Porque é que o Reino Unido não consegue manter primeiros-ministros? É a economia

CNN , Hanna Ziady
23 jun, 12:04
A cidade de Londres vista a partir de Hampstead Heath, no norte de Londres, a 18 de junho de 2026. Toby Shepheard/AFP/Getty Images
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Britânicos estão a caminho de ter o seu sexto chefe de Governo em cerca de sete anos. A culpa é a mesma de sempre

“É a economia, estúpido!”

A frase que marcou a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992 surge como uma referência inevitável quando se analisa a instabilidade que parece ter passado a caracterizar a vida política britânica.

O Reino Unido está a caminho de ter o seu sexto primeiro-ministro em cerca de sete anos, à medida que sucessivos líderes políticos se mostram incapazes de responder a uma economia persistentemente fraca, que tem pressionado os rendimentos e o nível de vida, desgastando o eleitorado.

O primeiro-ministro cessante e líder do Partido Trabalhista, Keir Starmer, que abandona o cargo após apenas dois anos, junta-se a uma lista que inclui os seus quatro antecessores — Rishi Sunak, Liz Truss, Boris Johnson e Theresa May — todos confrontados com desafios semelhantes e todos com mandatos igualmente curtos.

O período de Liz Truss no poder durou menos de dois meses, depois de o mercado obrigacionista ter rejeitado de forma clara o seu plano de cortes fiscais sem financiamento, que quase levou os mercados financeiros britânicos ao colapso.

Para além da pressão dos mercados, a célebre frase da campanha de Clinton resume a ideia de que é, quase sempre, a perceção dos eleitores sobre a economia — sobretudo o que conseguem ou não pagar — que determina a sua satisfação com os líderes políticos.

No Reino Unido, os políticos estão a pagar caro pela sensação generalizada de que a vida está cada vez mais difícil e dispendiosa.

O primeiro-ministro britânico cessante, Keir Starmer, conversa com o antigo embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos, Peter Mandelson (à esquerda), durante uma receção na residência do embaixador, a 26 de fevereiro de 2025, em Washington, DC. (Carl Court/Getty Images)

Os salários mal acompanharam o aumento dos preços, o que significa que as pessoas não sentem melhorias reais no seu poder de compra. Desde a chegada do Partido Trabalhista ao poder em 2024, o salário médio semanal, ajustado pela inflação e excluindo bónus, subiu menos de 1%, para 494 libras (570 euros), segundo o gabinete de estatísticas britânico — praticamente o mesmo ritmo de crescimento desde 2019.

Entretanto, os impostos estão em máximos de várias décadas.

“Tudo acaba por voltar à (economia)”, afirmou Raoul Ruparel, economista-chefe do Reino Unido na Boston Consulting Group (BCG). O fraco desempenho económico do país “faz parte de uma sensação mais ampla de que talvez as coisas não estejam a melhorar”, contou à CNN.

Música de ambiente melancólica

Starmer, tal como os quatro líderes que o antecederam, identificou corretamente o problema estrutural de baixo crescimento do Reino Unido e definiu a sua resolução como prioridade.

No entanto, o crescimento económico robusto tem sido difícil de alcançar, mesmo com o aumento da dívida pública, deixando sucessivos governos com pouca margem de manobra para responder a outros problemas, como infraestruturas degradadas e uma grave crise na habitação.

“Se tem uma economia a crescer, isso dá-lhe mais flexibilidade para agir noutras áreas… para investir e gastar mais, cortar impostos… isso sustenta tudo”, referiu Ruparel.

O PIB do Reino Unido tem crescido em média cerca de 1% por ano desde que May chegou ao poder em julho de 2016, segundo a consultora Capital Economics. O PIB per capita, considerado um indicador mais fiável do nível de vida, tem apresentado também um desempenho pouco animador.

O pessimismo em torno da economia ajudou o Partido Trabalhista, que prometeu “mudança”, a conquistar uma vitória expressiva nas eleições gerais de 2024. Os britânicos procuravam alternativas após 14 anos de governação conservadora, marcados pela pandemia, pela guerra na Ucrânia, pelo Brexit e por cortes orçamentais — a chamada “austeridade” após a crise financeira global.

Ainda assim, a mudança substancial tem tardado, o que deteriorou a perceção sobre o mandato de Starmer e provocou fortes perdas do Partido Trabalhista nas eleições locais de maio, praticamente selando o seu destino.

“O custo de vida tem sido consistentemente apontado como a principal preocupação das pessoas em todo o país, pelo que terá estado no topo das prioridades dos eleitores”, afirmou Ben Harrison, diretor do think tank Work Foundation, da Universidade de Lancaster, à CNN.

Novo líder, os mesmos problemas

Tal como Starmer herdou uma economia fraca, também o seu sucessor enfrentará os mesmos desafios. Ainda assim, poderá ter mais tempo para tentar resolver problemas que não se solucionam rapidamente.

“Conseguir crescimento económico não é fácil no curto prazo”, afirmou Ruparel, da BCG. “Construir infraestruturas, reduzir os preços da energia… isso leva tempo.”

Ruth Gregory, economista-chefe adjunta da Capital Economics no Reino Unido, disse que o governo “teve algumas boas ideias e implementou políticas que poderiam dar um impulso mais duradouro à economia britânica”, como aumentar o investimento e impulsionar a construção de habitação.

“Mas devido a uma série de erros e a uma execução aparentemente fraca (…) esse impulso será provavelmente insignificante”, disse à CNN.

O Fundo Monetário Internacional prevê que a economia britânica cresça apenas 0,8% este ano, segundo uma projeção de abril, menos 0,5 pontos percentuais do que o previsto em janeiro, devido também ao impacto da guerra no Irão através do aumento dos preços da energia.

“As dificuldades económicas do Reino Unido não desaparecerão com a mudança de primeiro-ministro”, alertou Rain Newton-Smith, diretora executiva da Confederação da Indústria Britânica.

“A economia não se vai resolver enquanto os políticos olham para dentro. E não se pode enfrentar o custo de vida sem lidar com o custo de fazer negócios”, acrescentou.

“O país precisa agora de estabilidade”, afirmou, defendendo que o próximo primeiro-ministro “tem de agir rapidamente para dar confiança a empresas e investidores, proteger os níveis de vida e apresentar um plano credível e executável de crescimento”.

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