É líquido que o ex-autarca de Manchester vai ser o novo líder do Partido Trabalhista, com caminho aberto para ocupar o lugar que Keir Starmer deixou vago após dois anos no poder. A confirmação no cargo deverá ocorrer já na segunda-feira pela mão do rei Carlos III, deixando o novo primeiro-ministro britânico entregue a inúmeros desafios - a começar por transpor o seu estilo de política local para o plano nacional, através do 'Manchesterismo' e do 'Número 10 Norte'. Depois, terá de decidir se convoca ou não eleições antecipadas, algo que, por agora, "seria uma escolha estranha"
Restam poucas dúvidas de que Andy Burnham, presidente da Câmara de Manchester até há um mês, vai ser o próximo líder do Partido Trabalhista – e o próximo primeiro-ministro da Grã-Bretanha.
Isso ficou claro após Burnham assegurar o apoio de 322 dos 403 deputados do partido na semana passada, quando o processo de nomeações para a liderança foi inaugurado – um número bastante superior ao mínimo de 81 necessários para vencer. E ficou ainda mais claro quando Al Carns, antigo ministro das Forças Armadas e o seu derradeiro rival na corrida, desistiu e declarou apoio formal a Burnham.
Esta quinta-feira termina o prazo de indicações ao cargo que Keir Starmer deixou vago no mês passado, quando anunciou que pretendia demitir-se assim que um sucessor fosse escolhido. E com a prevista confirmação de Andy Burnham como líder dos trabalhistas já amanhã, é praticamente certo que a sucessão será firmada na segunda-feira.
Nesse dia, o primeiro-ministro demissionário vai apresentar a sua renúncia formal ao rei Carlos III, que posteriormente deverá receber Burnham para o entronizar chefe do governo. E isso é tão certo quanto é certo que o novo primeiro-ministro vai alterar a doutrina trabalhista e marcar uma viragem nas políticas do partido, pelo menos em parte.
“Acredito que vamos assistir a uma mudança de narrativa para enfatizar a esperança, a inclusão e o progresso, com o objetivo de unir os eleitores e fomentar um sentimento de confiança e otimismo”, destaca Charlotte Wildman, professora de História Moderna Britânica na Universidade de Manchester, à CNN Portugal. “Burnham é um excelente comunicador e consegue fazer com que os eleitores se sintam ouvidos e percebam que as suas exigências são reconhecidas.”
Wildman dá como exemplo a cidade onde vive e trabalha, que teve em Andy Burnham o seu autarca durante quase dez anos, levando-o a ser apelidado de ‘Rei do Norte’. “Como vimos no caso de Manchester, ele tem a habilidade de criar narrativas novas e mais positivas e, portanto, acredito que haverá uma transição da atual ênfase na ‘Grã-Bretanha em ruínas’ para um foco em oportunidades, esperança e progresso, buscando envolver eleitores de todo o espectro partidário.”
Fenja Tramsen, analista de política britânica no European Policy Center (EPC), antecipa duas “ruturas nítidas” com as políticas de Starmer sob o governo Burnham, com base no que o futuro primeiro-ministro prometeu a 29 de junho no Museu de História Popular em Manchester, o palco escolhido para o seu primeiro discurso de candidatura à liderança trabalhista após ter vencido as eleições por Makerfield com cerca de 55% dos votos – nas quais derrotou Nigel Farage, do nacionalista Reform UK, e Rupert Lowe, do partido de extrema-direita Restore Britain.
“A primeira rutura tem a ver com a descentralização do poder, transferir a autoridade decisória de Westminster para autoridades regionais, como o seu princípio orientador”, indica Tramsen à CNN, após Burnham ter proposto “a criação de uma sede do governo em Manchester – Número 10 Norte – integrada num programa mais amplo a que chamou ‘Manchesterismo’, baseado na mobilização de investimentos públicos e privados para reverter duas décadas de baixo crescimento económico”.
Esse é um dos aspetos fundamentais da cartilha Burnham, confirma Charlotte Wildman, e um que passa pela “transição de um governo fortemente centralizado em Londres para um modelo de maior autonomia e descentralização de poderes – não apenas no País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, mas também em cidades e regiões”.
“Uma das críticas mais contundentes feitas aos políticos nos últimos anos é a de que vivem numa ‘bolha de Westminster’ e que estão desligados dos problemas e desafios exteriores a uma pequena área de Londres”, explica a historiadora. “Em Manchester, Burnham demonstrou que uma maior autonomia regional pode trazer benefícios financeiros significativos – e a imagem de uma sede de governo em Manchester é um símbolo poderoso dessa mudança de rumo, na tentativa de levar os eleitores a sentirem-se ouvidos e a perceber que as regiões têm maior voz nas decisões que lhes dizem respeito.”
Burnham não é Starmer – e se for ficará vulnerável
O currículo de Andy Burnham em Manchester tem alimentado a expectativa de que poderá sair-se melhor do que Keir Starmer – que, no espaço de dois anos, passou de uma vitória nas legislativas com maioria absoluta para uma demissão forçada pelos resultados desastrosos do partido nas eleições locais de maio, a par de índices de popularidade igualmente desastrosos nas sondagens.
No entanto, são muitos os desafios que o futuro primeiro-ministro vai enfrentar, quer no plano externo – desde o azedar das relações com os EUA de Donald Trump até à posição do Reino Unido sobre Israel e a Palestina – quer no plano doméstico. Internamente, os desafios começam pela situação económica e a sustentabilidade da Segurança Social, invocada por Wildman como “uma das questões mais urgentes” a que os trabalhistas terão de dar resposta. “Burnham deixou claro que não deseja cortes drásticos nos programas de assistência social, mas o tema tem-se provado espinhoso nos últimos anos, especialmente no que toca ao desemprego jovem.”
Um estudo recente constatou que um milhão de jovens fora do mercado de trabalho e fora do sistema educacional tem um custo de 125 mil milhões de libras (cerca de 146 mil milhões de euros) para a economia britânica, ao que acresce a atual crise do custo de vida, que “continua a ser um problema difícil de enfrentar” e que torna “fundamental” que o governo encontre formas de aliviar a pressão sobre as famílias.
Wildman enumera ainda como principais problemas domésticos a crise na habitação, o problema com as filas de espera no NHS, o sistema de saúde público britânico, e a questão da imigração, que “continua a gerar divisões” na sociedade. E a estes temas acrescem outras questões prementes, adianta Fenja Tramsen, a começar pela exequibilidade do ‘Manchesterismo’ que Burnham pretende implementar.
“O financiamento é uma questão urgente e ele vai precisar de dar uma resposta convincente sobre a origem dos recursos para esse e outros programas, seja por meio de um imposto sobre grandes fortunas, de uma regra mais rígida que separe investimentos de despesas correntes ou de algum outro mecanismo”, diz a analista do EPC – que invoca ainda a “estabilidade da governança” como outro grande desafio no curto prazo.
“Burnham assume o cargo após uma eleição parcial realizada à pressa, o que por si só é um sinal de instabilidade que ele agora vai ter de superar. O Reino Unido teve seis primeiros-ministros numa década, vários dos quais renunciaram sob pressão dos seus próprios deputados, tal como ocorreu com Starmer.”
Tramsen identifica ainda um terceiro desafio ligado à imigração, um ponto em que, ao contrário de outros, Burnham surge alinhado com Starmer – o que “representa mais um ponto fraco do que uma vantagem”, já que “imitar a direita populista na questão migratória tende a dar maior destaque ao tema no debate público em vez de atenuá-lo, e isso costuma beneficiar o partido Reform em vez de reconquistar os seus eleitores, já que esses eleitores geralmente preferem a posição original a uma cópia diluída dela”, adianta a investigadora. “Se Burnham mantiver a abordagem de Starmer praticamente inalterada neste aspeto, terá aí um dos seus pontos de vulnerabilidade mais evidentes.”
Como reconquistar um eleitorado desiludido
Essa será talvez a maior vulnerabilidade de Andy Burnham no arranque do seu mandato enquanto primeiro-ministro. E numa altura em que os dois partidos tradicionais do Reino Unido, trabalhistas e conservadores, têm vindo a perder terreno para os populistas e a extrema-direita, há uma grande expectativa de que o partido no poder consiga voltar a atrair uma parte do eleitorado perdido para essas forças políticas.
“Acredito que o Partido Trabalhista está otimista quanto à capacidade de Burnham para atrair eleitores desiludidos, quer do Reform quer do Partido Verde – em certa medida, o aumento do apoio a esses partidos refletiu a frustração sentida por eleitores trabalhistas e conservadores e, se Burnham conseguir dialogar com esses grupos, é bem possível que os eleitores se afastem desses partidos”, assume Charlotte Wildman.
Quando lançou a sua candidatura à liderança trabalhista no final de junho, Burnham pôs a tónica na esperança e tentou apresentar-se como um tónico para os problemas do cidadão comum com a clara intenção de o afastar dos extremos políticos, ao mesmo tempo que se distanciou do que o seu partido e o principal rival têm representado para os eleitores.
“Westminster não tem funcionado para as pessoas e isso já acontece há muito tempo. Na verdade, o sistema está partido e, como resultado, o país não está onde deveria estar. Está estagnado e é evidente que não podemos continuar assim”, declarou. “As pessoas precisam de uma folga agora para lidar com os custos elevados. Farei o possível para proporcionar isso e, sem comprometer as finanças públicas, tentarei dar à Grã-Bretanha um alívio assim que puder. As pessoas têm de poder esperar por uma noite de lazer ou por férias com os filhos. As pessoas precisam de esperança. Que esperança podemos ter de que, desta vez, será diferente? Essa é a pergunta que eu faria enquanto eleitor neste momento.”
O grosso dos deputados que hoje vão confirmar Burnham como o seu novo líder também estarão a ser alumiados por essa pergunta – e acreditam que o trabalhista do Norte pode trazer a resposta que desejam. “As suas chances são um pouco melhores do que as de Starmer, e as suas raízes no norte de Inglaterra são relevantes aqui por dois motivos”, refere Fenja Tramsen.
“Primeiro, o norte é a região onde o Reform UK obteve alguns dos seus avanços mais expressivos e onde Burnham possui um histórico eleitoral direto de confronto com esse partido, tendo derrotado o Reform na eleição suplementar de Makerfield”, explica a analista. “E em segundo lugar, o Reino Unido não tem um primeiro-ministro oriundo do norte de Inglaterra há cerca de meio século, de modo que um mandato liderado por alguém do norte carrega um peso simbólico num país marcado por disparidades regionais acentuadas em termos de produtividade, esperança média de vida e investimento público.”
É aqui que as iniciativas do Manchesterismo e o projeto de criar o Número 10 Norte se integram, com uma forte simbologia e através das quais Burnham pretende “reequilibrar a riqueza e o poder entre as regiões”, esperando, em contrapartida, colher os frutos disso nas urnas – ainda que “os eleitores motivados pela revolta contra o ‘establishment’ de Westminster, de modo geral, talvez venham a fazer pouca distinção entre o Partido Trabalhista de Starmer e o de Burnham”, adianta Tramsen.
Questionada sobre se devemos esperar eleições antes da conclusão do seu mandato, a investigadora do EPC responde que “tecnicamente é uma possibilidade, mas que continua a ser improvável” – em parte porque “não há exigência legal de convocar uma ida às urnas antes de agosto de 2029”, em parte porque “Burnham já descartou fazê-lo no imediato”.
“Mudar essa postura agora seria uma escolha estranha, visto que o Partido Trabalhista ainda está atrás do Reform nos inquéritos de opinião”, refere. Mas isso poderá mudar se Burnham conseguir colocar o partido ao leme das sondagens, acrescenta Wildman. “Se ele conseguir fazer com que os eleitores se sintam mais otimistas de que as suas vozes estão a ser ouvidas, mais confiantes no sistema político e mais esperançosos em relação à economia, ao NHS e à habitação, então seria muito tentador para Burnham convocar eleições legislativas. E diria que isso é mais provável se houver uma viragem contra o Reform – temos de ver o que acontece com Nigel Farage nestas eleições suplementares.”
