Novo primeiro-ministro britânico quer uma "ruptura" com a postura de Starmer em relação a Israel e Gaza, mas vai precisar de "muita cautela"

23 jul, 17:30
O primeiro-ministro Andy Burnham fez um discurso em frente ao número 10 de Downing Street, em Londres (Stefan Rousseau/PA/AP via CNN Newsource)
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Este é um dos dois grandes desafios de política externa que Andy Burnham, empossado primeiro-ministro na segunda-feira, enfrenta no imediato, a par da imprevisibilidade da administração Trump. O novo ministro da Defesa já admitiu publicamente que Israel "está aquém" dos padrões britânicos nos territórios ocupados enquanto "amigo e aliado" do Reino Unido. Fontes do governo israelita disseram entretanto que "há ministros [britânicos] com quem não temos interesse em conversar"

O posicionamento do Reino Unido quanto a Israel desde o início da ofensiva contra a Faixa de Gaza, em outubro de 2023, ajuda a explicar, em parte, a perda de popularidade do Partido Trabalhista desde que Keir Starmer foi eleito nas legislativas de 2024. Eleito com maioria absoluta, Starmer aguentou dois anos no cargo até ser forçado a resignar, abrindo caminho à liderança de Andy Burnham, que foi entronizado chefe de governo pelo Rei Carlos III de Inglaterra no início da semana.

Faltava menos de um mês para Starmer se demitir quando uma sondagem do instituto Opinium para a Palestine Solidarity Campaign mostrou que a guerra de Israel contra Gaza, que organizações não-governamentais como a israelita B'TSelem e uma investigação independente da ONU dizem corresponder ao crime de genocídio, foi um dos motores do colapso do apoio aos trabalhistas.

No inquérito de opinião, publicado a 9 de junho, quase 41% dos eleitores que votaram no partido de Starmer em 2024 confirmaram que transferiram o seu apoio para o Partido Verde, mais à esquerda, nas eleições locais de maio – com outros 29,6% a abandonarem a tendência trabalhista em detrimento dos Liberais Democratas, de centro. E mais de metade deste conjunto de inquiridos (53%) disseram que foi a questão de Gaza que os levou a optar por outros partidos nas últimas eleições – desses, 21% disseram que teve uma “grande influência” na sua decisão e 31% que teve uma “influência moderada”.

Exatamente um mês depois de os resultados do inquérito terem sido divulgados, numa entrevista ao The Guardian, o então candidato à liderança do Partido Trabalhista demarcou-se do anterior líder e pediu desculpa pela postura de Londres em relação a Israel e a Gaza. “Sei que muitas pessoas acham que, no início da ação militar de Israel em Gaza, o meu partido não agiu da maneira correta, e peço desculpas por isso”, disse Burnham. “Com muita frequência, a resposta não foi satisfatória. Temos de fazer melhor.”

Na mesma entrevista, a semanas de chegar à chefia do governo, Burnham reconheceu que Israel pode estar a cometer crimes de guerra no enclave palestiniano. “Fiquei absolutamente horrorizado com o que vi e li sobre a destruição de Gaza”, declarou. “Há evidências crescentes de que crimes de guerra parecem ter sido cometidos. É preciso que haja responsabilização pela imensa dimensão do sofrimento vivenciado pela população de Gaza.”

Sem referir crimes de guerra, o novo ministro da Defesa do Reino Unido assumiu ontem uma postura semelhante na sua primeira aparição oficial enquanto membro do governo Burnham, dizendo que Israel “está aquém” dos padrões britânicos em Gaza e na Cisjordânia ocupada. Falando aos jornalistas à margem de um evento em Farnborough, Wes Streeting disse que, na qualidade de “amigo e aliado” do Reino Unido, Israel deve ser submetido ao mesmo padrão que o país aplica a si próprio. “Esse é o padrão que, creio eu – e temo – eles não alcançaram”.

Wes Streeting, anterior responsável pela pasta da Saúde que transita agora para a Defesa, assumiu um tom crítico em relação às ações de Israel na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada na sua primeira aparição oficial, mas escusou-se a dizer se o Reino Unido vai continuar a comprar armas ao Estado hebraico, porque é uma decisão que "não me cabe só a mim". foto Getty Images

Antes de assumir o cargo, o ex-ministro da Saúde, agora com a pasta da Defesa, já tinha adotado um tom duro em relação a Israel em mensagens de WhatsApp trocadas com o ex-embaixador britânico nos EUA, nas quais dizia que o Estado hebraico “está a cometer crimes de guerra diante dos nossos olhos” e a adotar uma “conduta de Estado pária” na Cisjordânia ocupada. Questionado sobre essas mensagens ontem, Streeting recusou-se a repeti-las, mas afirmou: “Não vou fingir que não fiz esses comentários.”

Em conjunto, as declarações do novo primeiro-ministro britânico e do responsável pela Defesa sugerem que este é um dos pontos em que o governo Burnham vai fazer de tudo para se distanciar da posição de Starmer, considera Fenja Tramsen, especialista em política britânica do European Policy Center (EPC). “Quanto a Israel e a Gaza especificamente, [Burnham] já pediu desculpas pela reação inicial do Partido Trabalhista à guerra – reconhecendo que a Grã-Bretanha demorou a pedir um cessar-fogo – e aventou a possibilidade de novas sanções relacionadas com a violência dos colonos [da Cisjordânia ocupada], uma mudança em relação à postura mais cautelosa de Starmer”, diz à CNN Portugal.

Ainda assim, e como denotam as declarações mais recentes de Wes Streeting, em termos de política externa não devemos esperar um governo muito ativo e interventivo, adianta a analista. “A segunda mudança [em relação a Starmer] é uma política externa mais fria e menos engajada, algo que se deve, em parte, às circunstâncias – visto que ele teve apenas algumas semanas para se preparar para o governo após uma década dedicado à política regional – e, em parte, é algo deliberado.”

Dois grandes desafios de política externa

Autarca de Manchester durante quase 10 anos, Andy Burnham candidatou-se à liderança trabalhista praticamente sem rivais e com base numa plataforma focada em políticas internas e crescimento económico, no que Tramsen considerou como a “primeira ruptura” em relação a Keir Starmer – “ligada à descentralização do poder, à transferência da autoridade decisória de Westminster para autoridades regionais, enquanto seu princípio orientador” – sendo a “segunda ruptura” a antecipada “política externa mais fria e menos engajada”.

A grande questão é até que ponto conseguirá manter-se mais à margem dos desafios geopolíticos da atualidade, incluindo no que toca a Israel e à Palestina, um ano depois de o seu antecessor ter decidido criminalizar o grupo de ativismo Palestine Action. A controversa decisão foi sustentada por um tribunal londrino em junho deste ano, na mesma semana em que quatro cidadãos britânicos foram condenados a um total de mais de 20 anos de prisão por terem invadido uma fábrica em Bristol operada pela empresa israelita Elbit, que produz e exporta equipamento militar.

Antes da leitura da sentença aos chamados Filton 4, cerca de 100 figuras públicas, incluindo a escritora Sally Rooney e o músico Brian Eno, assinaram uma carta aberta a criticar o tratamento do caso como terrorismo e a consequente aplicação de penas mais severas aos réus, algo que, nas suas palavras, constituiria uma grave injustiça.

“Danos criminais nunca foram tratados como terrorismo no sistema de justiça do Reino Unido antes e é perigoso tratá-los como a mesma coisa”, disse Kerry Moscogiuri, diretora-executiva da Amnistia Internacional no país, após a leitura da sentença, sublinhando que “o direito ao protesto é uma das ferramentas mais eficazes de que dispomos para responsabilizamos os nossos líderes” e que a decisão do tribunal “marca mais um passo na repressão contínua a esse direito” no Reino Unido. “É totalmente desproporcional punir manifestantes por danos criminais como se fossem terroristas – uma condenação que os acompanhará pelo resto das suas vidas”, acrescentou a responsável da ONG. “O recurso a leis antiterrorismo contra manifestantes que praticam ações diretas deve acabar.”

Há um ano, o governo britânico de Keir Starmer classificou o coletivo de ativismo Palestine Action como "grupo terrorista"; em junho deste ano, quatro pessoas foram condenadas ao abrigo da legislação anti-terrorismo por uma ação direta na fábrica de uma empresa israelita de equipamento militar em Bristol. foto Kin Cheung/AP

Mesmo com a ilegalização do Palestine Action, Israel não viu com bons olhos que o anterior governo trabalhista condenasse ministros extremistas do governo de Benjamin Netanyahu pelas suas ações na Cisjordânia ocupada e desse o passo de reconhecer formalmente o Estado da Palestina no ano passado. E isso, dizem fontes israelitas, terá levado ao congelamento das relações entre os dois países desde 2024.

As declarações foram proferidas ao Telegraph ontem, com as fontes a adiantarem que as relações diplomáticas entre Israel e a Grã-Bretanha “estão congeladas” há dois anos e que a situação mostra tendência a piorar após as nomeações de Burnham para cargos-chave do seu executivo, como o novo ministro da Defesa e a escolha de Ed Miliband para chefe da diplomacia. “A situação não é boa”, disse uma fonte do governo israelita. “As relações estão praticamente congeladas [e] há ministros com quem não temos interesse em conversar.”

“Burnham vai ter de lidar com muita cautela com a política em relação a Israel e Gaza”, antecipa Fenja Tramsen, até porque “esta questão tornou-se um tema acalorado e muito debatido sob a liderança de Starmer, especialmente entre os eleitores jovens”. A sondagem do Opinium mostra isso mesmo, com 66% dos inquiridos com entre 18 e 34 anos a reconhecerem que Gaza foi um fator que os desviou do Partido Trabalhista, a par de 54% com entre 35 e 49 anos, 49% com entre 50 e 64 anos e 43% dos eleitores com 65 ou mais anos.

Questionada sobre os desafios além-fronteiras que aguardam Burnham, a analista do EPC reconhece a situação de Israel e da Palestina como uma delas, a par da “gestão da relação com Trump, que permanece altamente imprevisível” e que, para Tramsen, é “o desafio central” do novo governo britânico em matéria de política externa.

“No que toca à relação com os EUA, tudo indica que ele evitará tanto a proximidade [a Donald Trump] que custou a credibilidade de Starmer quanto qualquer ruptura aberta com Trump”, diz, antecipando que Burnham “poderá até não comparecer à assembleia-geral da ONU em setembro, a fim de limitar viagens ao exterior no início do seu mandato”.

Analisados em conjunto, acrescenta Tramsen, “estes pontos mostram que ele deseja transmitir a imagem de alguém focado em questões internas e não externas – uma estratégia inteligente, dada a atual instabilidade da política doméstica britânica”. Mas a volatilidade a nível mundial poderá sabotar esse plano, “enquanto ainda está a montar a sua equipa e a elaborar o seu programa de governo, dispondo de semanas em vez de meses para o fazer”.

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