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O discurso do rei Carlos III no Congresso dos EUA na íntegra

29 abr, 10:00

 

 

Num discurso perante o Congresso dos Estados Unidos, o monarca britânico destacou a longa história partilhada entre os dois países, sublinhando valores comuns como a democracia, a liberdade e o Estado de direito. Num contexto de incerteza global, defendeu o reforço da aliança transatlântica e a necessidade de cooperação para enfrentar desafios contemporâneos, afirmando que a parceria entre Reino Unido e EUA é hoje mais importante do que nunca

Senhor Vice-Presidente, Senhor Presidente do Congresso, membros do Congresso, representantes do povo americano em todos os estados, territórios, cidades e comunidades.

Gostaria, se me permitem, de aproveitar esta oportunidade para expressar a minha particular gratidão a todos vós pela grande honra de me dirigir a esta sessão conjunta do Congresso e, em nome da Rainha e de mim próprio, agradecer ao povo americano por nos receber nos Estados Unidos para assinalar este ano semi-quincentenário da Declaração de Independência.

E, ao longo de todo esse tempo, os nossos destinos enquanto nações têm estado interligados. Como disse Oscar Wilde, hoje em dia temos realmente tudo em comum com a América, exceto, claro, a língua.

Encontramo-nos em tempos de grande incerteza, em tempos de conflito, da Europa ao Médio Oriente, que colocam desafios imensos à comunidade internacional e cujo impacto se faz sentir em comunidades ao longo e ao largo dos nossos próprios países.

Encontramo-nos também no rescaldo do incidente não muito longe deste grande edifício, que procurou atingir a liderança da vossa nação e fomentar um medo e discórdia mais amplos.

Permitam-me dizer, com determinação inabalável, que tais atos de violência nunca terão sucesso.

Quaisquer que sejam as nossas diferenças, quaisquer desacordos que possamos ter, mantemo-nos unidos no nosso compromisso de defender a democracia, de proteger todas as nossas populações de danos e de saudar a coragem daqueles que diariamente arriscam as suas vidas ao serviço dos nossos países.

Ao estar aqui hoje, é difícil não sentir o peso da história sobre os meus ombros, porque a relação moderna entre as nossas duas nações e os nossos povos não abrange apenas 250 anos, mas mais de quatro séculos.

É extraordinário pensar que sou o 19.º na nossa linha de soberanos a estudar com atenção diária os assuntos da América. Assim, apresento-me hoje aqui com o mais elevado respeito pelo Congresso dos Estados Unidos, esta cidadela da democracia criada para representar a voz de todo o povo americano, para promover direitos e liberdades sagrados.

Ao falar nesta reconhecida câmara de debate e deliberação, não posso deixar de pensar na minha falecida mãe, a rainha Isabel, que em 1991 também teve esta honra sagrada e falou igualmente sob o olhar vigilante da Estátua da Liberdade que se ergue acima de nós.

Hoje, estou aqui nesta grande ocasião na vida das nossas nações para expressar a mais elevada consideração e amizade do povo britânico ao povo dos Estados Unidos.

Ora, como talvez saibam, quando me dirijo ao meu próprio parlamento em Westminster, ainda seguimos uma tradição antiga e mantemos um membro do Parlamento como refém, mantendo-o ou mantendo-a no Palácio de Buckingham até eu regressar em segurança. Hoje em dia tratamos bastante bem o nosso convidado, ao ponto de frequentemente não querer partir.

Não sei, Senhor Presidente, se há voluntários para esse papel aqui hoje.

Ao olhar para trás através dos séculos, Senhor Presidente, emergiram certos padrões, certas verdades evidentes por si mesmas, das quais podemos aprender e retirar força mútua. Com o espírito de 1776 em mente, talvez possamos concordar que nem sempre concordamos, pelo menos numa primeira instância.

De facto, o próprio princípio sobre o qual o vosso Congresso foi fundado, “nenhuma tributação sem representação”, foi simultaneamente um desacordo fundamental entre nós e, ao mesmo tempo, um valor democrático partilhado que herdaram de nós.

A nossa é uma parceria nascida do desacordo, mas não menos forte por isso. Assim, talvez neste exemplo possamos discernir que as nossas nações são, de facto, instintivamente semelhantes, produto das tradições democráticas, jurídicas e sociais comuns nas quais a nossa governação assenta até aos dias de hoje.

Recorrendo a estes valores e tradições vezes sem conta, os nossos dois países sempre encontraram formas de se unir. E, por Deus, Senhor Presidente, quando encontrámos essa forma de concordar, que grandes mudanças foram alcançadas — não apenas em benefício dos nossos povos, mas de todos os povos.

Este, creio, é o ingrediente especial da nossa relação. Como o próprio Presidente Trump observou durante a sua visita de Estado ao Reino Unido no outono passado, o laço de parentesco e identidade entre a América e o Reino Unido é inestimável e eterno. É insubstituível e inquebrável.

Senhor Presidente, esta não é de modo algum a minha primeira visita a Washington, D.C., a capital desta grande república. É, de facto, a minha 20.ª visita aos Estados Unidos e a minha primeira como Rei e chefe da Commonwealth.

Esta é uma cidade que simboliza um período da nossa história partilhada, ou aquilo a que Charles Dickens poderia ter chamado Um Conto de Dois Georges: o primeiro presidente, George Washington, e o meu antepassado cinco vezes bisavô, o Rei Jorge III.

O Rei Jorge, como sabem, nunca pôs os pés na América. E, por favor, fiquem descansados, senhoras e senhores, não estou aqui como parte de alguma astuta ação de retaguarda.

Os Pais Fundadores foram rebeldes audazes e imaginativos com uma causa. Há duzentos e cinquenta anos — ou, como dizemos no Reino Unido, ainda ontem — declararam a independência equilibrando forças concorrentes e encontrando força na diversidade.

Uniram 13 colónias díspares para forjar uma nação assente na ideia revolucionária de vida, liberdade e busca da felicidade. Levaram consigo e fizeram avançar a grande herança do Iluminismo britânico, bem como os ideais que tinham uma história ainda mais profunda no direito consuetudinário inglês e na Magna Carta.

Estas raízes são profundas e continuam vitais.

A nossa Declaração de Direitos de 1689 não foi apenas o fundamento da nossa monarquia constitucional, mas também forneceu a base de muitos dos princípios reiterados, muitas vezes palavra por palavra, na Carta de Direitos americana de 1791.

E essas raízes recuam ainda mais na história. A Sociedade Histórica do Supremo Tribunal dos EUA calculou que a Magna Carta é citada em pelo menos 160 casos do Supremo Tribunal desde 1789, não menos como fundamento do princípio de que o poder executivo está sujeito a freios e contrapesos.

É por isso que existe uma pedra junto ao rio Tamisa, em Runnymede, onde a Magna Carta foi assinada no ano de 1215. Essa pedra regista que um acre desse antigo e histórico local foi oferecido aos Estados Unidos da América pelo povo do Reino Unido para simbolizar a nossa determinação partilhada em defesa da liberdade e em memória do Presidente John F. Kennedy.

Distintos membros do 119.º Congresso, é aqui, nestas mesmas salas, que este espírito de liberdade e a promessa dos fundadores da América estão presentes em cada sessão e em cada voto emitido não pela vontade de um só, mas pela deliberação de muitos, representando o mosaico vivo dos Estados Unidos em ambos os nossos países.

É precisamente o facto das nossas sociedades vibrantes, diversas e livres que nos dá a nossa força coletiva, incluindo para apoiar as vítimas de alguns dos males que, de forma tão trágica, existem hoje em ambas as nossas sociedades.

E, Senhor Presidente, para muitos aqui presentes e para mim próprio, a fé cristã é uma âncora firme e uma inspiração diária que nos orienta não apenas pessoalmente, mas também em conjunto como membros da nossa comunidade. Tendo dedicado grande parte da minha vida às relações inter-religiosas e a uma maior compreensão, é essa fé no triunfo da luz sobre a escuridão que encontrei confirmada inúmeras vezes.

Através dela, sinto-me inspirado pelo profundo respeito que se desenvolve à medida que pessoas de diferentes religiões crescem na sua compreensão umas das outras. É por isso que é minha esperança, a minha oração, que nestes tempos turbulentos, trabalhando em conjunto e com os nossos parceiros internacionais, possamos travar a transformação de arados em espadas.

Tenho presente que ainda estamos no tempo da Páscoa, a estação que mais reforça a minha esperança. É por isso que acredito, de todo o coração, que a essência das nossas duas nações é uma generosidade de espírito e um dever de fomentar a compaixão, promover a paz, aprofundar a compreensão mútua e valorizar todas as pessoas de todas as religiões e também aquelas que não professam nenhuma.

A aliança que as nossas duas nações construíram ao longo dos séculos, e pela qual estamos profundamente gratos ao povo americano, é verdadeiramente única, e essa aliança faz parte do que Henry Kissinger descreveu como a visão ambiciosa de Kennedy de uma parceria atlântica assente em dois pilares: a Europa e a América.

Essa parceria, creio, Senhor Presidente, é hoje mais importante do que alguma vez foi.

O primeiro soberano britânico reinante a pisar solo americano foi o meu avô, o Rei Jorge VI. Visitou em 1939 com a minha querida avó, a Rainha Isabel, a Rainha-Mãe. As forças do fascismo na Europa estavam em marcha e, algum tempo depois, os Estados Unidos juntaram-se a nós na defesa da liberdade. Os nossos valores comuns prevaleceram.

Hoje encontramo-nos numa nova era, mas esses valores mantêm-se. É uma era que, em muitos aspetos, é mais volátil e mais perigosa do que o mundo ao qual a minha falecida mãe se dirigiu nesta câmara em 1991.

Os desafios que enfrentamos são demasiado grandes para qualquer nação suportar sozinha. Mas, neste ambiente imprevisível, a nossa aliança não pode assentar em conquistas passadas nem assumir que os princípios fundamentais simplesmente perduram.

Como disse o meu primeiro-ministro no mês passado, a nossa é uma parceria indispensável. Não devemos ignorar tudo o que nos sustentou nos últimos 80 anos. Pelo contrário, devemos construir sobre isso.

A renovação começa hoje com a segurança. O Reino Unido reconhece que as ameaças que enfrentamos exigem uma transformação na defesa britânica.

É por isso que o nosso país, para estar preparado para o futuro, assumiu o compromisso do maior aumento sustentado do investimento em defesa desde a Guerra Fria — durante parte da qual, há mais de 50 anos, servi com imenso orgulho na Marinha Real, seguindo as pegadas navais do meu pai, o príncipe Philip, duque de Edimburgo, do meu avô, o rei Jorge VI, do meu tio-avô Lord Mountbatten e do meu bisavô, o rei Jorge V.

Este ano assinala também, naturalmente, o 25.º aniversário do 11 de Setembro. Esta atrocidade foi um momento definidor para a América, e a vossa dor e choque foram sentidos em todo o mundo. Durante a minha visita a Nova Iorque, a minha esposa e eu voltaremos a prestar homenagem às vítimas, às famílias e à coragem demonstrada perante uma perda tão terrível.

Estivemos convosco então, e estamos convosco agora, numa solene lembrança de um dia que jamais será esquecido.

No rescaldo imediato do 11 de Setembro, quando a NATO invocou o Artigo 5.º pela primeira vez, e o Conselho de Segurança das Nações Unidas se uniu perante o terror, respondemos juntos ao apelo, tal como os nossos povos o têm feito há mais de um século, ombro a ombro através de duas guerras mundiais, da Guerra Fria, do Afeganistão e de momentos que definiram a nossa segurança partilhada.

Hoje, Senhor Presidente, essa mesma determinação inabalável é necessária para a defesa da Ucrânia e do seu povo extremamente corajoso. É necessária para garantir uma paz verdadeiramente justa e duradoura.

Das profundezas do Atlântico às calotas de gelo do Ártico, que derretem de forma desastrosa, o empenho e a competência das Forças Armadas dos Estados Unidos e dos seus aliados estão no centro da NATO — comprometidos com a defesa mútua, protegendo os nossos cidadãos e interesses, mantendo norte-americanos e europeus seguros face aos nossos adversários comuns.

Os nossos laços de defesa, inteligência e segurança estão intrinsecamente ligados por relações que se medem não em anos, mas em décadas.

Hoje, milhares de militares norte-americanos, responsáveis da defesa e suas famílias estão destacados no Reino Unido, enquanto militares britânicos servem com igual orgulho em 30 estados americanos. Estamos a construir em conjunto os F-35 e acordámos o mais ambicioso programa de submarinos da história, o AUKUS. E estamos a fazê-lo em parceria com a Austrália, um país do qual também tenho um enorme orgulho em servir como soberano.

Não embarcamos nestes empreendimentos notáveis por mero sentimento. Fazemo-lo porque constroem uma maior resiliência partilhada para o futuro, tornando assim os nossos cidadãos mais seguros para as gerações vindouras.

Os nossos ideais comuns não foram apenas cruciais para a liberdade e a igualdade, são também a base da nossa prosperidade partilhada. O Estado de direito, a certeza de regras estáveis e acessíveis, um sistema judicial independente, a resolução de litígios e a administração de uma justiça imparcial: estes elementos criaram as condições para séculos de crescimento económico incomparável nos nossos dois países.

É por isso que os nossos governos estão a concluir novos acordos económicos e tecnológicos para escrever o próximo capítulo da nossa prosperidade conjunta e assegurar que a engenhosidade britânica e americana continue a liderar o mundo. As nossas nações estão a combinar talento e recursos nas tecnologias do futuro. As nossas novas parcerias na fusão nuclear e na computação quântica, e na inteligência artificial e descoberta de medicamentos, encerram a promessa de salvar inúmeras vidas.

De forma mais ampla, celebramos os 430 mil milhões de dólares em comércio anual, que continua a crescer. Os 1,7 biliões de dólares em investimento mútuo que alimentam essa inovação e os milhões de empregos em ambos os lados do Atlântico, sustentados nas duas economias.

Estas são bases sólidas sobre as quais continuaremos a construir para gerações ainda por nascer. Os nossos laços na educação, investigação e intercâmbio cultural capacitam cidadãos e futuros líderes de ambos os países. A Bolsa Marshall, nomeada em honra do grande General George Marshall e cuja associação tenho o orgulho em ser patrono, é emblemática da ligação entre os nossos dois países. Desde a sua criação, foram atribuídas mais de 2.300 bolsas, abrindo portas a americanos de todas as origens para estudar nas principais universidades do Reino Unido.

Assim, ao olharmos para os próximos 250 anos, devemos também refletir sobre a nossa responsabilidade partilhada de proteger a natureza, o nosso bem mais precioso e insubstituível.

Durante milénios, muito antes de existirem as nossas nações, antes de qualquer fronteira traçada, as montanhas da Escócia e dos Apalaches eram uma só. Uma cadeia contínua formada na antiga colisão de continentes.

As maravilhas naturais dos Estados Unidos da América são, de facto, um ativo único, e gerações de americanos corresponderam a esse desafio. Líderes indígenas, políticos e cívicos, pessoas em comunidades rurais e cidades, todos ajudaram a proteger e a preservar aquilo a que o Presidente Theodore Roosevelt chamou o “glorioso legado” da extraordinária beleza natural desta terra, da qual sempre dependeu grande parte da sua prosperidade.

No entanto, mesmo celebrando a beleza que nos rodeia, a nossa geração tem de decidir como enfrentar o colapso de sistemas naturais críticos, que ameaça muito mais do que a harmonia e a diversidade essencial da natureza. Ignoramos por nossa conta e risco o facto de que estes sistemas naturais — ou seja, a própria economia da natureza — constituem a base da nossa prosperidade e da nossa segurança nacional.

A história do Reino Unido e dos Estados Unidos é, no seu âmago, uma história de reconciliação, renovação e parceria extraordinária. Das amargas divisões de há 250 anos, forjámos uma amizade que cresceu até se tornar uma das alianças mais consequentes da história da humanidade.

Rezo, do fundo do coração, para que a nossa aliança continue a defender os nossos valores comuns com os nossos parceiros na Europa, na Commonwealth e em todo o mundo, e para que ignoremos os apelos sonoros para nos tornarmos cada vez mais virados para dentro.

Senhor Presidente, Senhor Vice-Presidente, distintas senhoras e senhores, as palavras da América têm peso e significado, como têm desde a independência. As ações desta grande nação importam ainda mais.

O Presidente Lincoln compreendeu isto tão bem na sua reflexão no magistral Discurso de Gettysburg, ao afirmar que o mundo pode pouco notar o que dizemos, mas nunca esquecerá o que fazemos.

E assim, aos Estados Unidos da América, no vosso 250.º aniversário, que os nossos dois países se voltem a dedicar um ao outro no serviço altruísta dos nossos povos e de todos os povos do mundo.

Deus abençoe os Estados Unidos e Deus abençoe o Reino Unido.

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