Ajuda aos refugiados ucranianos não durou para sempre: "Recebemos chamadas para que ficássemos com as famílias que tinham sido acolhidas"

7 out, 08:00
Mãe e filho na estação de Przemyśl, na Polónia (AP Images/Petros Giannakouris)

O acolhimento dos refugiados em Portugal esteve em debate no Congresso da Ordem dos Psicólogos, que decorreu em Aveiro. Em entrevista à CNN Portugal, a coordenadora do Gabinete de Saúde Mental do Serviço Jesuíta aos Refugiados considera que uma resposta “organizada e estruturada” de profissionais com experiência é fundamental

A guerra na Ucrânia trouxe visibilidade ao drama dos refugiados e gerou grande comoção na sociedade portuguesa, mas esses movimentos espontâneos de solidariedade também trouxeram resultados inesperados e, por vezes, indesejados: “Lamentavelmente, recebemos chamadas para que ficássemos com as famílias que tinham sido acolhidas”.

A revelação foi feita por Rosário Suarez, coordenadora do Gabinete de Saúde Mental do Serviço Jesuíta aos Refugiados, no Congresso da Ordem dos Psicólogos, que decorreu entre 28 e 30 de setembro, em Aveiro. As palavras até podem criar um sentimento de choque, mas Rosário Suarez acredita que a explicação reside mais na falta de preparação da população civil do que num hipotético aproveitamento da situação dos refugiados. Em entrevista à CNN Portugal, a responsável afirmou não ter dúvidas de que, desde que a Rússia invadiu o território ucraniano, os portugueses demonstraram “muita empatia” e quiseram mesmo ajudar. 

“Acredito que houve muita empatia. (…) Mas a população civil não estava preparada e não estava organizada. Claramente, isso teve impacto nestas pessoas e nós podemos ver isso no Gabinete de Saúde Mental”, frisa a responsável.

À CNN Portugal, Rosário Suarez destaca que um acolhimento sem preparação pode “vulnerabilizar” ainda mais o refugiado, que já está numa condição muito frágil logo à partida. Por isso, acrescenta, uma resposta “organizada e estruturada” de profissionais com experiência e que já estão “há muitos anos no terreno” é fundamental.

A este propósito, a coordenadora do Gabinete de Saúde Mental do Serviço Jesuíta aos Refugiados salientou que o acolhimento de refugiados deve ser feito através de "equipas multidisciplinares" e de "um plano específico", com "politicas públicas" definidas. E um acompanhamento psicológico pode facilitar não só na integração, como ajudar também a salvar vidas.

Num debate promovido pelo Congresso da Ordem dos Piscólogos, Rosário Suarez começou por falar sobre as “grandes necessidades” dos refugiados quando chegam ao país de acolhimento: “Estas pessoas encontram-se numa cultura diferente, com vulnerabilidades, problemas de saúde e há também questões identitárias”. Mais, há uma série de “lutos” aos quais é preciso dar espaço: “O luto da língua, da cultura, do clima - porque há pessoas que estão habituadas a outro tipo de clima e isso dá-lhes conforto”.  

Por tudo isto, a ausência de um acompanhamento ao nível da saúde mental pode ter graves “consequências”. A responsável exemplificou com um estudo que envolveu refugiados da Somália que não tinham sido acompanhados por psicólogos: “Em quase todas as famílias, um elemento tinha-se suicidado e as crianças tinham problemas”.

Mas Rosário Suarez adverte que ter profissionais de saúde mental prontos para lidar com estes casos não chega: é preciso dar-lhes formação contínua para que possam ir trabalhando as diversas realidades que vão surgindo.

"Nem todos os refugiados têm uma condição económica desfavorecida"

No mesmo debate, Miriam Gonzaga, coordenadora do Núcleo de Apoio à Integração de Refugiados do Alto Comissariado das Migrações, considerou que é preciso “olhar para a pessoa refugiada” e para “todos os fatores de integração” possíveis, colocando-os “ao serviço do cidadão que chega”. Neste sentido, destacou a importância do “acesso à saúde, à educação, ao emprego, à documentação e à habitação”, lembrando que “os problemas que afetam a sociedade portuguesa afetam os imigrantes de forma exponencial”.

A responsável lembrou que “um refugiado não é um migrante económico", mas "alguém que foi forçado a deslocar-se por perseguição política, por medo de perder a vida, a sua dignidade humana”. O refugiado tem “um receio fundado de morrer” que “o leva a sair do seu espaço afetivo, da sua família, em condições que podem ser mais ou menos danosas".

“Nem todos os refugiados atravessam o Mediterrâneo ou vêm a pé, nem todos têm uma condição económica desfavorecida, mas todos foram forçados”, completou.

Miriam Gonzaga não tem dúvidas: “Quando atribuímos uma única característica a uma pessoa, retiramos-lhe dignidade. Os refugiados são um conjunto de muitas coisas.”

Potugal recebe, em média, por ano, "1000 refugiados requerentes de proteção internacional espontâneos", mas também acolhe refugiados através de movimentos programados, que têm vindo a aumentar. Em 2016, os movimentos programados trouxeram 300 pessoas a Portugal, em 2022 foram 6.000. 

A responsável considerou que Portugal "tem uma política de acolhimento que é amplamente reconhecida a nível mundial, sem campos de detenção" com "movimentos de solidariedade muito fortes".  "Mais do que temos feito não sei se podemos fazer", sublinhou.

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