Reinfeções já representam 15% dos novos casos de covid-19 em Portugal

19 jun, 08:00
Covid-19

Ainda não existem estudos sobre os riscos de sequelas nos casos de reinfeções. Mas os especialistas explicam à CNN Portugal o que pode estar em causa para os doentes que estão a ser infetados pela segunda ou terceira vez

Neste momento, cerca de 15% dos novos casos de covid-19 registados em Portugal são reinfeções, ou seja, pessoas (vacinadas ou não) que já tinham sido anteriormente infetadas. E a percentagem continua a aumentar.

A perda progressiva de imunidade e a rápida transmutação do vírus são alguns dos fatores que contribuem para a reinfeção. As reinfeções acompanham geralmente o aparecimento de novas variantes, uma vez que a imunidade de uma variante não confere automaticamente uma proteção total para outra variante. É isso que acontece também com a gripe, todos os anos. No caso do SARS-CoV-2, ainda não sabemos qual a periodicidade com que surgem as novas variantes. Mas podemos dizer que a proteção contra a infeção tem valores bastante altos durante dois a três meses e só depois começa a cair. Um cenário que se acentuou ainda mais com o surgimento da variante Ómicron e respetivas sublinhagens.

Perante um vírus que parece ter aperfeiçoado a capacidade de invadir o nosso sistema imunitário, importa questionar: a reinfeção aumenta o risco de se desenvolverem sequelas da covid-19?

A resposta não é, ainda, clara e consensual.

Em princípio, as pessoas que não tenham sido vacinadas (ou cuja vacinação esteja incompleta) e aquelas que tenham desenvolvido uma forma mais grave na fase aguda da infeção têm mais risco de virem a desenvolver long covid. Mas o que acontece no caso de uma reinfeção?

"O que nós sabemos é que, em teoria, cada vez que há uma infeção de covid-19, mesmo que seja ligeira ou assintomática, podem desenvolver-se sequelas, nomeadamente ao nível dos pulmões", explica o médico Carlos Palos, especialista em medicina interna e diretor de serviço no Hospital Beatriz Ângelo. Por isso, "podemos extrapolar e dizer que perante mais infecções pode haver mais efeitos cumulativos", acrescenta, sublinhando no entanto que "ainda não há estudos" que permitam chegar a esta conclusão. 

"Ainda é cedo", corrobora o médico Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. "Para estudar os efeitos da long covid é preciso tempo." No entanto, "à partida", este especialista diria que o risco não é maior "porque já se tem alguma proteção imunitária", ou seja, o corpo já tem mais capacidade de se defender da infeção e impedir os efeitos mais complicados. 

O que é a long covid?

Febre, dores no corpo, cansaço ou diarreia - estes são alguns dos sintomas que a covid-19 pode causar e que em muitos doentes se prolongam para além da infeção. Se em alguns casos duram quatro, seis ou mais semanas, noutros ultrapassam os três meses - e esse dado temporal deve ser um sinal de alerta, garantem os médicos. Ter sintomas 90 dias após ter sido infetado é um indicador de que pode estar em causa o que é conhecido como long covid, uma síndrome decorrente da doença.

A "memória" da doença

"O risco de reinfeção depende do nosso passado imunológico", explica, ainda, Carmo Gomes. "Cada caso é um caso."

O que se passa quando um vírus ataca o nosso organismo é que existe uma primeira linha de defesa que é composta pelos anticorpos. Se estes falharem, ao fim de três ou quatro dias entra em ação uma "reposta de segunda linha" constituída pelas "células de memória" - que guardam "resquícios de vírus" de infeções anteriores. O que estas células fazem é impedir a "replicação do vírus" dentro do nosso organismo.

Por este motivo, acredita este especialista, as pessoas reinfetadas não só terão mais capacidade de resposta ao vírus, como, por consequência, "o risco de long covid não deveria aumentar", antes pelo contrário.

A importância da vacina

O risco de sequelas depende de muitas variáveis, avisa o médico Miguel Toscano Rico, especialista em Medicina Interna. Depende, por exemplo, se a pessoa está ou não vacinada (e se tem o esquema vacinal completo e o reforço), de quando levou a vacina e que tipo de vacina levou, e da estirpe com que foi infetada da primeira vez e nas vezes seguintes.

"Nas pessoas vacinadas o risco de desenvolver sequelas na reinfeção não é elevado", defende Toscano Rico. Ter o esquema vacinal prévio, sobretudo se se tiver tomado vacinas diferentes, é um fator positivo. Se se adicionar a isto a dose de reforço "a probabilidade de se ter uma infeção é mais reduzida".

As vacinas foram desenvolvidas para o "wilde type" da covid-19 e nenhuma delas "se revelou particularmente eficaz para a Ómicron". De qualquer forma, recorda, as vacinas não evitam a infeção nem evitam em grande parte a doença, mas são importantes para reduzir a gravidade da doença.

A especificidade da Ómicron

Neste momento, é a Ómicron que é dominante e é ela a responsável pelo elevado número de reinfeções que se registam em Portugal. A Ómicron afeta sobretudo "as vias respiratórias superiores", sendo responsável, por exemplo, por nariz a pingar e dores de garganta e menos por sintomatologia pulmonar. E, portanto, à partida, com menos risco de sequelas, considera Toscano Rico.

De acordo com vários estudos, a Ómicron está associada a dois terços de redução no risco de hospitalização por covid-19 quando comparada com a variante Delta.

De qualquer forma, sublinha Carmo Gomes, é preciso ter em conta que mesmo pessoas com doença ligeira ou assintomáticos podem desenvolver long covid, pelo que não se pode dizer taxativamente que a Ómicron tem menos riscos.

Manter a atenção aos mais vulneráveis e não desleixar a vacinação

O grande problema deste pico de reinfeções é, segundo Toscano Rico, "a descompensação de doenças crónicas".

"Neste momento não temos a doença com a gravidade que já vimos antes, isso é visível nos números de internamentos e mortes. Mas é relativamente expectável que as pessoas idosas e com outras comorbilidades, como doença respiratória crónica, doença cardíaca ou diabetes, estejam mais vulneráveis e descompensadas. Por isso, uma reinfeção de covid-19, tal como acontece com a infeção de uma gripe normal, "pode tornar-se um problema grave".

Todos os especialistas contactados pela CNN Portugal insistem que a vacinação continua a ser a nossa melhor arma para combater tanto a infeção por covid-19 como as suas possíveis consequências. "As doses de reforço são bastante importantes, sobretudo para as pessoas mais vulneráveis mas não só", insiste Toscano Rico. "A vacinação é a única forma que temos de combater a doença grave por covid-19."

"Com a covid-19 ainda estamos a aprender, mas isto já sabemos: a vacinação é importante", relembra Carlos Palos.

Relacionados

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Covid-19

Mais Covid-19

Patrocinados