Os gritos ouvem-se antes de se ver as bandeiras britânicas. “Mandem-nos de volta”. No fim de semana passado, centenas de manifestantes anti-imigração e anti-islamismo marcharam pelas ruas de Manchester. A algumas ruas de distância, uma contramanifestação ainda maior formava-se e, ao fim da tarde, havia sangue no chão e nove pessoas detidas.
Não é uma imagem nova no Reino Unido — mas é uma imagem que se está a tornar mais difícil de ignorar.
Foi neste clima que o partido populista britânico Reform UK decidiu anunciar o seu plano para lidar com a “invasão” de imigrantes: uma nova força de deportação para deter e deportar milhares de imigrantes por semana, e centenas de milhares por ano.
O anúncio foi feito por Zia Yusuf, o novo porta-voz do partido para assuntos internos. Yusuf, ele próprio muçulmano e filho de imigrantes, anunciou o plano não a partir de Londres, mas na pequena cidade de Dover — o principal ponto de chegada de migrantes que atravessam o Canal da Mancha para chegar à Grã-Bretanha.
O partido, que tem crescido nas sondagens, anunciou ainda que quer revogar o estatuto de residência de migrantes que já têm autorização para ficar no país, proibir a conversão de igrejas em mesquitas, sair da convenção europeia de direitos humanos e suspender os vistos para seis países predominantemente muçulmanos — Paquistão, Eritreia, Somália, Síria, Afeganistão e Sudão.
Enquanto o Reform fala numa “invasão”, os números mostram que há menos pessoas a vir viver para o Reino Unido. Os números mais recentes do governo britânico mostram que mais de 100 mil pessoas pediram asilo no país em 2025 — menos 4% do que no ano anterior. A imigração total caiu, e os vistos de trabalho para estrangeiros desceram 19% em relação ao ano anterior, com quedas significativas na saúde, enfermagem, educação e ciências.
O governo de Starmer celebrou estes números como “verdadeiro progresso” no “controlo das fronteiras”, referindo que quase 60 mil imigrantes ilegais foram expulsos do país desde que os trabalhistas tomaram o poder — isto depois de, em novembro, ter aprovado um conjunto de novas medidas para apertar o acesso de milhões de imigrantes à residência permanente. “Tornar-se parte do Reino Unido”, disse a ministra do Interior na altura, “não é um direito mas um privilégio — e um privilégio que tem de ser merecido”.
É um discurso que o Reform reconheceria sem dificuldade. E, do outro lado do oceano, Trump também.
Yusuf antecipou a comparação entre a força de deportação anunciada pelo Reform com a ICE, a agência de deportação de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, e disse que os planos do Reform não vão resultar nos mesmos problemas — há mais limites no Reino Unido sobre o uso de armas de fogo, e o policiamento, segundo ele, é feito “muito mais” com o consentimento das pessoas.
Mas como se está a ver nos Estados Unidos, basta um movimento populista espalhar o medo, repetir a palavra “invasão”, e convencer o público de que a imigração é uma emergência de segurança nacional para que esta narrativa, que não raramente parte de racismo e discriminação religiosa, se torne realidade. Mesmo quando é apresentada por um muçulmano filho de imigrantes.
E as armas não foram o maior problema da ICE. Nem o mais perigoso, apesar da morte brutal de dois cidadãos norte-americanos às mãos das forças de deportação. Foi ter posto o Estado de direito em causa, o direito de andar nas ruas sem medo de ser detido de um momento para o outro, sem qualquer explicação. Foi limitar de protesto.
E na Grã-Bretanha, alguns desses sinais já se veem. Em julho, o governo de Starmer classificou o Palestine Action como organização terrorista — um grupo de ativistas que, em protesto do genocídio em Gaza, invadiram uma base aérea britânica e pintaram dois aviões com tinta de spray. Nos meses que se seguiram, milhares de pessoas foram detidas em protestos pacíficos por contestarem a decisão até, este mês, o supremo tribunal britânico ter considerado a proibição ilegal e uma interferência desproporcionada na liberdade de expressão. O governo recorreu e a proibição mantém-se.
O que está a acontecer nos Estados Unidos não começou com a ICE — começou muito antes, com uma narrativa que se foi normalizando, com um centro político que foi cedendo terreno pouco a pouco. E no Reino Unido, pode ser uma questão de tempo até que os britânicos olhem para as suas próprias ruas e não reconheçam o que veem.