Estou vacinado e já tive covid-19. Posso ser reinfetado e ter doença grave? A resposta é sim

7 mai, 08:00
Teste de deteção do SARS-CoV-2

Apesar dos anticorpos deixados pela vacina ou por uma infeção anterior, a possibilidade de reinfeção com covid-19 existe, sobretudo numa altura em que novas linhagens da variante Ómicron podem pôr em cheque até os que ficaram infetados no inverno passado

A queda da obrigatoriedade das máscaras, o bom tempo a chegar, o cansaço das restrições da pandemia. Tudo se conjuga para que muitos portugueses, que até há bem pouco tempo não dispensavam medidas de proteção, estejam agora mais descontraídos e menos atentos a eventuais contágios de covid-19.

“Os números falam por si”, diz Paulo Paixão, presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia, à CNN Portugal. “Não tenho dúvida de que os casos estão a aumentar, porque pode haver falta de cuidado, mas também porque as linhagens da covid-19 começam a variar. Daqui a pouco tempo vamos ter uma diferente a predominar e a BA.2 estará ultrapassada”, acrescenta o especialista.

Mesmo quem teve covid-19 no inverno, depois de duas vacinas e até um reforço, está sujeito a ser reinfetado. O número médio de infeções diárias em Portugal subiu de 9.474 para as 11.153 e o índice de transmissibilidade (Rt) do SARS-CoV-2 estava em 1,07 a 29 de abril, indicou na passada quarta-feira o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.

Em geral, as reinfeções são menos graves para um doente que já esteve infetado com covid-19. Mas isto não é linear. Segundo o virologista Paulo Paixão, os sintomas descritos são, pelo menos, mais atípicos: “Deixámos de ter aqueles sinais respiratórios típicos do início, algumas infeções já quase nem têm sinais respiratórios evidentes, dão febre e dores de cabeça”, esclarece. “Pode ser um efeito não tanto das linhagens diferentes mas da vacinação, que altera um pouco a apresentação clínica da doença”, diz o presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia.

Mas Paulo Paixão faz a ressalva: “A gravidade é menor mas também sabemos que há pessoas internadas com infeções graves, e muitas delas estão vacinadas. E se os nossos grupos de risco estão quase todos vacinados, isto não significa que as vacinas não protejam, senão teríamos muito mais internados, mas que há pessoas que vão ter na mesmas infeções graves estando vacinadas”.

Bernardo Gomes, médico de Saúde Pública, faz o mesmo alerta: “Se tivermos reinfeção com uma variante suficientemente diferente, não há garantias de que não tenhamos doença mais grave”, diz o especialista, referindo que, apesar de as reinfeções serem geralmente mais benignas, esse facto “não pode ser transformado num ditame”.

Fazer testes antes de passarem seis meses da infeção

Daí que dispensar testes à covid-19 num período de seis meses após a infeção não é a medida acertada, sobretudo se houver sintomas: “Não nos podemos fiar em períodos pré-determinados e sobretudo tão longos”, diz Bernardo Gomes à CNN Portugal. “Muitas analogias têm sido feitas com outros vírus, mas outros vírus não têm tanta variabilidade como o SARS-CoV-2. Estamos a falar de um vírus cuja pulsão de evolução, de acordo com a literatura, é para maior transmissibilidade e maior invasão imunitária”, destaca o médico.

“É possível, para pessoas que se infetaram há pouco tempo, até dois meses, que ao depararem-se com uma nova variante, as diferenças entre variantes sejam suficientes para haver reinfeção, porque a resposta imunitária montada no curto prazo pode não ser suficiente face a um vírus que, entre aspas, tenha mudado as suas cores, parte da sua apresentação antigénica”, explica Bernardo Gomes.

Recorde-se que, antes da Ómicron, que a Organização Mundial de Saúde considera uma "variante de preocupação do SARS-CoV-2", as variantes Alfa e Delta, nomeadamente, já tinham causado milhões de casos de covid-19 em todo o mundo.

Paulo Paixão também reforça que “a janela temporal de proteção já não está tão clara”, pelo que seis meses de imunidade após recuperar da infeção não devem ser levados à letra. “Tenho visto reinfeções em pessoas com muito menos tempo do que isso”, frisa o virologista. Se este prazo, em vez de seis meses, podia ser encurtado para três, por exemplo? "Para mim teria mais lógica. Há pessoas que se mantêm positivas durante mais tempo e há um esforço de evitar falsos positivos, mas um positivo durante seis meses não é nada habitual”.

Para o presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia, “a única parte boa” é que “do ponto de vista da gravidade, as coisas são diferentes”. E, aqui, a responsabilidade é das vacinas que também contribuem para um bloqueio da infeção por SARS-CoV-2, mesmo que o seu principal contributo tenha sido o de reduzir os casos de doença grave.

Vacinas bloqueiam reinfeção?

A propósito da capacidade das vacinas contra a covid-19 de bloquearem a transmissão da doença, Paulo Paixão refere que muitos estudos têm sido feitos sobre o tema mas, na perspetiva do virologista, e quando há cada vez mais casos em que, por exemplo, um membro de uma família infetado não leva à infeção dos restantes coabitantes, só há uma explicação: “Não acredito que esta mudança tenha a ver com as variantes, que até são cada vez mais transmissíveis. Tem a ver com a vacinação”, defende.

“A efetividade vacinal é medida em vários componentes”, indica Bernardo Gomes. “As vacinas são uma forma de estimulação imunitária que acaba por diminuir a probabilidade de doença aguda, sobretudo grave, e é este o principal papel das vacinas”, explica o médico de Saúde Pública, acrescentando que a efetividade das vacinas é aferida também consoante a capacidade de evitarem mortes, internamentos, evitar a doença ou evitar, de todo, a infeção.

“Nestas vacinas que temos contra a covid-19, nomeadamente as de MRNA, temos maior efetividade de evicção da doença grave do que da evicção da infeção. No curto prazo, as vacinas dão-nos uma janela de anticorpos mais forte, mas não é garantia de não sermos infetados”, explica.

As vacinas contra o sarampo ou a rubéola, por exemplo, “o que fazem é montar uma resposta muito maior em proporção esterilizante. Na prática, bloqueiam a transmissão do vírus em muito maior grau”, ou seja, a resposta imunitária é muito forte perante um agente que não tem “grande variabilidade”. Ora, não é este o caso do SARS-CoV-2, que nos tem brindado com a capacidade de integrar mutações em cima de mutações, trazendo novas variantes com linhagens que conseguem ser mais transmissíveis e procuram escapar aos anticorpos criados pelas infeções anteriores. "Daí que seja prudente evitar exposições ao vírus, dentro do possível, e também de nos defendermos da possibilidade de haver novas vagas, mais difíceis ainda", assinala Bernardo Gomes.

Nova linhagem da Ómicron com tendência crescente

O mais recente relatório do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) sobre a diversidade genética do novo coronavírus indica que a BA.5, a nova linhagem da variante Ómicron - que está a fazer soar campainhas de alarme em África do Sul - tem tendência "crescente" e já está presente em 4% das amostras analisadas em Portugal.

Tanto a BA.4, que não tem para já qualquer caso detetado em Portugal, como a BA.5, descendem da linhagem BA.2 da Ómicron - que representa cerca de 70% dos casos em território nacional - ainda que apresentem “várias características genéticas distintivas”, lê-se no documento. “A linhagem BA.5 tem apresentado uma frequência relativa crescente, tendo atingido 4% na amostragem nacional das semanas 15 e 16 (17 a 24 de abril de 2022)”, indica o INSA. “Estima-se que a sua frequência relativa seja consideravelmente superior à data do presente relatório”, que foi divulgado na passada terça-feira, 3 de maio. 

Sobre a gravidade da BA.5, Miguel Prudêncio, investigador do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes, já disse à CNN Portugal que, apesar de ter passado pouco tempo desde que esta linhagem foi detetada em Portugal - na semana 13 de 2022, ou seja, entre 28 de março e 3 de abril - “aparentemente não causa doença mais grave do que as outras linhagens da Ómicron e também não há razões para acreditar que as vacinas percam a sua capacidade de proteger contra as formas mais graves da doença”, mesmo em casos de reinfeção.

Ainda assim, o investigador admite que “a BA.2 é bastante transmissível e a BA.5 parece competir, a esse nível, com a BA.2”. Também o especialista em Saúde Pública Bernardo Gomes acredita que a BA.5 irá eventualmente impor-se e já tinha alertado, em declarações à CNN Portugal, para a maior probabilidade de ocorrência de reinfeções, perante as "substituições cíclicas de estirpes de variantes por outras mais transmissíveis e com maior invasão imunitária", assinalando que as vacinas limitam, apesar de tudo, "grande parte dos eventos agudos".

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