lançamento em particular. A cobertura mediática de edições anteriores do "Estado do Clima" e de documentos semelhantes já demonstrou que os leitores têm pouco interesse em notícias sobre mais um relatório da ONU com avisos de desgraça iminente.

O facto de os últimos 11 anos terem sido os mais quentes de que há registo? Que tédio. O anúncio de que os gases com efeito de estufa na atmosfera atingiram níveis sem precedentes em toda a história da humanidade? Acordem-me quando houver novidades. Os oceanos estão a aquecer a um ritmo nunca antes visto? Mas isso já nós sabíamos, certo?

As conclusões deveriam ser lembretes chocantes de que os sinais vitais do planeta estão no vermelho. No entanto, foram feitas observações semelhantes no ano passado e no ano anterior a esse.

Contudo, o simples facto de estes relatórios parecerem demasiado rotineiros para merecerem destaque noticioso é a prova da rapidez com que as alterações climáticas avançaram, mesmo que apenas na última década. Infelizmente, criámos uma certa imunidade às más notícias sobre o clima.

Embora os dados individuais possam já ter sido noticiados, esta edição contém informações mais detalhadas e perturbadoras sobre o clima do que qualquer outra no passado. Se fosse um audiolivro, estaria repleto de gritos em vez de palavras, com o narrador dominado pela urgência da informação transmitida.

Essa constatação levou-me a dar o passo (para mim, invulgar) de partilhar consigo as conclusões deste lançamento. Além disso, o compêndio deste ano inclui alguns dados que não constavam nas edições passadas (informação inédita que ajuda a explicar a aceleração da taxa de aquecimento global nos últimos anos).

Uma das secções do documento detalha o desequilíbrio energético da Terra: a quantidade de energia solar que a atmosfera deixa entrar em comparação com a que volta a escapar para o espaço. Qualquer energia extra retida na atmosfera ou nos oceanos atua como um agente de aquecimento.

Para que o clima do nosso planeta mantenha uma temperatura média global estável, esta equação tem de estar equilibrada.

No entanto, o relatório concluiu que, em 2025, o desequilíbrio foi superior a tudo o que já se observou nos 65 anos de registos destes dados. A disparidade tem vindo a aumentar durante as últimas duas décadas, culminando agora neste novo máximo.

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, alertou em comunicado que "as atividades humanas estão a perturbar cada vez mais o equilíbrio natural e viveremos com estas consequências durante centenas e milhares de anos".

Curiosamente, o documento nota que apenas uma pequena parte do excesso de calor contribui para o aquecimento da atmosfera. Mais de 91% do calor excedentário está a ser armazenado nos oceanos, onde as temperaturas atingiram um máximo histórico no ano passado. Este excesso também está a aquecer e a derreter as calotes polares, elevando o nível do mar em todo o mundo.

Os níveis recorde de gases com efeito de estufa no ar explicam igualmente a razão pela qual tantos fenómenos extremos, desde ondas de calor a inundações, ocorrem agora com maior regularidade e gravidade.

No fim de contas, o relatório sobre o "Estado do Clima" pode não ser uma notícia propriamente dita, mas não deixa de ser fundamental. É um documento ao qual voltarei ao longo do ano como ponto de referência, mantendo a firme convicção de não desvalorizar a edição do próximo ano quando esta chegar à minha caixa de correio eletrónico.

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