"Não podemos permitir que o Partido Comunista Chinês importe [para o Reino Unido] o espancamento de manifestantes”

19 out, 07:20
Manifestande de Hong Kong arrastado para consulado chinês em Manchester (DR)

Novo foco de tensão diplomática entre Londres e Pequim. Pessoal do consulado chinês em Manchester espancou um manifestante. Ministro inglês diz que o caso é “chocante”. Deputada denuncia “escalada arrepiante”

Há mais um caso a azedar as relações bilaterais entre a China e o Reino Unido: um manifestante pró-democracia, que participava num protesto contra Xi Jinping e o Partido Comunista Chinês (PCC) em frente ao consulado da China em Manchester, foi retido e agredido no terreno do consulado. O indivíduo, que participava num protesto na via pública, foi puxado para dentro do consulado por elementos presumivelmente ligados à representação diplomática, que o arrastaram, agarraram e agrediram perante o olhar do cônsul chinês em Manchester. 

As agressões foram filmadas e também testemunhadas pela polícia inglesa, cujos elementos tiveram de passar os portões do consulado para resgatar o homem - um cidadão de Hong Kong identificado como Bob.

O caso ocorreu no domingo, o mesmo dia em que arrancava em Pequim o congresso do PCC que vai reconduzir Xi Jinping como líder máximo do país. Desde domingo tem crescido no Reino Unido um clamor de indignação, e ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, James Cleverly, chamou o representante da China no Reino Unido e exigiu "explicação para as cenas chocantes” ocorridas em Manchester.

Com o embaixador chinês ausente do Reino Unido, foi o encarregado de negócios de Pequim quem ouviu a indignação de Cleverly, e os seus avisos: "O protesto pacífico é um direito fundamental na Grã-Bretanha e o governo chinês deve respeitar isso", escreveu o governante na sua conta de Twitter. Cleverly também frisou um princípio básico das relações internacionais: “todos os diplomatas e pessoal consular baseado no Reino Unido devem respeitar as leis do Reino Unido”.

“Medidas necessárias”, diz a China

Muitos políticos britânicos têm exigido um pedido de desculpas de Pequim e a expulsão dos elementos do consulado que participaram nas agressões ao manifestante, que teve de receber assistência hospitalar. Mas a China não só não pediu desculpas como se apresentou como vítima do incidente, imputando a responsabilidade aos manifestantes, que teriam invadido terreno consular.

Ontem à tarde, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Wenbin, disse em conferência de imprensa que "elementos perturbadores entraram ilegalmente no Consulado Geral da China em Manchester e puseram em perigo a segurança das instalações diplomáticas chinesas".

"As instituições diplomáticas de qualquer país têm o direito de tomar as medidas necessárias para salvaguardar a paz e a dignidade das suas instalações", acrescentou o porta-voz de Pequim.

Já antes um representante da representação chinesa em Manchester havia condenado as ações dos manifestantes, sem qualquer referência à violência ocorrida. “Um pequeno grupo de ativistas pela ‘independência de Hong Kong’ juntaram-se em frente ao Consulado Geral da China em Manchester e penduraram à entrada um retrato insultuoso do presidente chinês. Isto seria intolerável e inaceitável para qualquer representação diplomática e consular de qualquer país. Assim, condenamos esta ação deplorável com forte oposição e firme indignação.”

Cartazes derrubados

As alegações de invasão de propriedade feitas pela diplomacia chinesa são frontalmente contrariadas pelos vídeos do incidente - primeiro divulgados e verificados pela BBC, e que se tornaram virais nas redes sociais -, bem como pelos relatos da polícia inglesa que esteve no local desde o início do protesto.

Nesses vídeos é bem visível que um indivíduo de boina e máscara cirúrgica sai do consulado e derruba as tarjas e  cartazes que os manifestantes haviam colocado no passeio em frente ao edifício consular - esse indivíduo foi identificado como Zheng Xiyuan, cônsul chinês em Manchester, diplomata experiente e histórico membro do Partido Comunista Chinês (PCC).

Duas tarjas tinham a  inscrição "fim ao PCC" e um cartaz tinha uma caricatura de Xi Jinping com uma coroa e em cuecas, como na história "o rei vai nu". No desenho, o "Rei Xi" tem nãos mãos Taiwan, Hong Kong e Ucrânia cobertas de sangue.

De acordo com as filmagens, é essa ação de Zheng que desencadeia os incidentes, numa manifestação que juntava poucas dezenas de ativistas e, até esse momento, fora pacífica. Um grupo de oito ou nove indivíduos sai do consulado, alguns deles usando capacete e colete à prova de bala, como se fossem agentes de forças anti-motim, e envolvem-se em escaramuças e empurrões com os manifestantes, enquanto políticas ingleses tentam separar as partes. Um manifestante de rabo de cavalo acaba por ser puxado para lá dos portões do consulado, sendo levado para os terrenos da representação diplomática, onde continuou a ser espancado. O homem identificado como o cônsul-geral não só assistiu às agressões como foi filmado, aparentemente, a puxar o cabelo da vítima.

“Uma escalada arrepiante”

Ontem, no Parlamento britânico, a deputada do Partido Conservador Alicia Kerns considerou a agressão “uma escalada arrepiante” na postura agressiva de Pequim contra manifestantes pró-democracia, mesmo fora do seu território.

“"Não podemos permitir que o Partido Comunista Chinês importe [para o Reino Unido] o espancamento de manifestantes, o silenciamento da liberdade de expressão e a incapacidade de permitir protestos”, disse Kerns.

Na sua intervenção, a deputada conservadora - que é presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros e especialista em questões da China - identificou o homem de boina como sendo, efetivamente, o cônsul-geral chinês em Manchester, Zheng Xiyuan, um dos mais veteranos diplomatas chineses no Reino Unido. "O que vimos foi o cônsul-geral chinês a deitar abaixo cartazes e [a atacar] um protesto pacífico”, afirmou Kearns na sua intervenção na Câmara dos Comuns.

Nathan Law, antigo deputado em Hong Kong e ativista pró-democracia radicado em Inglaterra, escreveu um texto no jornal The Guardian considerando que  "o ataque ao consulado de Manchester mostra como a China está a exibir os seus músculos no estrangeiro". "Esta semana tive de chegar à conclusão de que, para os dissidentes de Hong Kong, a Grã-Bretanha pode não ser tão segura como esperamos", escreveu Law, que fugiu para o Reino Unido há dois anos. 

"Se a participação do pessoal do consulado for confirmada, estes devem ser imediatamente expulsos do Reino Unido, se não for possível a acusação devido à imunidade diplomática. O embaixador chinês no Reino Unido, Zheng Zeguang, deve ser convocado e criticado por estes comportamentos bárbaros", escreveu o ativista, considerando que estas "ações devem ser tomadas para manter a confiança dos cidadãos de Hong Kong no sistema que os deve proteger contra a perseguição da autocracia chinesa". 

China é uma “ameaça”

Este incidente vem esfriar ainda mais as relações entre Londres e Pequim, que nos últimos anos têm sido particularmente tensas por causa do esmagamento da democracia em Hong Kong, que deveria ser salvaguardada pelo regime de Pequim depois da transição de soberania da antiga colónia inglesa. A posição dúbia da China em relação à invasão russa da Ucrânia não contribuiu para o apaziguamento das relações com Londres, que tem sido um dos mais empenhados aliados de Kiev, assim como o assédio militar chinês em torno de Taiwan.

Como reflexo desta relação difícil, na semana passada soube-se que o governo de Liz Truss tenciona designar oficialmente a China como uma “ameaça” ao Reino Unido, numa revisão que está em preparação das suas políticas de defesa e negócios estrangeiros. Atualmente a China é designada como um “competidor sistémico” - a passagem à categoria de “ameaça” espelha a desconfiança de Londres em relação à atitude progressivamente assertiva da China do ponto de vista diplomático e militar.

Ontem, a BBC noticiou que a China contratou mais de trinta pilotos e ex-pilotos da Força Aérea britânica, para darem formação aos militares chineses. A notícia foi mais uma areia na engrenagem já bastante emperrada das relações bilaterais. O governo de Truss confirmou que isso acontece há vários anos e que está a tentar travar essa sangria de quadros com conhecimento direto da máquina defensiva britânica. "Estamos a tomar medidas decisivas para acabar com os esquemas chineses de recrutamento de pilotos e antigos pilotos das Forças Armadas britânicas para treinar o pessoal do Exército de Libertação Popular na República Popular da China", disse um porta-voz do Ministério da Defesa.

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