Uma eleição local pode abrir caminho para a queda de Keir Starmer
Longe dos salões dourados de Westminster, um discreto centro comunitário — agachado, utilitário e com um parque de estacionamento cujas poças transbordam sempre que chove — tornou-se o centro do poder da política britânica.
É aqui, em salas mais habituadas a acolher noites de bingo, aulas de dança, encontros para ver desporto e casamentos, que a equipa de campanha de Andy Burnham, presidente da Câmara da Grande Manchester, planeia o seu regresso ao parlamento. Se for bem-sucedido, é provável que desafie o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, pela liderança do Partido Trabalhista (Labour), de centro-esquerda, e consequentemente pelo cargo maior.
Burnham é amplamente visto como o político mais popular do país, mas não pode desafiar a autoridade cada vez mais fragilizada de Starmer sem ser deputado. E sem a sua presença em Westminster, dificilmente poderá surgir uma corrida à liderança do Labour, apesar de sete ministros terem abandonado o governo de Starmer desde a pesada derrota do partido nas eleições locais de maio. Embora essas eleições não afetem o governo nacional, são um importante indicador do estado de espírito do eleitorado.
Burnham tem estado há meses de olho num círculo eleitoral próximo de Manchester. Em fevereiro, o órgão dirigente do partido impediu-o de concorrer numa outra eleição intercalar. Mas, à medida que o capital político de Starmer se foi desgastando ainda mais, pouco pôde fazer quando Josh Simons, aliado de Burnham, renunciou ao mandato no círculo eleitoral de Makerfield no mês passado. Burnham foi rapidamente escolhido como candidato trabalhista, tornando a eleição intercalar desta quinta-feira talvez uma das mais consequentes da história política britânica.
Cerca de 76.000 eleitores têm agora nas mãos o destino do primeiro-ministro britânico e a direção futura do Partido Trabalhista. Muitos militantes acreditam que apenas uma nova liderança poderá salvar as perspetivas eleitorais do partido, numa altura em que a sua base tradicional de apoio se fragmenta entre o Partido Verde, à esquerda, e o Reform UK, à direita populista, incluindo em bastiões históricos do Labour como Makerfield.
Por trás desta disputa está uma questão existencial para o Labour: se Burnham, frequentemente apelidado de "Rei do Norte", não conseguir derrotar o candidato do Reform UK, Robert Kenyon, em Makerfield, haverá poucas razões para acreditar que outros candidatos trabalhistas consigam vencer em círculos eleitorais semelhantes.
Tanto Burnham como Kenyon recusaram falar à CNN, alegando que estavam concentrados em falar diretamente com os eleitores.
A importância da eleição transformou esta zona normalmente ignorada no verdadeiro centro do universo político britânico. Militantes e deputados chegaram de todo o país para ajudar na campanha porta a porta, enquanto ministros do governo viajaram de Londres para o norte de Inglaterra para apoiar Burnham, numa demonstração implícita de apoio a um homem que praticamente já prometeu afastar Starmer da liderança.
Jornalistas engravatados reúnem-se em cafés locais para atualizar as redações em Londres sobre os mais recentes rumores, trocando informações sobre quantos deputados apoiam as ambições de liderança de Burnham ou sobre os seus planos para lançar oficialmente uma candidatura à liderança caso vença, como é amplamente esperado.
Nas ruas de Ashton-in-Makerfield, ativistas anti-Reform e apoiantes do Labour abordam moradores cansados para falar de política.
No entanto, fora de Ashton — local preferido dos jornalistas devido às ligações ferroviárias a Londres e ao movimento constante de pessoas — a vida nas restantes pequenas localidades do círculo eleitoral continua praticamente igual. Apenas as queixas dos moradores sobre a quantidade de folhetos de campanha recebidos e alguns cartazes visíveis em sebes e janelas ("Vote Andy", "Makerfield precisa do Reform" ou "Restore Britain") denunciam a importância desta votação.
O "Rei do Norte"
As eleições intercalares costumam ser importantes porque funcionam como barómetros da opinião pública entre eleições legislativas. Normalmente, não são o mecanismo através do qual se escolhem primeiros-ministros. Mas estes não são tempos normais na política britânica.
Desde que chegou ao poder com uma vitória esmagadora do Labour há quase dois anos, Starmer tem estado preso numa espiral de impopularidade que parece agora irreversível.
Apesar de governar com uma maioria confortável, falhou em explicar claramente qual era a mudança que prometeu concretizar, recuou em várias políticas importantes e ficou com poucas margens para aumentar a despesa pública.
A popularidade do Labour caiu em conformidade, refletindo o destino anteriormente sofrido pelo Partido Conservador. Durante mais de um século, estas duas forças dominaram a política britânica. O enfraquecimento desse domínio poderá colocar sob pressão um sistema eleitoral mais habituado a equilibrar dois ou três partidos do que os cinco que atualmente conseguem parcelas significativas do eleitorado.
O Reform UK, liderado por Nigel Farage e atualmente à frente em muitas sondagens nacionais, é o principal adversário de Burnham em Makerfield.
Até agora, a posição de Burnham fora de Westminster protegeu-o em grande medida de qualquer associação ao atual governo.
Com uma imagem afável e fortes capacidades de comunicação, conseguiu manter a popularidade mesmo enquanto o seu partido atravessa uma fase turbulenta. Além disso, construiu uma narrativa política própria, ainda que muitas das propostas defendidas durante esta campanha estejam alinhadas com as do governo.
A identidade política de Burnham está intimamente ligada ao noroeste de Inglaterra. É um fervoroso adepto do Everton F.C., clube da sua infância sediado em Liverpool, e os seus gostos musicais refletem fortemente a cultura de Manchester.
Essa ligação permitiu-lhe apresentar-se como um político de fora do sistema, apesar de ter sido deputado durante 16 anos pelo círculo eleitoral vizinho de Leigh e de ter servido nos governos de Tony Blair e Gordon Brown. Durante o mandato de Brown, chegou a ministro da Saúde antes de perder duas disputas pela liderança do Labour, em 2010 e 2015.
Em 2017, abandonou o parlamento para se tornar presidente da Câmara da Grande Manchester, reinventando a sua imagem política.
"Há uma piada sobre Burnham que diz que ele consegue adaptar-se a qualquer contexto", afirma Lotte Hargrave, investigadora de ciência política da Universidade de Manchester.
A sua mensagem nesta campanha é simples: "Westminster não funciona" para muitas comunidades. Em vez disso, aponta para o crescimento económico de Manchester durante o seu mandato e propõe aplicar ao país inteiro aquilo a que chama "Manchesterismo".
Este conjunto de ideias passa por "corrigir os fundamentos da economia, garantir que os serviços essenciais são acessíveis através do regresso ao controlo público, descentralizar o poder de Whitehall e Westminster para cidades e localidades e promover uma cultura favorável às empresas", explica Mathew Lawrence, fundador do think tank Common Wealth e considerado um dos arquitetos intelectuais do Manchesterismo.
Um círculo eleitoral pós-industrial
Makerfield, apesar de ser atualmente o local mais importante da política britânica, não existe verdadeiramente enquanto lugar geográfico. Não aparece nos mapas, exceto como parte dos nomes Ashton-in-Makerfield e Ince-in-Makerfield. Os habitantes raramente se referem à região por esse nome.
Trata-se apenas da designação do círculo eleitoral que engloba várias pequenas localidades situadas a sul de Wigan e aproximadamente a meio caminho entre Manchester e Liverpool.
Apesar de integrar oficialmente a Grande Manchester, a região tem uma identidade mais próxima de Liverpool, diz Peter Grey, antigo representante sindical e voluntário numa loja comunitária local.
"Liverpool é uma cidade acolhedora. Se se sentar num banco de jardim, alguém se senta ao seu lado", aponta.
A região vota no Labour há mais de um século. Durante grande parte do século XX e início do século XXI, os trabalhadores — especialmente os sindicalizados — votavam tendencialmente no Labour, enquanto os proprietários de terras apoiavam os conservadores.
Estas pequenas localidades dependiam da mineração de carvão, siderurgias e indústria transformadora. Mas, como aconteceu em muitas outras zonas do norte de Inglaterra, a economia transformou-se profundamente nos últimos 50 anos. Essas indústrias desapareceram e os setores da construção, comércio, educação e saúde passaram a concentrar a maioria dos empregos.
Os moradores falam frequentemente da falta de oportunidades para os mais jovens.
"Do ponto de vista demográfico, trata-se de um clássico círculo eleitoral pós-industrial", considera Hargrave. "Tem uma população mais envelhecida do que a média britânica, é esmagadoramente branca e nascida no Reino Unido, apresenta uma percentagem relativamente baixa de licenciados, elevada taxa de propriedade de habitação e, crucialmente para o Reform, apoiou o Brexit."
A política local também está a mudar.
Nas eleições locais do mês passado, desastrosas para o Labour em todo o país, o Reform UK venceu 24 dos 25 lugares disputados na área de Wigan. O resultado foi "sísmico", afirma Peter Fleetwood, historiador local. "Aconteceu de forma explosiva."
Existe um profundo cansaço político, uma quase total desilusão com os partidos tradicionais e um forte ceticismo em relação à capacidade dos políticos de Westminster produzirem mudanças reais. Alguns habitantes continuam desconfiados das ambições de Burnham, uma crítica frequentemente explorada pelo Reform, que argumenta que o candidato não dará prioridade ao círculo eleitoral.
Alex Moyo, assistente domiciliário de 18 anos, afirma que provavelmente não irá votar porque não compreende suficientemente a política. "Pelo que vi, provavelmente não votaria no Reform... estão a dizer aquilo que as pessoas querem ouvir, e não aquilo de que o país precisa", assume.
Outro eleitor indeciso, David Young, considera que "o Labour é uma anedota" e esqueceu as suas raízes enquanto partido dos trabalhadores. Já o Reform, diz, "tem os conservadores na sua base e foram eles que prejudicaram o Reino Unido ao tirá-lo da União Europeia".
Outros sentem-se atraídos pela narrativa simples do Reform de que reduzir a imigração resolverá muitos dos problemas do país.
"Conseguimos impedir o exército alemão de atravessar o Canal da Mancha e não conseguimos impedir a chegada de um bote", lamenta Grant Fryer, de 64 anos, treinador de cães de assistência, numa referência às pequenas embarcações utilizadas por alguns migrantes para atravessar o Canal da Mancha a partir de França.
Nas últimas semanas, a extrema-direita foi acusada de instrumentalizar dois esfaqueamentos distintos para reforçar a sua narrativa anti-imigração. E essas mensagens encontram terreno fértil. Durante a campanha, Robert Kenyon, canalizador e vereador local, procurou combinar discursos anti-imigração com referências pouco subtis à defesa da "herança cristã", prometendo simultaneamente lutar pela comunidade local.
No entanto, a campanha foi afetada por polémicas relacionadas com antigas publicações nas redes sociais consideradas sexistas e homofóbicas. Kenyon respondeu que essas mensagens foram publicadas antes de entrar na política. Ao mesmo tempo, a ascensão do partido Restore Britain — outra força de direita radical amplificada por Elon Musk e defensora de deportações em larga escala de migrantes — também retirou algum apoio ao Reform.
"Este é o primeiro teste ao Reform perante o aparecimento de uma força ainda mais à direita. Se o Restore obtiver um bom resultado aqui, será algo a que muitos prestarão atenção", defende Hargrave.
Burnham, por seu lado, continua a evitar declarações explícitas sobre as suas ambições de liderança. A sua equipa insiste que nada está garantido antes da ida às urnas.
Mas, se vencer, parece ser apenas uma questão de tempo até desafiar Starmer. Se conseguirá concretizar a mudança que Starmer ainda não foi capaz de entregar, essa já é outra questão.
