Promessas ousadas, clima otimista e informalidade: o que aprendemos com o primeiro dia de Andy Burnham

CNN , Issy Ronald
20 jul, 19:10
O primeiro-ministro Andy Burnham fez um discurso em frente ao número 10 de Downing Street, em Londres (Stefan Rousseau/PA/AP via CNN Newsource)
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Novo primeiro-ministro entrou em Downing Street com vontade

O novo primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, entrou no número 10 de Downing Street esta segunda-feira, fazendo poucas declarações políticas detalhadas, mas oferecendo muitas pistas sobre a natureza do seu governo.

A imagem pública é muito importante na política, por isso, no seu primeiro dia de mandato, Burnham fez promessas ousadas, sem se prender a prazos, demonstrou um estilo de liderança mais informal e trouxe consigo um clima mais otimista para Downing Street.

Metas ambiciosas

Juntamente com promessas ambiciosas de mudança, reforma do sistema de bem-estar social e descentralização do poder, Burnham anunciou a sua primeira intervenção política: combater a falta de habitação.

"Em breve, passarei por aquela porta atrás de mim e darei a minha primeira instrução para acabar com a situação das pessoas que dormem nas ruas do nosso país", disse no final do seu primeiro discurso como primeiro-ministro. Pouco depois, a sua equipa anunciou que seriam alocados mais 340 milhões de libras (cerca de 400 milhões de euros) como parte desta iniciativa.

“O primeiro-ministro rejeita a ideia de que acabar com o problema das pessoas que dormem na rua levará décadas ou que isso seja impossível”, lia-se num excerto da declaração que acompanhava o anúncio, ilustrando a ambição de Burnham. Pelo menos 4.600 pessoas em Inglaterra dormem na rua todas as noites, segundo a organização de solidariedade Shelter, que apoia pessoas sem-abrigo, mas o número de pessoas em situação de sem-abrigo é muito maior.

Enquanto Starmer evitava geralmente metas tão ambiciosas, preferindo objetivos mais restritos e com maior probabilidade de serem alcançados, Burnham parece disposto a defender metas mais ousadas. Se tais metas podem ser alcançadas e se o fracasso em atingi-las irá corroer o apoio público é outra questão.

O rei Carlos III da Grã-Bretanha recebe Andy Burnham, à esquerda, durante uma audiência no Palácio de Buckingham, em Londres (Aaron Chown/PA/AP via CNN Newsource)
O rei Carlos III da Grã-Bretanha recebe Andy Burnham, à esquerda, durante uma audiência no Palácio de Buckingham, em Londres (Aaron Chown/PA/AP via CNN Newsource)

Burnham nunca conseguiu cumprir uma promessa semelhante à que fez para acabar com a situação de sem-abrigo em Manchester quando se tornou presidente da câmara da cidade em 2017. De acordo com dados do governo local, o número de pessoas sem-abrigo na cidade caiu quase para metade até 2024 em comparação com 2017, embora estes números estejam novamente a subir desde o ponto mais baixo em 2021.

“Darei tudo de mim”, disse perante dezenas de apoiantes entusiasmados. “Vamos construir um novo sentido nacional de união, de propósito comum e de positividade.”

Burnham afirmou que apresentará um plano a 10 anos “ainda este ano”, mas que irá delinear medidas mais pequenas para oferecer “alguma ajuda com o custo de vida” a partir desta terça-feira. Sem detalhar as políticas, enumerou ainda as prioridades do seu governo: ajudar a inserir mais jovens no mercado de trabalho e construir mais habitação pública. E reiterou o seu argumento frequente de que a Grã-Bretanha tomou “alguns rumos errados” na década de 1980, quando “o poder político foi centralizado e o poder económico privatizado”.

As raízes nortenhas de Burnham são fundamentais para a sua imagem de "homem do povo", e fez da descentralização - a transferência do poder de Londres para outras regiões britânicas - uma parte central da sua agenda. Embora não se tenha referido explicitamente ao norte no seu discurso, falou sobre o seu objetivo de "tirar o poder daqui e levá-lo a todos os cantos do país".

Mais tarde, ainda esta segunda-feira, Burnham começou a anunciar as nomeações para o seu gabinete, oferecendo mais indícios da direção do seu governo.

O ex-secretário da Defesa, John Healey, que se demitiu no mês passado devido aos gastos militares, foi nomeado como novo ministro das Finanças do Reino Unido, conhecido como chanceler do Tesouro, informou Downing Street.

Andy Burnham discursa aos funcionários e à imprensa em frente ao número 10 da Downing Street, em Londres (Alberto Pezzali/AP via CNN Newsource)
Andy Burnham discursa aos funcionários e à imprensa em frente ao número 10 da Downing Street, em Londres (Alberto Pezzali/AP via CNN Newsource)

Apesar da agenda apertada desta segunda-feira, Burnham reservou tempo para algumas ligações importantes com líderes mundiais. Num telefonema com o presidente norte-americano, Donald Trump, Burnham sublinhou o seu compromisso com a “defesa e segurança” e disse que “garantir a segurança do Reino Unido e dos seus aliados era a principal prioridade da sua agenda”, segundo um porta-voz de Downing Street.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, agradeceu ainda a Burnham após uma chamada entre os dois líderes, pelas suas “calorosas palavras de respeito” e “condolências às famílias e entes queridos daqueles que morreram nos recentes ataques da Rússia”.

Estilo mais informal

Alguns sinais da intenção de Burnham de operar de forma diferente também surgiram no seu primeiro dia. Fez o seu primeiro discurso como primeiro-ministro fora de Downing Street sem teleponto, notas ou o tradicional púlpito. Pareceu mais informal, mais natural do que o dos seus antecessores.

No entanto, em vez da sua habitual t-shirt e casaco, Burnham estava vestido com o tradicional traje político, fato e gravata, dada a formalidade da ocasião.

Starmer demite-se com "boa vontade"

Pouco antes de Burnham assumir o cargo em Downing Street, o seu antecessor, Starmer, saiu com o que descreveu como “boa vontade” e um “sorriso”.

Burnham tem “o meu total apoio”, acrescentou Starmer, parecendo perdoar o antigo presidente da Câmara de Manchester pelo seu papel em derrubá-lo e esquecer as suas tentativas iniciais de impedir o regresso de Burnham ao parlamento. “Ao passar o testemunho a Andy Burnham, desejo-lhe todo o sucesso”, disse.

Starmer vivenciou agora em primeira mão a brutal turbulência da política britânica. Há pouco mais de dois anos, estava em frente a Downing Street, proferindo um discurso triunfante depois de ter conduzido o Partido Trabalhista a uma vitória esmagadora nas eleições gerais. Mas a sua autoridade tornou-se cada vez mais frágil após vários erros, mudanças de rumo e a incapacidade de implementar as mudanças que prometeu com a rapidez necessária.

Sir Keir Starmer e a sua mulher, Victoria, deixam Downing Street depois de ele ter deixado o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido (Ryan Jenkinson/Getty Images via CNN Newsource)
Sir Keir Starmer e a sua mulher, Victoria, deixam Downing Street depois de ele ter deixado o cargo de primeiro-ministro do Reino Unido (Ryan Jenkinson/Getty Images via CNN Newsource)

Os contrastes entre Burnham e Starmer eram evidentes nos seus discursos. E embora tenham abordado temas semelhantes, adotaram tons diferentes. Enquanto Burnham mencionou a necessidade de a Grã-Bretanha "mostrar ao mundo que podemos recuperar a nossa estabilidade", Starmer afirmou que "a nossa reputação internacional foi amplamente reforçada".

Ainda assim, a saída abrupta de Starmer serve de aviso para Burnham - sobretudo face ao desafio populista do partido de extrema-direita Reform UK - e de lembrete da instabilidade política que continua a abalar a Grã-Bretanha, mais de uma década depois de o país ter votado pela saída da União Europeia.

Burnham está a tentar fazer as coisas de forma diferente, mas ainda não é claro se isso será suficiente para evitar as mesmas forças que derrubaram os seus seis antecessores.

James Frater, Victoria Butenko e Billy Stockwell, da CNN, contribuíram para esta reportagem

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Europa

Mais Europa