Como preparar os mais novos para o regresso às aulas (envolve conversas sobre diversidade, mas não prendas ou pressão para tirar boas notas)

4 set, 13:00
Regresso às aulas (Pexels)

O começo do ano letivo é para muitas famílias como o começo de um novo ano, de novos hábitos e de novas rotinas. Três psicólogas dão conselhos aos pais

Passados dois anos e meio de pandemia e com dois anos letivos a decorrer, muitas vezes, em frente a ecrãs, chegou o momento de preparar os mais novos para o regresso às aulas, às rotinas e às responsabilidades. 

“Retomar as aulas é, sem dúvida, um período da vida da criança e/ou adolescente que pode potenciar variados sentimentos que diferem na sua individualidade”, começa por explicar à CNN Portugal a psicóloga clínica Marta Maria Fialho. Em consulta, diz-nos, “observam-se frequentemente ansiedade adaptativa, sentimento de recomeço e alegria por voltar a estar com os amigos”, mas há crianças que não olham com tanto entusiasmo para o regresso às aulas - por episódios de bullying, por exemplo - e, nestes casos, “é fundamental que os pais beneficiem de apoio técnico especializado de forma a apoiar” a criança a “enfrentar o agente que desencadeou o sofrimento emocional”. E as conversas são o primeiro passo, assim como planear todo o momento que é o regresso às aulas - e fica já aqui a primeira dica: “não dar presentes nem recompensas como gratificação da criança regressar à escola”.

“A escola deve ser encarada como uma mais-valia para o crescimento interno, autoestima e autoconceito. É importante passar a mensagem que a escola potencia na criança conhecimentos, que o ajuda a pensar, tomar decisões e essa é uma forma de autocuidado, de aprender”, explica.

Criar o hábito do diálogo

Conversar com a criança ou jovem “em relação ao que sente em regressar às aulas, através da escuta ativa sem julgamentos, sem dar o seu próprio sentir mediante as suas experiências escolares passadas” é um dos conselhos dados pela psicóloga Marta Maria Fialho. Este fator, diz, “é importantíssimo, porque o percurso escolar é do filho, modelado pelo contexto ambiental e os recursos emocionais que advém das suas vivências individuais”.

Mas para que haja uma conversa - e interesse na mesma - os pais devem “disponibilizar o seu tempo e atenção para, em conjunto, ajustar os sentimentos do filho(a) e encontrar soluções que minimizem as emoções negativas”, sobretudo quando estas são predominantes no regresso às aulas ou se prolongam ao longo de todo o ano letivo. 

Nas conversas que antecedem o regresso à vida escolar, Marta Maria Fialho destaca ainda que “é importante refletir sobre os pontos positivos de voltar à escola”, e os pais podem pedir ao filho “para os descrever, imaginar situações e planear situações semelhantes”, quase que numa espécie de jogo. “É importante que a mente sinta as emoções de alegria e bem-estar, valorizando o que de facto é importante, as relações entre os colegas, o adquirir novos conhecimentos e o brincar. Imaginar o reencontro com os amigos, ser feliz”, explica.

Não focar o discurso - e o percurso escolar - no êxito

“Costumo dar muita formação a professores e pergunto muito o que esperam no futuro se encontrarem os seus alunos. Nenhum me responde que espera que sejam super inteligentes, mas sim que sejam felizes, que sejam competentes, que tenham boas relações interpessoais, e isso é o que eu acho que os pais devem pensar”, diz Gina Tomé, psicóloga da Educação e psicóloga clínica e da Saúde, que considera que, no entanto, os pais podem tentar encontrar um equilíbrio entre estimular as competências sociais (sobretudo num cenário de pós-pandemia) e emocionais das crianças ao mesmo tempo que lhes incutem hábitos de estudo e responsabilidade para bons resultados.

A psicóloga adianta que “mais importante” do que ter sucesso escolar é dar à criança ferramentas emocionais para lidar com a pressão e até mesmo com a frustração. “Há crianças que se sentem tão pressionadas que ao fim de algum tempo precisam de procurar ajuda porque não conseguem lidar com esta pressão”, lamenta, incentivando os pais a incutir práticas de estudo nos mais novos, mas que essas rotinas não tirem tempo às crianças de serem crianças e os adolescentes de serem adolescentes. “É mais importante que tenham sucesso escolar ou que sejam felizes, tenham boas relações nas escolas, que sejam bons com os colegas?”, questiona Gina Tomé.

Da mesma opinião é Marta Maria Fialho, que diz que “a tónica nunca deve ser o êxito escolar, mas sim a possibilidade de evolução dos conhecimentos, fomentar a importância do estudo e sobretudo o benefício de interagir com outras crianças e ser feliz”. A psicóloga diz que “é importante valorizar as dinâmicas relacionais, o respeito pelos colegas, a partilha, a empatia em relação à diversidade (género, etnia, necessidades de educação especial e tipologias de família)”. E tudo isto, continua, pode ser feito através do diálogo ou de jogos e atividades. “Podem inclusive simular diversas situações através de role playing (teatrinhos com a família e/ou bonecos), tentar compreender a perceção do filho em relação à diferença, ajustar as emoções e apoiar na resolução de problemas sociais”, exemplifica.

Planear (novas ou velhas) rotinas

Gina Tomé, psicóloga da Educação e psicóloga clínica e da Saúde, considera que o primeiro passo na preparação do regresso às aulas é mesmo “criar rotinas, permitir que [as crianças e jovens] tenham horários”, seja para estudar ou para brincar ou “não fazer nada”. 

Micaela Gonçalves, psicóloga na Academia Transformar (quem tem dois ebooks sobre o regresso às aulas, um para os pais de crianças que passam para a primária e outro para aqueles que vão para o quinto ano), sugere que se comece por “introduzir as tarefas que se pretende implementar de forma faseada, preferencialmente antes de iniciar a escola”, pois, assim, “será mais fácil implementar novos hábitos gradualmente”. “Inclua o seu filho nas tarefas associadas ao regresso às aulas para que se sinta incluído, motivado e confiante (ex. comprar materiais, livros, organizar o horário, escolher atividades extra-curriculares), aconselha. Aos pais, a psicóloga sugere ainda a inclusão de “momentos de partilha validando dúvidas e receios que possam surgir”, incentivando que sejam “bons ouvintes, de forma a criar uma relação de confiança, sensibilidade e atenção”.

“Uma semana antes de começar as aulas, os pais devem alterar de forma gradual a rotina diária, sobretudo nas atividades funcionais, tais como o período de higiene, hora de jantar e de deitar (treinar a indução do sono), fator fundamental para o rendimento escolar”, continua Marta Maria Fialho, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, que continua: “A criança deve concentrar a sua atenção e disponibilidade afetiva para a nova escola, novas salas, professores, colegas e se estas dinâmicas já estiverem interiorizadas, facilita”. 

E como o regresso às aulas pede a adoção de hábitos, logo nos primeiros dias de aulas, defende Gina Tomé, os alunos devem “chegar a casa e ter 30 minutos” para estudar ou rever a matéria, um hábito que deve ser rotineiro e ao qual os pais devem prestar atenção, “para ver onde há mais dificuldade”. 

Na criação de novos hábitos, a psicóloga Marta Maria Fialho dá uma dica: incentivar os filhos a usar a ‘velhinha’ agenda. “Da experiência clínica, observa-se uma maior organização interna, segurança emocional e emoções positivas nas crianças que planeiam as suas atividades. Mais tarde, podem incutir a sinalização dos testes, trabalhos e projetos de forma a facilitar a organização da criança e dos pais”.

Controlar o uso de tecnologias

As férias de verão são, para muitas crianças, sinónimo de muita tecnologia, de um maior acesso a telemóveis e tablets e de uma maior disponibilidade de tempo para videojogos. Mas está na hora de voltar aos mínimos e às regras.

“A tecnologia é quase uma extensão deles, há que ter regras bem definidas”, adianta Gina Tomé. A psicóloga admite que a tecnologia não é um bicho-papão e que até pode ser positiva como ferramenta de estudo ou entretenimento, mas apenas quando usada com peso e medida.

“Faz falta para a própria estruturação interna das crianças e jovens terem regras definidas do que podem ou não fazer dentro de casa”, sendo a definição de horários para o uso de gadgets uma das estratégias mais vezes defendida pelos especialistas. Mas também dar o exemplo: “não adianta dizer à criança para não ter telemóvel quando não largo o meu”.

A psicóloga alerta ainda para a importância de os pais estarem atentos aos sinais que a criança ou o adolescente dá quando lhe é limitado o uso de gadgets ou o acesso à internet. A especialista considera que começa a ser sinal de uso excessivo “quando dizemos que não é permitido telemóvel à mesa, a criança faz birra, resiste mesmo, isto é uma questão de preocupação”. 

“Quando sabem que há momentos em que tem de deixar, porque é uma regra, as coisas fluem naturalmente. Não podemos medir forças com as novas tecnologias, mas há alturas em que devemos conviver uns com os outros”, frisa.

Inscrever em atividades extracurriculares: sim, mas com peso e medida

A inscrição em atividades extracurriculares é habitual e Gina Tomé diz que é algo positivo para o desenvolvimento da criança, mas que os pais não devem cair no erro de preencher em demasia os tempos livres dos filhos, pois “eles precisam tempos para ele próprios, para estar com os amigos, para não fazer nada, não fazer nada é muito desvalorizado, mas, às vezes, é bom não fazer nada”. 

“Há tempo para tudo ao longo do dia, claro que se as crianças e os jovens tiverem todo o dia preenchido com atividades extracurriculares, não têm tempo para eles próprios, chegam ao fim do dia super cansados e desvalorizamos muitos a rotina de sono, mas isso vai influenciar o bem-estar e a aprendizagem”, diz a psicóloga. 

Gina Tomé reconhece ainda que “os pais sentem muito a pressão de não estar muito tempo com os filhos e querem compensar, mas não é a quantidade de tempo que conta, é a qualidade” e, mesmo com rotinas apressadas, um simples jantar em família pode fazer a diferença - até mesmo na criação do hábito de conversar com o filho sobre o dia-a-dia, a escola e os seus hobbies.

“Se os pais fizerem uma refeição por dia sem telemóvel, sem tablets, a estar ali presentes, isso promove mais o bem-estar e relação afetiva com a família do que estar o dia todo em casa com o filho no quarto fechado”, continua, frisando que este é um dos hábitos que os pais podem adotar logo no começo do ano letivo, incluindo-o no tal planeamento das rotinas.

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