Serviço de atendimento telefónico do Governo para refugiados ucranianos está a ser feito em russo

26 mai, 22:32
Ucranianos numa ação de "luta contra o fascismo russo", promovida pela Associação dos Ucranianos em Portugal. Rodrigo Antunes (Lusa)

Quem telefona para o número indicado pelo Alto Comissariado para as Migrações para prestar informações a refugiados ucranianos é atendido por um serviço automático com mensagens em português, inglês e russo. Atendimento "em ucraniano" não é disponibilizado apesar de estar indicado

O Serviço de Tradução Telefónica da Linha de Apoio a Migrantes - SOS Ucrânia, o número do Alto Comissariado para as Migrações (ACM) para atender refugiados de nacionalidade ucraniana, só disponibiliza três línguas: inglês, português e russo. O caso está a deixar a comunidade ucraniana em Portugal indignada, porque no site “SOS Ucrânia”, desenvolvido pelo Governo e pelo ACM, está escrito que o apoio é feito “em ucraniano”.

“O que acontece é que quando ligamos somos atendidos em russo”, explica Pavlo Sadhoka, da Associação dos Ucranianos em Portugal, à CNN, afirmando ainda que “parece que o Alto Comissariado para as Migrações quer reconhecer os ucranianos como russos”.

A denúncia chegou esta quinta-feira a várias associações envolvidas no acolhimento de refugiados e a CNN Portugal confirmou com cinco ucranianos a residir em Portugal que através do número 218 106 191 só existe atendimento em português, inglês e russo. 

Este número é indicado pelo Alto Comissariado para as Migrações como um meio para dar resposta humanitária à guerra na Ucrânia. Quem liga pode ouvir as seguintes mensagens pré-gravadas: “Para português, prima 1; For english press 2; Для русского языка нажмите три", que traduzido significa “Para russo, pressione 3”. Não existe até ao momento a opção de selecionar o idioma ucraniano, confirmou a CNN Portugal.

“Aleksandra”, uma ucraniana que vive no Porto e que preferiu não ser identificada, explica que ficou “magoada” com o facto de este serviço, “essencial para ajudar quem foge da guerra e chega a Portugal”, disponibilizar a língua da nação que invadiu o seu país natal e pede que não se assuma que todos os ucranianos falam russo.

“Eu recebi educação em russo, mas nem todos falam a língua”, sublinha. De acordo com os números mais recentes do governo ucraniano, 30% da população fala russo. “Mas a questão não é essa”, afirma “Aleksandra”, “a língua oficial da Ucrânia é o ucraniano". "A identidade é a minha língua e reconhecer isso é um passo essencial para a comunidade residente sentir-se incluída.”

Pavlo Sadhoka, da Associação dos Ucranianos em Portugal, avisa também que há casos de refugiados ucranianos que não dominam nem o português, nem o inglês, nem o russo, o que faz com que “não consigam obter o apoio que precisam ao chegar a Portugal”.

 

A CNN Portugal tentou contactar o Alto Comissariado para as Migrações para tentar perceber o porquê de esta linha de apoio garantir que há um Serviço de Tradução Telefónica "em ucraniano" e, na prática, ele ser feito em russo. No entanto, até ao momento, não foi possível obter uma resposta.

Estas queixas da comunidade de ucranianos em Portugal surgem num momento em que foi denunciado que várias associações com ligações ao regime de Putin estariam a acolher refugiados vindos da guerra. O Ministério Público chegou mesmo a fazer buscas em Setúbal, onde essa receção foi feita por um russo que já desempenhou papéis importantes em organismos do Kremlin.

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