Poderá Rishi Sunak acabar com o caos e restaurar a credibilidade do Reino Unido?

CNN , Luke McGee
25 out, 21:00

ANÁLISE. A ascensão de Sunak pode ser diretamente atribuída ao caos dos últimos meses

A ascensão de Rishi Sunak ao mais alto cargo da política britânica é notável. Há apenas sete semanas, foi inequivocamente derrotado por Liz Truss na corrida à liderança do Partido Conservador. Hoje, depois de ter saído vitorioso numa competição pela liderança que foi acelerada pelo desastre da curta estreia de Truss, após a audiência com o rei Carlos III, chegou ao número 10 de Downing Street.

Sunak viajou para o Palácio de Buckingham, esta terça-feira de manhã, para a audiência com o rei, após o qual se tornou primeiro-ministro do Reino Unido.

O desastroso mandato de Truss

O homem que serviu como ministro das Finanças de Boris Johnson durante dois anos e meio, até se demitir e derrubar o governo de Johnson, enfrenta agora a pouco invejável tarefa de recuperar uma nação em declínio após o desastroso mandato de Truss.

É justo assumir que o fará, implementando o plano económico que delineou durante a sua candidatura à liderança fracassada, no início deste ano. Sunak criticou os planos de Truss para reduzir impostos e financiar gastos do dia-a-dia através de empréstimos, dizendo que iriam provocar o caos económico.

Provou-se que estava certo quando o governo de Truss implementou os seus planos num "miniorçamento", o que fez com que a libra caísse para o nível mais baixo em décadas e colapsasse os preços das obrigações, fazendo subir em flecha os custos dos empréstimos para cima e empurrando os fundos de pensões para a beira da insolvência.

Como Sunak também previu, a subida das taxas de juro impulsionou os refinanciamentos das hipotecas, e os credores tentaram retirar os seus produtos do mercado, frustrando as esperanças de muitos potenciais proprietários quase de um dia para o outro.

Os escândalos intermináveis de Boris 

A reputação internacional do Reino Unido já tinha sofrido um golpe antes de Truss chegar ao cargo. Os escândalos intermináveis que acabaram por forçar Johnson a abandonar o cargo, para além das suas repetidas ameaças de violar o Direito Internacional sobre o acordo do Brexit que ele próprio acordou com a União Europeia, não colocaram o Reino Unido nas boas-graças dos líderes internacionais.

Isso não quer dizer que o Reino Unido seja irrelevante no palco mundial. O apoio do Governo à Ucrânia, por exemplo, valeu à Grã-Bretanha – e em particular a Johnson – elogios de outros líderes ocidentais.

O ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, escreveu no Politico, na segunda-feira, que "a Grã-Bretanha tem sido a principal potência estrangeira a apoiar a Ucrânia. Sob o triunvirato do primeiro-ministro Boris Johnson, a ministra dos Negócios Estrangeiros Liz Truss e o Secretário da Defesa, Ben Wallace, Londres esteve na vanguarda da determinação política e da liderança."

A ascensão de Sunak

A ascensão de Sunak pode ser diretamente atribuída ao caos dos últimos meses. É visto como um par de mãos seguro, tendo conquistado grandes elogios pela forma como lidou com a economia durante a pandemia de covid-19, ajudando empresas e cidadãos com programas de enormes gastos governamentais que salvaram o sustento de muita gente. A sua função atual é clara: trazer calma.

Infelizmente para Sunak, herdou um partido político que passou os últimos anos a partir-se em pedaços. O Partido Conservador de 2022 é definido pelo facciosismo e pela lealdade dividida que o tornou ingovernável tanto para Johnson como para Truss.

O partido está dividido em muito mais linhas do que esquerda e direita, mas Sunak provavelmente terá as maiores dificuldades com a ala populista afeta ao Brexit do partido que adorava Johnson.

"A realidade é que os elementos mais inflexíveis da direita Brexiteer provavelmente não apoiaram ninguém porque sabem que haverá uma discussão com o novo PM sobre o Brexit", disse Salma Shah, antiga conselheira conservadora, à CNN. "Uma das principais prioridades para Sunak será negociar o Protocolo da Irlanda do Norte (uma parte disputada do acordo pós-Brexit). Se não começarem a ver benefícios para eles, poderão mudar de opinião."

Sunak pode ignorar ou apaziguar estas pessoas, mas também pode significar ter de engolir um sapo enorme.

"Ele pode tentar neutralizar as pessoas daquela ala do partido que não o perdoam por 'trair' Boris ou a sua contenção orçamental, nomeando um gabinete que os apazigue. Potencialmente, isso significa engolir o seu orgulho e encontrar cargos para Boris e Liz Truss ", acrescentou Shah.

Se não o fizer, Johnson pode causar problemas a Sunak nas bancadas parlamentares, se tiver desejos de se vingar.

"Presumivelmente, não irá colocá-lo no governo, o que pode significar que causará problemas nas bancadas parlamentares. Acho que terão de esperar que ele desista do seu lugar e vá ganhar dinheiro", disse Tim Bale, professor de política na Universidade Queen Mary.

A gestão partidária é algo que pode estar fora do controlo de Sunak num futuro imediato. No entanto, o seu verdadeiro dom é a política económica e o tratamento dos parceiros internacionais.

"É alguém com muita experiência global fora da política e também lidou com figuras globais, enquanto ministro das Finanças. É um comunicador fluente e sabe do que está a falar quando se trata de economia. Por isso, penso que tem boas hipóteses de ser acolhido pela comunidade internacional, não só se conseguir estabilizar a economia, mas também a política do Reino Unido", acrescentou Bale.

O mundo ideal de Rishi Sunak

Num mundo ideal para Sunak, traria estabilidade económica e, com isso, viria a estabilidade política. Mas os observadores de longa data da política britânica sabem bem que as duas nem sempre andam de mãos dadas.

"Ele terá de implementar políticas – devido ao miniorçamento de Truss – que serão politicamente impopulares para diferentes grupos por diferentes razões", disse Vicky Pryce, antiga diretora-adjunta do Serviço Económico do Governo do Reino Unido.

Segundo Pryce, isso pode significar austeridade para equilibrar as contas, impostos sobre as empresas de energia, e reverter a ideia de Truss de remover limites aos bónus dos banqueiros. "Ele tem de equilibrar políticas que possam enfurecer os deputados conservadores com políticas que possam virar o público contra ele."

Por seu lado, os deputados e conselheiros conservadores sentem uma mistura de alívio, fúria, preocupação e, em alguns casos, derrota. Alguns pensam que o público apreciará um pouco de paz e sossego depois do caos político. Outros estão furiosos por o homem que derrubou Johnson ter conseguido o que queria. Outros acreditam que Sunak vai ser muito brando com o Brexit. Alguns acreditam que as próximas eleições já estão perdidas.

Há, em teoria, pelo menos dois anos até que se realizem as próximas eleições gerais. É tempo mais do que suficiente para Sunak estabilizar "o navio" e fazer algo pelos péssimos resultados do Partido Conservador nas sondagens. Mas precisa de ter o partido com ele.

E, se pensarmos no que foram as últimas semanas, o novo primeiro-ministro pode tornar-se mais um líder conservador que é forçado a passar mais tempo a gerir a política interna do seu próprio partido do que a lidar com os enormes problemas que o seu país enfrenta.

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