A reunião na embaixada, as suspeitas de espionagem e os avisos sem resposta. Toda a história da polémica no acolhimento de refugiados

15 mai, 08:00
Ucranianos manifestam-se em Lisboa (Lusa/Manuel de Almeida)

A ligação de associações que operam em Portugal a Putin foi desvendada num encontro na residência da embaixadora, em 2016. Durante anos, adensaram-se as suspeitas de espionagem e propaganda russa e somaram-se os avisos ao Governo. O caso, que envolveu as secretas portuguesas, provocou um turbilhão político entre Setúbal e São Bento e está a ser investigado pelas autoridades

Numa sala da sua residência, na Av das Descobertas, a embaixadora Inna Ohnivets mandou os lideres das várias associações que representavam os ucranianos sentarem-se à volta de uma mesa. O clima era tenso. As cicatrizes da revolução Euromaidan e da anexação da Crimeia, a 4 mil quilómetros de distância, tinham deixado marcas e divisões: uns eram apoiantes do antigo embaixador Alexander Nikonenko, acusado de ser pró-Putin; outros organizaram várias manifestações em frente à embaixada a pedir a mudança de governo em Kiev por ser demasiado próximo do Kremlin. 

Foram todos ali chamados, naquele dia de 2016, porque a diplomata, que tinha acabado de ser nomeada para o cargo, já chegara a Lisboa com a informação de que algumas associações que representavam a comunidade ucraniana no Alto Comissariado para as Migrações, em Portugal, mantinham ligações a organismos de propaganda e desinformação do governo russo. Inna Ohnivets precisava de saber se as suspeitas tinham fundamento.

E foi precisamente nesse dia, e durante aquela reunião, que a embaixadora percebeu que a situação podia ser complicada. E não só. Foi essa reunião que a levou, pouco depois, a dar início a uma investigação - que deu depois origem a queixas e alertas às autoridades e que contribuiu para denunciar o caso que envolveu o acolhimento de refugiados da atual guerra da Ucrânia, nomeadamente na  Câmara Municipal de Setúbal a acolher refugiados ucranianos que fugiram da invasão da Rússia, onde  há uma investigação em curso que envolve Igor Khashin - líder de uma das associações que têm ligações com a Fundação Mir, criada por Putin.

Igor Khashin era um dos que estava sentado à mesa naquela reunião de 2016, onde como estratégia para perceber a posição de cada um, a diplomata tinha lançado o tema da anexação da Crimeia.

No encontro estava também, Pavlo Sadhoka, que na época já presidia à Associação dos Ucranianos em Portugal (AUP), que quando tomou a palavra acusou vários dos que estavam na sala de serem a favor da anexação da Crimeia.

A embaixadora interrompeu-o, questionou todos sobre a veracidade do que acabara de ser dito e Igor Khashin, assim como Yulia Gundarina, que liderava outra associação, assumiram que concordavam com a anexação. A diplomata começou então a investigar todas as associações, não só aquelas que se manifestaram a favor da anexação, recolhendo vários documentos e fotografias da embaixada da Rússia em Lisboa e de organizações que dependem direta ou indiretamente do Kremlin. Uma das conclusões foi a de que a maior parte das associações responsáveis por representar os ucranianos ao nível do Alto Comissariado para as Migrações tinham laços com a Fundação Russkiy Mir, criada por Vladimir Putin, e com a Rossotrudnichestvo, uma agência de propaganda russa comandada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov.

Hoje seis anos depois, e em plena invasão da Ucrânia, o problema explodiu. Assim, foi lançado o alerta sobre os perigos que correm os refugiados e os familiares que ficaram a combater e as autoridades estão a investigar se estas organizações usaram indevidamente dados pessoais das pessoas, passando-os até à Rússia. Durante anos, porém, a situação viveu-se nos bastidores.  

 Em 2016, outro dado contribuiu para reforçar a ideia sobre as ligações perigosas que a embaixada e a AUP, liderada por Pavlo Sadhoka, tinham: o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que aconselhava os Estados-Membros a tomar medidas para lutar contra os esforços da Fundação Russkiy Mir e a agência  Rossotrudnichestvo, que, como contaram Ana Gomes e Paulo Rangel, se infiltravam em organizações porque eram “uma particularmente airosa cobertura da atividade de espionagem". 

Assim, estes “braços longos” do serviços secretos russos, como descreveu Paulo Rangel à CNN Portugal, estavam presentes nestas associações que eram reconhecidas como ucranianas pelo Alto Comissariado para as Migrações (ACM) e que tinham uma posição de privilégio no acolhimento de imigrantes. Mas o problema era ainda mais complexo. E já vinha desde 2011. Até esse ano, a comunidade de imigrantes ucraniana estava representada na “comunidade de Leste”, o que levou a vários protestos por parte da AUP que conseguiu que passasse a existir uma comunidade de ucranianos no Alto Comissariado para as Migrações. Mas a questão adensou-se, porque algumas entidades com ligações à Rússia, que já pertenciam à comunidade de Leste, mantiveram o seu lugar nesta nova comunidade ucraniana.

 

Perante essa realidade, multiplicaram-se durante anos a fio queixas ao Alto Comissariado, à secretaria de Estado para a Integração e Migrações e até ao próprio primeiro-ministro, mas nada foi alterado.

Ao mesmo tempo que as denúncias eram feitas, os líderes das associações continuavam a participar em eventos promovidos pela Embaixada da Rússia, ou com o patrocínio da Rossotrudnichestvo. Igor Khashin e Yulia Gundarina chegaram mesmo a ir a Moscovo, em 2018, como representantes do Conselho Coordenador dos Compatriotas russos, onde assistiram a um discurso de Putin que foi visto por muitos ucranianos como um prenúncio de que uma invasão de larga escala estava a caminho. “A russofobia e, lamentavelmente, outras formas de nacionalismo agressivo extremo estão em curso. Não há como esconder o facto de que existe uma guerra contra os memoriais e a língua russa na Ucrânia, nos países bálticos e em vários outros países”, afirmou o presidente da Federação Russa no encerramento desse 8.º Congresso de Compatriotas.

A entrevista

24 de fevereiro de 2022. Começa a invasão da Rússia à Ucrânia, trazendo a guerra de novo à Europa. Por todos os cantos do mundo espalham-se declarações de censura a Putin e várias manifestações de solidariedade para com aqueles que perderam as casas, as famílias, a própria maneira de viver e foram forçados a abandonar o país. António Costa foi um desses líderes e deu mesmo indicação às embaixadas na Ucrânia e aos países vizinhos "para ser agilizada a emissão de vistos para quem pretenda vir para Portugal". 

No espaço de pouco mais de um mês chegaram a Portugal mais de 33 mil refugiados vindos da guerra, um fluxo humano de grande escala que fez a comunidade ucraniana residente tornar-se a segunda maior população estrangeira em Portugal, atrás dos brasileiros. Com isto, contudo, soaram os alarmes das associações de ucranianos e da embaixadora da Ucrânia porque algumas das associações identificadas como tendo ligações ao Kremlin estavam a participar no acolhimento de refugiados, colaborando com o Alto Comissariado para as Migrações.

A ausência de respostas por parte dos organismos do Estado levou a Associação dos Ucranianos em Portugal a alertar as secretas para o problema, enviando uma carta à embaixadora Maria Graça Mira Gomes, onde consta toda a documentação recolhida desde o início da investigação a estas associações. Na carta, constavam também documentos e fotografias que ligavam cinco associações, de Setúbal a Aveiro, passando por Lisboa e Portimão, à fundação Russkiy Mir, criada por Putin e que desde que começou a guerra tem feito várias publicações a respeito da “necessidade de desnazificar a Ucrânia”. Não só isso, mas também identificava atividades de alguns destes líderes associativos com a embaixada da Rússia, com a agência de propaganda de Putin e com o Conselho Coordenador de Compatriotas em Portugal. As associações visadas nesta carta eram a "Edinstvo", a "Apoio ao Imigrante", a "Associação Mir", a "Amizade" e "Capela" - todas elas presentes naquela reunião de 2016 e todas elas reconhecidas pelo Alto Comissariado para as Migrações como ucranianas.

Pouco depois de a carta ter sido enviada, a diplomata Inna Ohnivets fez mais pressão para resolver o problema, dando uma entrevista à CNN Portugal na mesma residência onde, em 2016, reuniu todas as associações para perceber a sua visão sobre as relações entre Moscovo e Kiev.

Na entrevista, a embaixadora da Ucrânia percorreu cada uma das ONG e identificou ligações perigosas à Rússia: “Há a associação EDINSTVO, que é chefiada por Igor Khashin, um cidadão russo. Esta associação está ligada à embaixada russa e também este cidadão confirmou que esta associação não tem nenhuma ligação com a Ucrânia", contou, continuando: "Há uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia há já oito anos e, a partir de 2014, as associações como Amizade, MIR e EDINSTVO continuaram a sua cooperação com a Embaixada Russa. Isso significa que eles não perderam a comunicação com o mundo russo, na realidade”.  Perante o que estava a denunciar Inna Ohnivets fez questão de sublinhar que era perigoso estas associações estarem envolvidas no acolhimento de refugiados, porque “têm a ligação muito estreita com a Embaixada russa” e “podem receber informações sobre os dados pessoais destes refugiados,e dos familiares que  estão na Ucrânia", sendo essa "informação interessante, para a inteligência russa”.

 

 

As denúnicas da embaixadora sobre a colaboração da associação de Khashin à Câmara Municipal de Setúbal”, levaram o autarca sadino André Martins a enviar uma carta a António Costa onde alegadamente teria “questionado formalmente” o Governo sobre a associação Edinstvo. Mais tarde, o gabinete do primeiro-ministro viria a desmentir o conteúdo desta carta, dizendo que nela "não é solicitada qualquer informação sobre a associação EDINSTVO, nem sobre o cidadão Igor Khashin [membro da associação]”, Ou seja, segundo os assessores de Costa, a carta  era um “protesto sobre declarações prestadas pela embaixadora da Ucrânia em Lisboa, à CNN”.

Pelo meio, acumulam-.se histórias de refugiados que chegam a Portugal e caem no acolhimento de uma destas associações, nomeadamente em Setúbal.

O caso de Setúbal

É mãe de duas crianças. Só sabe ucraniano e falou com a CNN Portugal sob garantia de anonimato. No dia 16 de março, foi recebida na linha de apoio aos refugiados instalada na autarquia de Setúbal. “Só havia um homem russo, claramente, porque ele não compreendia de que região eu era. Ou seja, ele não se orientava. E eu percebi logo, porque eu falava em ucraniano com ele e ele não compreendia nada. Não compreendia”. A refugiada, uma mulher que não tem ainda 40 anos identificou Igor Khashin pela fotografia e disse que foi questionada sobre quem tinham "deixado na Ucrânia”. “Neste tipo de situação é um bocado estranho, nem é só um bocado, certo?”.

 

 

Depois vieram mais perguntas. “Perguntaram-me quem ficou na Ucrânia, eu disse que tinha ficado o pai das crianças e até perguntaram o apelido dos meus pais. Isso surpreendeu-me muito”, conta a mulher, sublinhando que mostrou uma fotografia do seu passaporte e que disse a Khashin que o seu marido não estava a combater na linha da frente.

A história desta mulher, avançada em primeiro pelo jornal Expresso, precipitou um turbilhão político e um passa-culpas entre Setúbal e São Bento. O autarca da CDU, André Martins começou por afastar,  do acolhimento de refugiados, Yulia Khashina, funcionária da Câmara de Setúbal e mulher de Igor, e responsabilizou o Governo por não o informar sobre a credibilidade das acusações feitas pela embaixadora ucraniana.

Depois, quando a autarquia foi informada do início das diligências para apurar eventuais falhas na receção de refugiados ucranianos, entrou em lockdown. “Entendemos que a partir deste momento, até à conclusão destas diligências, deveremos evitar voltar a comentar publicamente este assunto”, disse André Martins, que o voltou a comentar publicamente na semana seguinte para contrariar a ministra Ana Catarina Mendes, que considerou “inaceitável” o que se passou com o acolhimento aos refugiados, e que disse que a autarquia nunca celebrou ou mostrou disponibilidade para celebrar protocolos no âmbito do acolhimento de pessoas deslocadas.

Já António Costa, que já tinha sido alertado para o problema há dois anos, numa carta aberta da Associação dos Ucranianos em Portugal,  garante que o Governo “fez tudo de bem neste caso”. 

Pelo meio, repetiram-se pedidos do PSD e do Chega pela demissão do autarca comunista e vários representantes de altos cargos foram chamados ao Parlamento para prestarem contas numa Comissão de Inquérito. Entre eles, a Alta-Comissária para as Migrações, Sónia Pereira, que disse que só teve conhecimento daquilo que se passou em Setúbal pela comunicação social, mas admitiu que sabia das queixas feitas pela AUP e pela embaixada há vários anos.  

No mesmo dia em que esteve no Parlamento, a Polícia Judiciária avançou com buscas na Câmara de Setúbal, onde foram confiscados vários documentos e onde também foi feita uma investigação informática para saber se foram cometidos crimes relacionados com quebras na Lei de Proteção de Dados Pessoais. Este processo encontra-se sob segredo de justiça.

Igor Khashin, que sempre recusou falar sobre este caso, acabaria por cortar o silêncio esta sexta-feira garantindo, ao jornal Público, que não enviou qualquer informação dos refugiados acolhidos para as autoridades russas e que apenas participou no acolhimento devido "à experiência de trabalho na área de imigração". 

Já das associações denunciadas pela embaixadora e pela AUP como sendo pró-russas, a CNN Portugal conseguiu contactar três. A associação AMIZADE garante que as relações que manteve com organismos próximos de Putin “foram estritamente no âmbito cultural e educativo”, a associação CAPELA - que tem colaborado com a Câmara Municipal de Portimão no acolhimento de refugiados enquanto ligada à fundação Russkiy Mir - reitera “estar fora da política” e a presidente da Associação Apoio ao Imigrante em Aveiro negou ter qualquer colaboração com a Embaixada da Rússia, ainda que o presidente da Câmara Ribau Esteves a tenha identificado como “pró-russa”.

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