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É este o homem que quer ser primeiro-ministro e levar o Reino Unido de volta à União Europeia

16 mai, 21:00
Wes Streeting (Getty)
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Wes Streeting ainda não é candidato a primeiro-ministro. Mas já fez aquilo que os candidatos fazem antes de poderem sê-lo. Marcou uma fronteira, escolheu um adversário e disse em voz alta a frase que o Partido Trabalhista evitou durante anos: o Brexit foi um erro e o Reino Unido deve voltar a olhar para a União Europeia como destino, não apenas como vizinhança

O antigo ministro da Saúde britânico confirmou este sábado, numa conferência do Progress, grupo ligado à ala modernizadora trabalhista, que entrará numa corrida à liderança se ela for aberta. A corrida ainda não existe. Keir Starmer continua em Downing Street. Mas a pressão interna cresce e Streeting quis entrar no debate antes de haver linha de partida.

Segundo o Guardian, a sua proposta passa por uma “nova relação especial” com a União Europeia e por admitir, no futuro, o regresso do Reino Unido ao bloco. Não prometeu uma adesão imediata, nem poderia fazê-lo. Mas chamou ao Brexit um “erro catastrófico” e deslocou a discussão para o ponto mais sensível da política britânica desde 2016: a saída da União Europeia prometeu controlo, soberania e prosperidade. Mas, quase dez anos depois, até dentro do partido do Governo começa a ser possível dizer que a promessa falhou.

Streeting não falou só da Europa. Atacou também a forma como Starmer governa e dirige o partido. Acusou-o de ter criado uma cultura pesada, pouco aberta a ideias e demasiado preocupada em evitar riscos. Disse que os trabalhistas chegaram ao poder mal preparados em demasiadas áreas e com falta de visão. Chamou “catástrofe” ao corte no apoio ao aquecimento no inverno. E defendeu uma “batalha de ideias”, não uma sucessão controlada por disciplina interna.

A frase também tinha destinatário. Andy Burnham, presidente da câmara metropolitana de Manchester e antigo ministro trabalhista, tenta regressar ao Parlamento numa eleição parcial em Makerfield, uma circunscrição eleitoral na zona de Wigan, no noroeste de Inglaterra. Se voltar a ser deputado, poderá disputar a liderança. Streeting disse que uma corrida sem Burnham perderia legitimidade. Soa a generosidade, mas é também aviso: quer uma luta com os principais nomes em campo.

A Europa é o risco maior dessa plataforma. Starmer foi contra o Brexit, mas como primeiro-ministro tem evitado defender o regresso à União Europeia, ao mercado único ou à união aduaneira. Prefere uma aproximação lenta, feita por acordos: comércio com menos barreiras, cooperação em defesa, segurança, energia, alimentação, talvez mobilidade para jovens. É uma política de costura. Wes Streeting aponta para outra coisa. Não apenas remendar o divórcio, mas admitir que ele pode ter sido o caminho errado.

Voltar, porém, não seria carregar num botão. O Reino Unido poderia pedir adesão ao abrigo do artigo 49.º do Tratado da União Europeia, como qualquer Estado europeu que respeite os critérios democráticos e institucionais. Mas teria de convencer os 27 países da União, obter luz verde do Parlamento Europeu e aceitar um novo tratado de adesão. Bastaria um Estado-membro bloquear para tudo parar. E Bruxelas dificilmente ofereceria a Londres as condições especiais que o país tinha antes de sair.

Esse é o ponto que Streeting ainda deixa no nevoeiro. Regressar à União Europeia significaria aceitar regras comuns, contribuir para o orçamento europeu, negociar a questão da livre circulação de pessoas, aproximar-se novamente do mercado único e discutir o lugar da libra num clube onde os novos membros assumem, pelo menos no papel, o compromisso de adotar um dia o euro. O Reino Unido também já não teria garantido o antigo desconto orçamental nem as exceções políticas que fizeram da sua presença na União uma adesão sempre desconfiada, sempre à parte.

Por isso a pergunta não é apenas se o regresso é possível. Porque é possível. A pergunta é quanto custaria, em soberania, dinheiro e política interna. Um novo referendo seria quase inevitável, mesmo que não obrigatório, pois nenhum Governo britânico conseguiria desfazer o Brexit sem voltar a pedir autorização aos eleitores. E uma campanha dessas abriria outra vez a ferida de 2016. Para os jovens, os urbanos e os pró-europeus, Wes Streeting pode parecer o primeiro dirigente trabalhista disposto a dizer o óbvio. Mas para Nigel Farage e a Reform UK, seria o presente perfeito: a prova de que o Labour quer anular a vontade popular.

Streeting tenta escapar a essa armadilha falando menos de saudade europeia e mais de economia, defesa e peso internacional. A ideia não é voltar porque Londres se arrependeu, mas porque o comércio ficou mais difícil, o crescimento mais fraco, a Rússia mais agressiva e os Estados Unidos menos previsíveis. A Europa surge, no seu discurso, não como memória, mas como abrigo e escala.

O problema é que Streeting leva para esta discussão outro fardo. Foi ministro da Saúde e saiu de uma das pastas mais difíceis do Governo. A sua passagem ficou marcada pelo braço de ferro com os médicos internos — os “resident doctors”, como são agora chamados no Reino Unido os antigos “junior doctors” — numa greve que voltou a paralisar hospitais entre 7 e 13 de abril. Estes médicos estão em formação especializada, mas são essenciais ao funcionamento diário do NHS, o Serviço Nacional de Saúde britânico.

É esta a contradição que Streeting terá de resolver. Quer apresentar-se como o político que devolve ideias ao Labour e Europa ao Reino Unido, mas traz consigo o desgaste da Saúde, das greves, das listas de espera e de um Governo que ele próprio acusa de ter chegado ao poder sem preparação suficiente. Quer romper com a cautela de Starmer, mas ainda precisa de provar que a sua ousadia é mais do que impaciência.

Por agora, não há candidatura formal, não há sucessão aberta e não há pedido britânico para regressar à União Europeia. Há uma frase nova no centro da política britânica. Um possível sucessor de Starmer decidiu dizer que o Reino Unido talvez tenha saído pela porta errada. E que, “um dia”, poderá ter de descobrir em que condições o deixam voltar.

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