Angela Merkel abriu as portas mas a avalanche foi tão grande que se pode ter perdido o controlo, em benefício da AfD. O chanceler Friedrich Merz, contrário às políticas de Merkel, anunciou revisões radicais na política de migração
Berlim — "Quando penso na viagem hoje, não a faria novamente — foi muito perigosa. O que me lembro é que muitas pessoas morreram, afogaram-se... havia demasiadas pessoas naquele barco."
Anas Modamani, que em 2015, ainda adolescente, fugiu da brutal guerra civil na Síria em busca da segurança da Europa, é um dos muitos que acabaram na Alemanha, onde ainda vive e agora tem um passaporte.
Sentado num café sírio em Neukölln, um bairro culturalmente diversificado da capital alemã, Modamani está sorridente e bem-arranjado.
Ele trabalha em tecnologias de informação e, no seu tempo livre, ocupa-se a criar conteúdos para os seus milhares de seguidores no TikTok. No entanto, ele não é estranho à fama nos média. Poucos dias depois de chegar a Berlim, uma selfie que tirou com a então chanceler alemã, Angela Merkel, viralizou como símbolo do ambiente da época.
Esta semana marca uma década desde a decisão histórica de Merkel de abrir as fronteiras do seu país a um grande número de migrantes que chegavam à Europa em busca de refúgio de guerras civis ou dificuldades económicas extremas.
As imagens de pessoas a marchar em massa ao longo das autoestradas, carregando os seus pertences nas costas, estão entre as mais marcantes da Europa moderna. E as repercussões desse momento ainda hoje se fazem sentir na política alemã e europeia.
Centenas de milhares de pessoas pretendiam chegar à Alemanha, um bastião de estabilidade económica e prosperidade. Merkel deu-lhes as boas-vindas, declarando em 31 de agosto de 2015: "Wir schaffen das", ou "Nós conseguiremos". Essa frase tornou-se simbólica de uma abordagem mais ampla conhecida como Willkommenskultur, ou cultura de boas-vindas.
Mas é um legado com o qual a Alemanha ainda luta, com o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) a aproveitar uma onda de sentimento anti-imigração para se tornar o maior grupo de oposição do país.
O chanceler Friedrich Merz, ciente da ameaça da direita e há muito tempo contrário às políticas de Merkel sobre migração — apesar de liderar o mesmo partido CDU —, anunciou revisões radicais na política de migração após assumir o cargo no início deste ano. Elas incluíram o envio de milhares de guardas de fronteira adicionais e a recusa de requerentes de asilo na fronteira, uma medida considerada ilegal por um tribunal de Berlim.
"É evidente que não conseguimos lidar com a situação. É exatamente por isso que estamos a tentar corrigi-la", afirmou Merz sobre a situação em julho.
Quando o regime de Bashar al-Assad entrou em colapso na Síria no final de 2024, milhares de pessoas saíram às ruas para comemorar. Isso proporcionou a Alice Weidel, co-líder da AfD, mais uma oportunidade para pedir que os sírios na Alemanha voltassem para o seu país.
Weidel publicou no X que “qualquer pessoa na Alemanha que comemora a ‘Síria livre’ claramente não tem mais motivos para fugir. Deveria retornar à Síria imediatamente”.
"O melhor momento da minha vida"
O mundo parecia muito diferente quando Modamani chegou à Alemanha, no início de setembro de 2015, aos 17 anos. Ele relata uma árdua viagem de 30 dias que o levou pelo Líbano, Turquia, Grécia, Balcãs, Hungria, Áustria e, finalmente, à Alemanha.
Segundo afirma, deslocou-se constantemente, a pé, com outros migrantes, por campos, estradas e montanhas, além de fazer uma travessia perigosa de barco.
“Eu estava sozinho, sem família, sem amigos. Saí da Síria sozinho por causa da guerra e porque não queria alistar-me no exército... Eu era um rapaz muito pequeno que não sabia muito sobre a vida”, conta à CNN.
Após o famoso anúncio de Merkel a 31 de agosto, milhares de pessoas chegaram ao sul da Alemanha em 5 de setembro e nos dias seguintes — Modamani estava entre elas.
Ele descreve a chegada à cidade de Munique como “o melhor momento da minha vida”. Os moradores locais reuniram-se para aplaudir e distribuir comida e água aos migrantes à medida que chegavam.
A viagem de Modamani, porém, estava prestes a dar outra reviravolta inesperada. Alguns dias depois, ele tirou aquela selfie com Merkel enquanto a chanceler visitava um centro de refugiados no subúrbio de Spandau, em Berlim. As imagens foram manchete em todo o mundo – e transformaram Modamani num símbolo dos refugiados sírios que chegavam em massa à Alemanha.
“Pensei que ela fosse uma atriz ou estrela de cinema”, recorda Modamani.
Embora não se compreendessem, já que Modamani na altura só falava árabe, "ela percebeu que eu queria tirar uma foto com ela e não se importou", diz.
"Esta mulher visitou-nos num centro de refugiados porque sabia que tinha salvado muitas vidas e queria ver como estavam as pessoas que ela deixou entrar no país."
Só em 2015 e 2016, um total impressionante de 1 164 000 pessoas solicitaram asilo pela primeira vez.
De janeiro de 2015 a dezembro de 2024, a Alemanha registou quase 2,7 milhões de pedidos de asilo pela primeira vez, de vários países, de acordo com o seu Gabinete Federal para a Migração e Refugiados (BAMF).
A grande maioria desses pedidos veio de cidadãos da Síria, Afeganistão e Iraque, países assolados por conflitos de longa data. Os sírios representaram mais de um terço dos pedidos nesses dois anos.
Os números caíram após 2016, mas aumentaram drasticamente novamente em 2022, após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.
A Alemanha permaneceu como o país número um da União Europeia em pedidos de asilo na última década.
Entre 2015 e 2024, segundo dados fornecidos pelo Eurostat, o gabinete de estatística da UE, foram apresentados pouco menos de oito milhões (7 984 765) de pedidos em toda a UE. Mais de um terço dos pedidos foram apresentados na Alemanha.
Esses números elevados, pelo menos em parte resultado da Willkommenskultur, contribuíram para um aumento significativo do sentimento anti-imigração na Alemanha, mas também em toda a Europa.
Especialistas alemães explicam à CNN que ninguém, incluindo Merkel, estava preparado para o grande número de pessoas que entraram no país.
"A Alemanha partiu de números realmente baixos, cerca de 40 a 50 mil por ano durante mais de uma década", diz Daniel Thym, professor de direito e diretor do Centro de Investigação em Direito de Imigração e Asilo da Universidade de Konstanz, na Alemanha, à CNN. "Portanto, na Alemanha, ninguém realmente esperava que isso fosse tão grande, tanto em 2015 como nos anos seguintes."
Quando questionado se achava que Merkel havia perdido o controlo da situação, Thym responde: “Acho que sim.”
Hannes Schammann, professor de ciências políticas com foco em política migratória na Universidade de Hildesheim, concordou com essas opiniões, acrescentando que a decisão de Merkel foi baseada no pragmatismo, dado que nenhum outro país europeu estava preparado para ajudar.
“Merkel teve que abrir as portas porque queria estabilizar o sistema comum europeu de asilo... ela não tinha alternativa”, afirma à CNN. Schammann considera que a medida foi motivada mais por questões políticas do que por altruísmo e que se baseou na convicção de Merkel de que a Alemanha estava mais bem equipada do que outros países para lidar com a crise.
Atualmente, Merkel raramente faz aparições públicas, mas num documentário divulgado este mês pela emissora pública alemã ARD, afirma: “Simplesmente percebi que era uma grande tarefa. E não disse que eu poderia fazê-la, disse que nós poderíamos fazê-la, porque também esperava que as pessoas no país (ajudassem).”
Fim da “Willkommenskultur”
Embora milhões de alemães tenham acolhido os migrantes, Thym acredita que a Willkommenskultur terminou no início de 2016, depois de os migrantes terem sido amplamente culpabilizados por uma onda sem precedentes de agressões sexuais em massa a mulheres em Colónia durante as celebrações de Ano Novo.
O incidente aumentou a pressão sobre Merkel e as suas políticas de migração.
E marcou o momento em que a AfD começou a ganhar mais votos locais, uma tendência que se intensificou desde então.
Merkel reconheceu o impacto do seu legado à ARD, dizendo: “O facto de eu ter feito isso polarizou as pessoas, levou-as a aderir à AfD, com o que não concordo, mas elas fizeram-no e, como resultado, a AfD certamente tornou-se mais forte.”
A AfD tornou-se o segundo partido mais popular da Alemanha nas eleições federais no início deste ano, refletindo uma ascensão vertiginosa desde a sua fundação, em 2013.
Uma sondagem de opinião realizada pela ARD em julho de 2015 mostrou que apenas 38% dos inquiridos consideravam que a Alemanha deveria aceitar menos refugiados. Dez anos depois, esse número subiu para 68%, de acordo com os mesmos pesquisadores.
Modamani também sente que o clima na Alemanha mudou desde que ele chegou. “Os políticos estão sempre a aparecer na televisão e a dizer que querem deportar pessoas de volta para a Síria ou o Afeganistão... Acho que a Alemanha mudou muito e, com certeza, eles não querem mais refugiados neste país.”
Thym sugere que as recentes medidas de Merz têm sido mais simbólicas do que qualquer outra coisa. “Por trás da fachada, o sistema continua o mesmo. A lei de asilo também é muito europeia, um governo alemão não pode mudar muito por conta própria.”
Dito isso, as medidas podem estar a ter algum impacto em termos da atratividade da Alemanha, já que sírios e afegãos representaram um total de cerca de 110.000 pedidos em 2024, ante 154.000 em 2023, de acordo com dados do BAMF. Os primeiros seis meses de 2025 mostram uma queda mais dramática, com 29 000 pedidos do mesmo grupo.
Modamani afirma que não recomendaria a ninguém que fizesse a viagem que ele fez.
“Se a situação na Alemanha piorar, não quero ficar aqui”, declara. “Talvez eu esteja à procura de outro país onde as pessoas me acolham e eu me sinta em casa.”
Imagem no topo: a chanceler alemã Angela Merkel posa para uma selfie com Anas Modamani, refugiado da Síria, após visitar um abrigo para migrantes e refugiados em Berlim, Alemanha, a 10 de setembro de 2015. Sean Gallup/Getty Images