Tudo o que Rishi Sunak pode dizer é que não está assustado - e tudo o que se disse de Liz Truss é que não pediu desculpas

25 out, 19:24

Está feita a passagem de pasta. Eis como aconteceu

Não houve membros do partido Conservador a aplaudir o novo primeiro-ministro à porta do número de 10 de Downing Street, esta terça-feira de manhã, quando Rishi Sunak se dirigiu pela primeira vez ao país. Ao contrário do que costuma acontecer, Sunak não quis ter ali os seus apoiantes: o objetivo era não dar a imagem de um partido dividido. Não estando nenhum, pode sempre imaginar-se que estão todos com ele. Mas Sunak sabe que unir os conservadores é uma tarefa difícil, depois de Liz Truss e de Boris Johnson. Da mesma maneira que sabe que dificilmente terá o apoio de todo o Reino Unido, uma vez que chega ao Governo sem passar por um processo eleitoral - nem no partido, nem no país - e num momento em que as sondagens dão uma vantagem de mais de 30 pontos percentuais ao partido Trabalhador.

Ainda assim, foi com uma voz determinada e um semblante sério que declarou: "Irei unir o nosso país, não com palavras mas com as ações". E prometeu ainda: "Este governo terá integridade, profissionalismo e responsabilização em todos os níveis".

"Sei que tenho de trabalhar para restaurar a confiança depois de tudo o que aconteceu", disse. "Tudo o que posso dizer é que não estou assustado."

Sunak, de 42 anos, admitiu que a sua antecessora tinha cometido "alguns erros" e que, portanto, "decisões difíceis" têm de ser tomadas. "Ela não estava errada em tentar aumentar o crescimento económico do país, foi um objetivo nobre." No entanto, apesar das "boas intenções", "alguns erros foram cometidos": "O meu trabalho é corrigir esse erros e esse trabalho começa agora". Prometeu trabalhar "dia e noite" com esse objetivo: "O governo que liderarei não deixará à próxima geração, aos vossos filhos e netos, uma dívida para pagar porque estávamos demasiado fracos para a pagarmos nós", garantiu. 

Não sabemos muito sobre o que será o programa político deste novo governo. Sunak falou do difícil momento económico que o Reino Unido e o mundo enfrentam - ainda com os efeitos da covid-19, uma guerra em curso na Ucrânia e uma crise energética sem precedentes - e definiu a "estabilidade económica" como prioridade do seu governo. Não prometeu baixar os impostos aos cidadãos mas comprometeu-se com um vago programa de investimento na saúde e na educação, ao lado do controlo das fronteiras e de ruas mais seguras. 

"Estou aqui diante de vós, pronto para liderar o nosso país em direção ao futuro. Para colocar as vossas necessidades acima da política e construir um governo que represente as melhores tradições do meu partido. Juntos podemos alcançar coisas incríveis. Criaremos um futuro digno dos sacrifícios que tantos fizeram e encheremos o amanhã e todos os dias seguintes com esperança."

Uma transição rápida mas com muitos pontos de interrogação para o futuro

A transição aconteceu durante a manhã, quase sem atrasos. Depois de se reunir pela última vez com o seu Conselho de Ministros, pelas 10:15 Liz Truss falou pela última vez ao país enquanto primeira-ministra e, logo a seguir, dirigiu-se ao Palácio de Buckingham para apresentar a demissão oficial ao rei Carlos III. Pouco depois de ter deixado o palácio, chegou Sunak. Esteve reunido reunido com o rei Carlos III, que o indigitou primeiro-ministro e encarregou de formar governo enquanto líder do partido com a maioria parlamentar. Antes do meio-dia, Rishi Sunak já era o 57º primeiro-ministro do Reino Unido - o terceiro só este ano. Em Downing Street mal houve tempo para mudar o púlpito. Depois da sua breve declaração, o primeiro-ministro entrou na sua nova residência e, pouco depois, dirigiu-se ao parlamento, onde começou imediatamente a trabalhar -  por um lado, recebendo os anteriores ministros e recebendo as suas cartas de demissão, por outro, formando o seu próprio governo. 

Os analistas elogiaram-lhe a educação e a aparente sensatez. E logo a seguir começaram a chover as felicitações vindas de todos os cantos do mundo - desde o antigo primeiro-ministro Boris Johnson ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, passando por Macron (França), Biden (EUA) ou Trudeau (Canadá).

Mas também houve vozes críticas. O conservador Huw Merriman, por exemplo, disse que o governo de Rishi Sunak provavelmente será "mais chato" - algo que ele acredita ser apenas "o que as pessoas querem". "Ele vai administrar o número 10 de Downing Street como um diretor-executivo administraria o seu próprio escritório", disse Merriman ao programa World at One da BBC. "Acho que isso trará um ambiente de calma e solidez... Não queremos agitação. Não queremos mais turbulência."

E o líder trabalhista, Keir Starmer, afirmou que Sunak será "um primeiro-ministro fraco que terá de colocar o seu partido em primeiro lugar e o país em segundo". Starmer recorda que Sunak não se poderá distanciar da política conservadora dos últimos meses e dos últimos anos: "Ele foi o chanceler que deixou a Grã-Bretanha com o crescimento mais baixo de entre os países desenvolvidos, a inflação mais alta e milhões de pessoas preocupadas com as suas contas. E agora pretende fazer com que os trabalhadores paguem o preço por todos os males que os conservadores fizeram à economia".

À superfície, Sunak tem muito a seu favor: o facto de ser uma voz da razão depois do desastroso mandato de Truss e de ter conseguido acalmar os mercados. No entanto, tal como escreve Kimi Chaddah no The New York Times, "apesar de toda a aparência de calma e competência, ele permanece profundamente fora da realidade do país que em breve irá governar". "Esse país, economicamente estagnado, regionalmente desequilibrado, socialmente sobrecarregado, precisa urgentemente de uma liderança solidária. E é improvável que a Grã-Bretanha a encontre em Sunak, um devoto do thatcherismo e sem nenhuma preocupação visível com a vida da maioria."

Depois de 12 anos do poder, é normal o partido Conservador estar a viver uma crise. Uma sondagem do YouGov conclui que 25% dos entrevistados acreditam que Sunak será um ótimo ou bom primeiro-ministro - em comparação com 12% que esperavam que Truss fosse ótima ou boa antes de assumir o cargo. Cerca de 29% dos entrevistados disseram que Sunak será mediano, enquanto 29% consideram que ele será mau ou péssimo. Questionados sobre seus atributos, muitos entrevistados definiram-no como trabalhador, decidido e competente.

Uma outra sondagem, da IPSOS, realizada na semana passada e citada hoje pela imprensa britânica, concluiu que 62% do público apoia a realização de eleições gerais este ano. Isto representa um aumento de 11 pontos percentuais: antes da tomada de posse, 51% pediam eleições. 

A mesma sondagem afirma que 56% do público acredita que é provável que o líder trabalhista Keir Starmer seja primeiro-ministro em algum momento, acima dos 28% que acreditavam nessa hipótese em janeiro deste ano.

Liz Truss - nem na despedida recebeu elogios

Onde está o pedido de desculpas de Liz Truss? - foi o que toda a gente perguntou assim que a primeira-ministra demissionária terminou o seu discurso de pouco mais de 90 segundos. 

A editora de política da Sky News, Beth Rigby, observou que Truss, tal como Boris Johnson, concentrou-se nos seus sucessos e não nos erros. "Não houve um pedido de desculpas", disse. Para esta analista, Rishi Sunak representa "um regresso à política como de costume em termos de como um primeiro-ministro se deve comportar". "Boris Johnson era um populista e gostava de quebrar as regras. No fim de contas, essa foi a sua ruína. Liz Truss era ideológica, estava verdadeiramente a tentar fazer o que achava correto, que era bastante radical. Rishi Sunak é um político de outro tipo." 

Também Chris Mason, editor de política da BCC, sublinhou a ausência de um pedido de desculpas no discurso de Liz Truss: "Uma primeira-ministra parte apenas sete semanas depois de ter chegado. Este foi um momento de turbulência sem precedentes que tomou conta da política britânica e chamou a atenção internacional por todas as razões erradas. (...) O discurso de despedida de Liz Truss foi impressionante: o seu programa para o governo foi desastroso mas ela insistiu que o objetivo principal, acelerar o crescimento económico, era o objetivo certo no momento certo".

A estupefacção perante o discurso de Liz Truss foi generalizada. "Como escreveu o filósofo romano Senéca, não é porque as coisas são difíceis que não ousamos, é porque não ousamos que são difíceis. Deste meu tempo como primeira-ministra, fiquei mais convencida do que nunca de que precisamos de ser ousados e enfrentar os desafios", disse Liz Truss na sua última declaração ao país como primeira-ministra britânica, sublinhando a enorme honra que foi ter servido o país neste momento, ainda que por pouco tempo.

O marido, Hugh, e os filhos (Frances, de 16 anos, e Liberty, de 13) assistiram ao discurso e acompanharam-na ao palácio. Liz Truss já disse que, depois destes 45 dias no Governo, pretende passar mais tempo no seu distrito eleitoral, Norfolk. Os analistas acreditam que quer “dar um tempo” na política, pelo menos a nível nacional, até porque é difícil acreditar que alguém a irá convidar para um cargo de destaque.

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