Não há só burnout profissional. Também pode acontecer na vida a dois. Quando o cansaço, o distanciamento e a frustração se instalam, é hora de agir. Especialistas explicam como
Nota do editor: Ian Kerner é terapeuta matrimonial e familiar licenciado, escritor e colaborador da CNN sobre o tema das relações. O seu livro mais recente é um guia para casais, intitulado "So Tell Me About the Last Time You Had Sex" (Conte-me sobre a última vez que fez sexo).
Costuma sentir-se magoado ou ressentido com o seu parceiro? Custa-lhe mais voltar para casa depois do trabalho do que ir trabalhar? Está tão cansado que nem tem energia para um programa a dois, quanto mais para o sexo que poderia acontecer depois? Quando pensa no futuro, sente que vai ser mais do mesmo?
Estes podem ser sinais de burnout (esgotamento) na relação, e é possível que esteja a passar por isso.
A maioria dos terapeutas lida com pacientes que estão esgotados ou a caminhar para isso: exaustos, sob stress, a sentir-se cínicos e até indiferentes. Como terapeuta de casais, vejo cada vez mais clientes que estão a passar por esgotamento na relação.
Estes casais estão igualmente stressados e exaustos com todas as exigências em casa, mas também se ressentem dos parceiros, têm uma sensação de incompatibilidade crescente, só veem um futuro em que nada vai mudar ou deixaram de acreditar no futuro com o seu parceiro.
Quando converso com casais, muitos não compreendem que podem ficar esgotados nas suas relações da mesma forma que ficam esgotados nos seus empregos. E, assim como é possível recuperar do burnout no trabalho, também é possível recuperar do esgotamento na relação – ou deixar para trás uma situação que já não é saudável para si.
Consultei alguns colegas para conhecer a sua opinião sobre as causas do esgotamento nas relações - e como os casais podem lidar com isso.
O que é o burnout nas relações?
As relações íntimas precisam de cuidados e atenção, assim como as amizades.
"O burnout (esgotamento) relacional é um estado de exaustão emocional que surge quando as pressões e exigências de manter uma relação ultrapassam os recursos e o apoio disponíveis para a alimentar”, diz Rachel Needle, psicóloga licenciada e codiretora do Modern Sex Therapy Institutes.
Este desgaste não afeta apenas os casais a nível emocional. Pode também ter um impacto profundo na vida sexual e na intimidade, alerta Eva Dillon, psicoterapeuta em Nova Iorque: "Quando uma ou ambas as pessoas estão a sofrer de exaustão emocional ou mental, muitas vezes isso leva a um afastamento emocional, a uma diminuição da libido e a um declínio da intimidade e da atividade sexual."
Vários fatores podem contribuir para o esgotamento da relação, desde uma divisão desigual do trabalho em casa (um dos parceiros tem mais responsabilidades domésticas), falta de equilíbrio entre a vida profissional e pessoal (um ou ambos os parceiros sentem-se esgotados no trabalho), tensões familiares (conflitos com os pais ou sogros), estagnação da relação (cair em rotinas repetitivas) e tédio (sexual ou emocional).
"Normalmente, não resulta de uma única rutura ou crise aguda", afirma Needle, que se encontra em West Palm Beach, na Florida. "É a acumulação lenta e o desgaste gradual causado por necessidades não satisfeitas, conflitos por resolver, fatores crónicos de stress e desconexão contínua."
Aqui, Needle, Dillon e outros especialistas partilham conselhos para os casais lidarem com o burnout e revitalizarem a sua relação.
Reconheça o problema
Reconhecer que a relação chegou a um estado de esgotamento é o primeiro passo, de acordo com a sexóloga e educadora sexual Yvonne Kristin Fulbright - que sublinha que a chave é fazê-lo sem culpar ou criticar o outro.
"Fale por si, usando expressões como 'tenho reparado' ou 'sinto que' e pergunte ao seu parceiro como se tem sentido em relação às coisas", aponta Fulbright, que se encontra na Islândia. "Tenha uma conversa sincera sobre os fatores de stress e frustrações, permitindo que cada um se expresse sem interrupções."
Assuma responsabilidade
Parte do burnout pode passar por culpar o outro e não assumir responsabilidade pelo estado das coisas.
"Quando há burnout, é comum pensar que a solução passa por o outro mudar", explica Eric Rosenblum, terapeuta familiar e conjugal em Nova Iorque. "Mas o melhor caminho é refletir sobre o seu próprio papel na dinâmica da relação e pensar no que pode mudar em si para ajudar a relação a evoluir."
Parte deste trabalho pode mesmo ser feito sozinho, sem o seu parceiro, refere a terapeuta sexual Rebecca Sokoll, de Nova Iorque.
"Tente anotar os momentos em que os seus sentimentos ou pensamentos negativos estão a apontar para o seu parceiro", aponta Sokoll por e-mail. "Em seguida, veja se consegue voltar o seu olhar para o outro lado da questão, que é a sua contribuição, como colaborou na criação do problema. Anote isso também. Não tem de mostrá-lo a ninguém - veja apenas como se sente ao escrevê-lo."
Não deixe de comunicar
Muitas vezes, o burnout agrava-se porque os casais ignoram os problemas até se sentirem sobrecarregados. Reserve algum tempo por semana para conversar com o seu parceiro.
"Tenham uma conversa sobre o seu desejo de melhorar a relação, onde ambos possam dar a sua opinião", sugere Sokoll. "Ouçam as necessidades um do outro e tentem fazer pequenas mudanças com as quais ambos se sintam bem. Esta não deve ser uma conversa pontual, mas sim algo contínuo."
A ideia de falar sobre assuntos sérios pode ser stressante, mas a comunicação pode ajudá-lo a sentir-se mais tranquilo, segundo Dillon.
"PPartilhar com o seu parceiro que está com dificuldades pode ajudar a regular o sistema nervoso e criar espaço para a conexão", explica. "A partir daí, pode realizar pequenos mas poderosos gestos que acalmam ainda mais o sistema nervoso: um beijo de seis segundos, um abraço prolongado, um passeio ao ar livre, um carinho, ler em voz alta ou intimidade sexual."
Experimentem algo novo, juntos
Dar prioridade ao tempo a dois é fundamental para evitar o burnout (esgotamento) da relação. Proteja esse tempo e reserve-o como faria com um compromisso importante ou uma reunião de trabalho.
Needle recomenda apostar em experiências novas - como experimentar uma nova aula juntos, fazer uma caminhada ou até mesmo cozinhar uma receita nova - para reacender a ligação e o entusiasmo. A novidade e a diversão também podem ajudar a aproximar-se sem que pareça uma obrigação", acrescenta Sokoll.
"Coloquem os telemóveis noutra sala com o toque desligado e façam um jogo ou algo divertido juntos", sugere. E há um bónus: "O lado lúdico está frequentemente ligado ao lado sexual, por isso, isto pode também ajudar casais esgotados a reaproximarem-se sexualmente ".
Cuide de si, também
Quando partilha a vida com alguém - financeiramente, como pais ou companheiros de casa - é fácil esquecer-se da importância do tempo a sós e da autorreflexão, ambos necessários para evitar o burnout.
"No final das contas, é preciso lidar com o burnout individual para conseguir lidar com o esgotamento da relação", aponta Fulbright. Pense em formas de se renovar individualmente - criar uma rotina de exercícios, dormir melhor, praticar ioga ou meditação, ter hobbies - e incentivem-se mutuamente a autocuidarem-se. "Ao revitalizar-se, está a recuperar a energia que precisa para lidar com as questões da relação."
Consulte um profissional
Não tem de enfrentar tudo sozinho. Procurar ajuda especializada com um terapeuta de casal ou terapeuta sexual pode muni-lo de estratégias para lidar com o burnout e restaurar a ligação emocional e sexual, especialmente se sente que precisa de alguém neutro ou um mediador para orientá-lo durante o processo.
Não há necessidade de esperar: "Procurar apoio profissional, quando os primeiros sinais de burnout surgem, pode ajudar a redefinir a dinâmica antes que os danos se agravem”, sublinha Needle.
Lidar com o burnout é essencial para manter uma relação saudável e gratificante - trata-se de passar de padrões de afastamento para gestos conscientes de reconexão. Ao reconhecer os sinais e tomar medidas proativas, os casais podem restaurar a intimidade e a ligação.