A atratividade física, a segurança financeira e o estatuto social podem impressionar as pessoas inicialmente – gerando atração a curto prazo e interesse sexual. Mas, em última análise, os estudos mostram que criam distância em vez de proximidade e podem impedir uma verdadeira ligação
Pense no empresário de sucesso e viajante mundial que diz que preenche os critérios quer de “mais de 1,80 metro” como de “mais de 6 cifras”. Ou no CEO que procura uma bela musa para partilhar “aventuras internacionais” e um “estilo de vida requintado”. Depois, há o tipo fotografado no banco do condutor de um descapotável azul que insiste que é “menos idiota do que pareço”.
Percorra os perfis de encontros e irá encontrar publicações que destacam repetidamente três qualidades específicas: “aparência, dinheiro e estatuto” — ou LMS (na sigla inglesa), para quem está a par da gíria moderna do mundo dos encontros.
Claro, promover as características do LMS pode fazer com que mais pessoas façam swipe para a direita, mas se estiver à procura de um amor duradouro, esta mesma tríade pode deixá-lo sozinho.
A atratividade física, a segurança financeira e o estatuto social podem impressionar as pessoas inicialmente – gerando atração a curto prazo e interesse sexual. Mas, em última análise, os estudos mostram que criam distância em vez de proximidade e podem impedir uma verdadeira ligação.
Muitos norte-americanos acreditam que, se fossem mais ricos, mais bem-sucedidos ou mais bonitos, sentir-se-iam mais amados, explicam a especialista em felicidade Sonja Lyubomirsky e o investigador de relações Harry Reis.
A ciência conta uma história diferente.
Em vez de tentar impressionar, procure ser conhecido, exortam os autores no seu livro recente, «How To Feel Loved: The Five Mindsets That Get You More of What Matters Most». Lyubomirsky, professora emérita de psicologia na Universidade da Califórnia, em Riverside, e Reis, professor de psicologia na Universidade de Rochester, em Nova Iorque, apresentam estratégias baseadas em evidências para criar laços significativos e amorosos – relações de qualidade que, segundo estudos, têm impacto tanto na doença quanto na saúde.
Ao mesmo nível que a comida e a água
Muito mais do que apenas algo agradável de se ter, uma ligação afetiva é um requisito essencial para o bem-estar.
Isto porque os seres humanos são uma espécie social. Os nossos cérebros de mamíferos interpretam o sentimento de não ser amado como uma ameaça à sobrevivência. Como as raízes do sentimento de ser amado estão profundamente enterradas nas partes mais antigas do cérebro, Lyubomirsky e Reis avançam no seu livro a hipótese de que “os seres humanos não teriam sobrevivido como espécie sem o sentimento de ser amado”.
Décadas de evidências que demonstram o papel fundamental da ligação social tanto para a saúde mental quanto para a física reforçam esta ideia. E a influência que tanto as relações românticas quanto as platónicas têm ao longo da vida de uma pessoa suscita preocupações relativamente ao atual declínio da saúde social.
Os custos das ligações perdidas
“A ligação social é tão essencial quanto a comida e a água”, escreveu Kasley Killam no seu livro «A Arte e a Ciência da Ligação Social: Por que razão a Saúde Social é a Chave que Falta para uma Vida Mais Longa, Mais Saudável e Mais Feliz».
“Nos últimos 30 anos, a percentagem de norte-americanos com 10 ou mais amigos íntimos diminuiu 20 por cento”, aponta Killam. No entanto, os norte-americanos anseiam por uma maior proximidade.
Embora mais de 75% dos participantes no American Friendship Project de 2024 tenham afirmado estar satisfeitos com o número de amigos que têm, mais de 40% sentiam que não eram tão próximos dos seus amigos como gostariam. Sentir falta de conexão é, segundo Killam, extremamente perigoso – aumenta o risco de acidente vascular cerebral (AVC), de demência e de morte prematura.
Mitos como obstáculos a esse sentimento de amor
Se o que está em jogo é assim tão importante — e os benefícios tão significativos —, por que razão não somos mais capazes de criar e manter esse sentimento de amor? Porque ficamos presos a crenças erradas sobre o que realmente nos trará o amor de que precisamos?
É o que questionam Lyubomirsky e Reis, que apontam cinco mitos fundamentais que interferem na sensação de ser amado:
🚫 Se ao menos eu fosse mais atraente, poderoso ou tivesse mais sucesso
🚫 Se ao menos pudesse ter a certeza de que os outros conhecem os meus sucessos e qualidades positivas
🚫 Se ao menos eu pudesse esconder as minhas falhas
🚫 Se ao menos o meu parceiro soubesse falar a minha linguagem de amor
🚫 Se ao menos o meu parceiro gostasse mais de mim
Afinal, sentir-se amado não resulta de mudanças em nós próprios ou nos outros. Em vez disso, como as investigações demonstram, resulta de mudarmos as nossas conversas.
O impacto amoroso de uma conversa franca
Para dar e receber mais amor, Lyubomirsky e Reis aconselham melhorar a sua forma de comunicar através destas estratégias:
- Ouvir para aprender. Da próxima vez que estiver numa conversa, em vez de ficar à espera para intervir com uma resposta, acalme a sua voz interior e ouça como se a sua única tarefa fosse compreender. Pergunte a si mesmo: como é que esta pessoa se sente neste momento?
Tente isto: Ouça sem interromper. Acene com a cabeça, reflita, faça uma pergunta complementar e evite dar conselhos, a menos que lhos peçam. Basta mostrar à outra pessoa que ela é importante para si.
- Mostre genuína curiosidade através de perguntas melhores. Vá além do «Como foi o teu dia?» com convites à partilha como estes: «O que aconteceu esta semana que te fez refletir?» ou «O que é que as pessoas interpretam mal a teu respeito?»
Tente isto: Faça uma pergunta que nunca tenha feito antes, por exemplo: «Sobre que assunto mudaste de opinião?» Depois, ouça a resposta.
- Partilhe partes importantes da sua pessoa, não de uma só vez mas gradualmente. Não precisa de partilhar os seus segredos mais íntimos logo de início; comece aos poucos.
Tente isto: Em vez de dizer «Estou bem», diga algo mais sincero, como «Estou nervoso com a apresentação de amanhã» ou «Hoje estou a ter dificuldades».
- Partilhe calor humano e bondade. Mostre que se preocupa com o bem-estar dos outros, oferecendo um sorriso caloroso, um tom de voz gentil, um breve contacto ou uma mensagem atenciosa.
Tente isto: Partilhe um elogio sincero que, normalmente, guardaria para si. Os pequenos gestos de gentileza que deixam transparecer a sua simpatia vão-se somando.
- Demonstre compaixão sem julgamentos. Abra caminho para a empatia, oferecendo compreensão e substituindo rótulos por perguntas. Em vez de pensar «São egoístas», pergunte-se: «Que fardo estarão a carregar neste momento que possa estar a motivar este comportamento?»
Tente isto: Tente ver as coisas com mais distância. Em vez de julgar uma pessoa com base num momento difícil, pare para considerar as circunstâncias atenuantes. A pessoa pode estar cansada, stressada, de luto ou com medo – por outras palavras, é humana. Aceite como um dado adquirido que pode não conhecer toda a história.
Estas abordagens também funcionam em relações de longo prazo. Muitas vezes pensamos que conhecemos os nossos parceiros de cor e salteado, mas esta falsa suposição pode fazer com que deixemos de fazer as perguntas curiosas que podem fomentar uma ligação verdadeira. Lembre-se de que não sabe tudo sobre a outra pessoa e considere fazer perguntas que possam suscitar respostas que o surpreendam.
O problema não é o TMI, mas sim o TLI
Outra ideia errada que impede que nos sintamos amados é a presunção de que fazer perguntas pode parecer intromissão. Na verdade, a maioria das pessoas, quando questionada com respeito e com base numa curiosidade genuína, aprecia a oportunidade de se abrir com os outros.
Da mesma forma, embora a maioria de nós se preocupe em partilhar TMI (too much information, demasiada informação), estudos demonstram que o verdadeiro problema advém, na maioria das vezes, do TLI (too little information, muito pouca informação).
A auto-revelação está entre as ferramentas mais subestimadas para construir confiança, ligação e influência, como argumenta a cientista da decisão Leslie John no seu livro «Revealing: The Underrated Power of Oversharing». Ela encara a auto-revelação como um investimento – um “risco ao serviço da confiança”. Mostrar vulnerabilidade é “uma das formas mais antigas e belamente humanas de construirmos ligações”, escreve John.
Seja em contextos pessoais ou profissionais, e mesmo quando parece imprudente, revelar mais sobre si próprio pode ser uma poderosa ferramenta interpessoal. Chega mesmo a curar-nos “emocional, mental e fisicamente”, explica John, citando estudos que indicam que partilhar pode reforçar a função imunitária, reduzir a depressão e até acelerar a recuperação.
Pense em diálogo, não monólogo
Se partilhar é tão bom para aproximar as pessoas, por que razão, quando confrontadas com um monólogo incessante de revelações pessoais, tantas sentem a necessidade de fugir? Como era de esperar, as partilhas excessivas e unilaterais carecem do ritmo de interação recíproca que ajuda as pessoas a sentirem-se mais próximas.
Partilhar com habilidade, de formas que promovam a ligação, nem sempre é fácil, insistem Lyubomirsky e Reis. O sucesso requer uma sintonia mútua entre os indivíduos, quando “a interação decorre de forma harmoniosa, aprofundando o vínculo entre eles à medida que coordenam os seus passos”.
Mesmo que alguns tropeços e erros sejam uma parte inevitável da prática deste tipo de comunicação, desenvolver ligações profundas é demasiado importante para não se tentar.
Tornar-se um ouvinte ativo e encorajador pode transmitir que reconhece a humanidade da outra pessoa e que deseja que ela seja feliz. Demonstrar amor ao conceder a alguém este tipo de atenção ajuda a reforçar as suas crenças, valores e até mesmo a autoestima. Esse é o tipo de amor que tem mais probabilidades de ser retribuído.
Não admira que alguns afirmem que as três palavras mais irresistíveis da língua inglesa são: «Tell me more» – “conta-me mais”.
À procura de mais amor? Faça este quiz, desenvolvido por Lyubomirsky para os leitores de «How To Feel Loved», para saber mais sobre quais as abordagens que tornam as coisas mais difíceis e mais fáceis para si a nível pessoal.
Jessica DuLong é uma jornalista, colaboradora de livros e orientadora de escrita sediada em Brooklyn, Nova Iorque, e autora de «Saved at the Seawall: Stories From the September 11 Boat Lift»
