ANÁLISE || Depois de uma pesada derrota eleitoral, e pressões internas para se demitir, Keir Starmer sustém-se. Conseguirá? O correspondente da CNN Portugal no Reino Unido analisa as variáveis o que está em causa
Nem uma palavra. Foi assim que os ministros do governo britânico atravessaram esta terça-feira a muralha de jornalistas à porta do número 10, a caminho de uma reunião onde o primeiro-ministro lhes disse que não tencionava ir a lado nenhum.
Uma hora depois, saíram um a um. Uns passaram pelas câmaras sem responder a perguntas. Outros — e isto é raro — pararam de propósito, para deixar uma mensagem.
“Este não é o momento para mudar de liderança”.
Os últimos dias têm sido de excecional instabilidade política na Grã-Bretanha — e num país onde, em apenas 10 anos, já passaram seis primeiros-ministros pelo número 10, isso é dizer qualquer coisa. O Reino Unido nunca esteve tão fragmentado, e as eleições locais da semana passada confirmaram isso mesmo. O Reform UK, partido anti-imigração de direita populista, conseguiu resultados históricos. Os verdes cresceram. Os dois maiores partidos — conservadores e trabalhistas — ficaram para trás, com os trabalhistas a sofrer a maior derrota da noite e a perder municípios onde, até agora, ganharam sempre.
Mesmo assim, e apesar de ter assumido responsabilidade pela pior noite eleitoral em décadas, o primeiro-ministro não deu o braço a torcer. Relembrou os ministros que o país “espera que continuemos a governar” — e disse que era exatamente isso que tencionava fazer. Os aliados viram um primeiro-ministro determinado e focado no que realmente importa. Os críticos, em número crescente, veem um político incapaz de ler o momento.
Muitos eleitores dentro do partido veem em Starmer a cara dos maus resultados eleitorais e acusam o primeiro-ministro de ter levado à hemorragia de votos trabalhistas, e de fazer pouco mais do que pôr pensos rápidos numa ferida profunda enquanto a confiança dos eleitores na liderança trabalhista se esvai.
E a hemorragia passou a ser interna. Nas últimas 48 horas têm-se demitido ministros e assessores do governo uns atrás dos outros, quase todos a dizer a mesma coisa: o primeiro-ministro é um bom homem, mas isso não chega. E neste momento, praticamente um em cada quatro deputados trabalhistas considera que Starmer se deve demitir e deixar outra pessoa assumir a liderança.
O problema é que o próprio partido não consegue decidir quem.
Há vários meses que os trabalhistas têm perdido terreno político para outros partidos e caído nas sondagens — e o mesmo aconteceu aos conservadores, arrastados para fora do número 10 depois de anos de instabilidade interna. O problema parece não ser Starmer — mas os dois partidos que governaram a Grã-Bretanha durante o último século. Mudar de líder não resolve isso, num país onde cada vez mais eleitores já decidiram que não querem nem conservadores nem trabalhistas no poder.
E depois há outro problema. Todos os candidatos mais prováveis de desafiar o primeiro-ministro trazem todos a sua própria “bagagem”, como se diz por cá. Wes Streeting, o ministro da saúde, foi um dos defensores da nomeação de Peter Mandelson como embaixador em Washington — posição que Mandelson teve de deixar quando se ficou a conhecer a sua amizade com Jeffrey Epstein. Angela Rayner, a ex-vice-primeira-ministra de Starmer, demitiu-se no ano passado por ter cometido fraude fiscal. E Andy Burnham, o presidente da câmara de Manchester e o sucessor preferido dos britânicos segundo as sondagens, nem sequer é deputado.
E talvez tenha sido por isto mais do que por qualquer outro motivo que, apesar da mobilização em torno do primeiro-ministro, tantas figuras dentro do governo e do partido, disseram apenas: este não é o momento.
Mas ninguém disse que o momento não vai chegar.
