Ida às urnas no condado de Clacton, marcada para a próxima semana, será disputada por 34 candidatos, número recorde na história eleitoral britânica. Comprimento da cédula eleitoral, de 90 centímetros, também é inédito. Maiores partidos do Reino Unido estão a boicotar a votação, que classificam de "circo mediático"
O líder do partido Reform UK, Nigel Farage, vai enfrentar um número recorde de 33 adversários nas eleições suplementares da próxima semana, forçadas após Farage se ter demitido do assento parlamentar pelo condado de Clacton-on-Sea na sequência da abertura de uma investigação a presentes e donativos de campanha não declarados.
O conselho distrital de Tendring, responsável por organizar a votação em Clacton, informou que o grupo de candidatos é considerado o maior alguma vez registado numa eleição ao parlamento no Reino Unido, com a maioria das disputas eleitores por distrito a contar normalmente com apenas um punhado de candidatos.
De acordo com o mesmo conselho local, a cédula eleitoral mais longa da história política britânica, com 90 centímetros de comprimento, está a custar quatro vezes mais a ser impressa do que as cédulas eleitorais comuns, noticiou a BBC no início da semana. Ao desdobrar o papel, os eleitores vão perceber que é mais comprido do que os braços da maioria dos adultos.
"Do ponto de vista logístico, temos vindo a analisar o tamanho do boletim de voto, como dobrá-lo para que caiba no envelope e possa ser enviado aos eleitores que votam por correio, [bem como] a gestão das mesas de voto", disse ao canal britânico Ian Davidson, diretor executivo do conselho distrital de Tendring, que fala numa logística “frenética” para preparar as eleições da próxima semana.
Segundo Paul Whiteley, da Universidade de Essex, o anterior recorde de candidatos a disputar um lugar na Câmara dos Comuns tinha sido registado na eleição parcial de Haltemprice and Howden, em East Yorkshire, em julho de 2008. "David Davis renunciou ao seu mandato e voltou a candidatar-se em protesto contra a questão das liberdades civis", explicou Whiteley. "Havia 26 candidatos".
A eleição suplementar, marcada para 13 de agosto, não vai contar com candidatos dos principais partidos políticos do Reino Unido, incluindo o Partido Trabalhista, no poder, e o Partido Conservador, que consideram este plebiscito um “circo mediático” – o que deixou a disputa a cargo de uma série de candidatos de partidos pequenos, candidatos independentes e comediantes.
Entre estes últimos destaca-se o Count Binface – Conde Cara-de-Lixo, numa tradução literal – uma figura satírica e excêntrica criada pelo comediante Jon Harvey que usa um caixote de metal na cabeça, por duas vezes candidato às autárquicas da capital londrina e uma vez candidato contra o ex-primeiro-ministro Boris Johnson pelo condado de Uxbridge.
Outro dos candidatos é Alan “Howling Laud” Hope, líder do Official Monster Raving Looney Party – partido oficial do monstro lunático delirante, numa tradução literal – um movimento político satírico com décadas de existência e participação em várias eleições britânicas. A corrida conta ainda com Lawrence Fox, um ator tornado político que é uma figura marginal da extrema-direita britânica, e que foi anteriormente candidato à presidência da autarquia de Londres.
Entre todos, o Conde Cara-de-Lixo é o candidato mais bem colocado na corrida contra Farage, ainda que o mercado de previsões online Polymarket atribua ao líder do Reform UK uma probabilidade implícita de vitória a rondar os 95%.
Segundo a BBC, os eleitores de Clacton já começaram a devolver os votos por correspondência à Câmara Municipal, mas a maioria só irá depositar o seu voto no dia das eleições, na próxima quinta-feira.
O escrutínio que levou Farage a demitir-se teve início em junho, quando surgiram as primeiras informações sobre um presente de cinco milhões de libras recebido pelo líder do partido nacionalista e populista de um bilionário investidor em criptomoedas, que Farage não declarou às autoridades. Posteriormente, surgiram novas questões sobre outros presentes e donativos e também sobre um dos doadores do Reform UK ter sido condenado por burla qualificada.
Nigel Farage continua a negar qualquer irregularidade e decidiu demitir-se para, nas suas palavras, dar aos eleitores “a palavra final” sobre quem deve continuar a representá-los no Parlamento, pintando a investigação como perseguição política.
A ideia foi repetida em meados de julho, durante a conferência de ação política conservadora (CPAC) em Londres, quando Farage disse que a votação vai permitir que os eleitores decidam que querem reconduzi-lo no cargo parlamentar.
“Os residentes de Clacton podem decidir se me apoiam ou se apoiam o sistema”, declarou. “Arrisquei [ao demitir-se] porque gosto de uma boa aposta. Acredito que ficarão ao meu lado. Espero e rezo para que isso aconteça. Sim, que o povo decida. Que o povo seja o meu juiz, não a elite de Westminster.”
