“Deixaram-nos num bote no meio do mar”. Refugiado processa Frontex após Grécia ter “empurrado” migrantes de volta para o Mediterrâneo

1 set, 19:02
Crise migratória em Ceuta

Alaa Hamoudi e mais 21 refugiados passaram 17 horas no mar, sem comida e sem água

Um refugiado sírio vai processar a Frontex, a agência para o controlo das fronteiras externas da União Europeia, dois anos após as autoridades gregas o terem abandonado no Mar Mediterrâneo.

Alaa Hamoudi, de 22 anos, fugiu de Damasco há cerca de 10 anos. Chegou à ilha grega de Samos no dia 28 de abril de 2020, juntamente com outros refugiados, e procurou pedir asilo ao país. “Estava apenas muito feliz por poder deixar tudo para trás”, disse, citado pelo The Guardian, revelando que o seu desejo era chegar à Alemanha, onde o seu pai vive.

No entanto, não conseguiu apresentar o pedido de asilo. As autoridades gregas levaram os 22 migrantes de volta para a costa, colocaram-nos num bote insuflável, sem qualquer motor, que depois foi rebocado para o mar. “Deixaram-nos neste bote no meio do mar. O meu cérebro parou de funcionar. Não sabíamos o que fazer. Estávamos no meio do oceano, com água a rodear-nos. E as pessoas do grupo começaram a chorar.” Entre os ocupantes, estava uma menina de 12 anos e dois idosos.

Os 22 refugiados passaram 17 horas no mar, sem comida e sem água. Com a corrente a empurrá-los de volta para a costa grega, as autoridades de Atenas enviaram motas de água para perto do bote, que procederam a fazer ziguezagues de modo a provocar ondulação para afastar o insuflável, que ficou inundado.

O grupo acabou por ser resgatado pelas autoridades turcas. Mais de dois anos depois, ainda na Turquia, Hamoudi vai processar a Frontex pelo seu envolvimento na ocorrência. De acordo com o portal de investigação Bellingcat, o avião de vigilância sobrevoou o bote por duas ocasiões. Esta versão bate certo com a de Hamoudi, que se recorda de ter visto uma luz vermelha no céu, assim como de ter ouvido o barulho de um avião ao longe.

Hamoudi será representado pro bono por Omer Shatz, diretor da Front-Lex, uma ONG de defesa dos direitos de refugiados e migrantes. Shatz irá pedir 500 mil euros de indemnização para o seu cliente devido às alegadas violações, como a negação dos direitos à vida e ao pedido de asilo. O advogado pensa que a melhor forma de combater o fenómeno dos “pushbacks”, ou devoluções ilegais de migrantes, é processar a Frontex. “O denominador comum é a Frontex: as políticas vêm de Bruxelas, não de Roma e de Atenas, etc”, acusa.

A Frontex tem estado debaixo de fogo nos últimos meses devido a esta política. De acordo com um relatório do Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF), obtido pelo Der Spiegel, a agência encobriu e mentiu acerca das devoluções ilegais de migrantes pagas com dinheiro dos contribuintes europeus.

“Em vez de impedir os ‘pushbacks’, Fabrice Leggeri [ex-diretor da Frontex] e os seus homens deram cobertura à Grécia, mentiram descaradamente ao Parlamento da UE, e esconderam o facto de a agência estar a financiar ‘pushbacks’ com dinheiro dos contribuintes europeus”, escreveu no Twitter Giorgos Christides, um dos jornalistas que assinou a notícia para a revista alemã.

A Der Spiegel cita um dos exemplos dados no relatório, datado de 5 de agosto de 2020, quando um bote com 30 migrantes foi visto a ser rebocado por uma aeronave da Frontex de águas territoriais gregas em direção à Turquia.

A resposta da organização a este incidente foi retirar a sua aeronave de vigilância do local “para evitar que a Frontex fosse testemunha”, de acordo com uma nota de novembro de 2020 apreendida pelo OLAF nos escritórios da agência em Varsóvia.

"Com base nas fotografias e informação que tínhamos e nas imagens que vimos, era crença comum dentro da Agência que estávamos a ser confrontados com ‘pushbacks’, mas a direção queria encobrir e não permitir que uma investigação", afirma um oficial da Frontex citado no relatório.

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