Dos gelados ao pão, dos hambúrgueres aos detergentes. Na ida às compras, há produtos a “encolher” ou a perder qualidade (de quem é a culpa?)

17 jul, 14:00
Supermercado (Getty Images)

O mesmo produto, o mesmo preço, menos quantidade. Chama-se reduflação e é uma das tendências das marcas para lidarem com a subida da inflação e consequente perda do poder de compra. Mas não é a única: os consumidores notam também que a qualidade mudou, sendo disso exemplo os detergentes de limpeza com mais água do que antes. São práticas que não desrespeitam a lei se a informação do rótulo estiver consoante o produto, mas que deixam os clientes a fazer contas extra

Há exemplos para todos os gostos e hábitos de consumo. Embalagens familiares de hambúrgueres ou bacalhau congelado com menos unidades do que antes, postas menores nos filetes de atum embalado em vidro, pães mais pequenos, iogurte tipo grego com menos gramas por frasco, tubos de pasta de dentes com tamanho muito inferior à embalagem de cartão. Mas o preço é o mesmo  que os clientes costumavam pagar. Estes exemplos, dados por consumidores ouvidos pela CNN Portugal, são a prova de que a reduflação também já chegou a Portugal.

Mas o que é isso da reduflação? Talvez não conheça a palavra mas percebe bem os seus efeitos. Reparou, depois das últimas idas ao supermercado, que alguns dos produtos que costuma comprar já não lhe rendem o mesmo? Isso é a reduflação: com a inflação a subir, há produtos cujo tamanho está a “encolher”. O preço, esse, é o de sempre.

Esta prática permite que as empresas, neste contexto, consigam manter-se competitivas. É, muitas vezes, justificado pelas mesmas, como uma forma de garantir que o poder de compra dos consumidores se mantém. Mas, ao final do mês, o orçamento familiar não mente: o consumidor paga o mesmo por menos – e pode ter de comprar o produto outra vez para responder às suas reais necessidades.

“A situação de reduflação não é fácil de identificar. Ela exige um olho muito perito por parte do consumidor. Fica a ideia de que está a comprar o produto pelo mesmo preço, mas não está. As empresas tendem a justificar que é para garantir que os consumidores mantenham o seu poder de compra. Mas, quando falamos da alteração da composição, estamos a falar do aumento de preços”, resume Paulo Fonseca, coordenador do departamento jurídico da associação de defesa dos consumidores Deco.

Outra estratégia: redução de qualidade

Sopas embaladas mais diluídas ou detergentes para a casa e roupa que os consumidores asseguram trazer mais água do que antes. Podem integrar-se no conceito de reduflação? Não. São já um outro fenómeno: a inflação pela redução da qualidade do produto. “Isto, para nós, já nos parece que há uma violação dos direitos dos consumidores. Há uma alteração que reduziu a qualidade dos produtos”, considera Paulo Fonseca, da Deco.

Mas, uma vez mais, a dificuldade está em comprovar. Tanto a reduflação como a inflação pela redução da qualidade do produto não são práticas ilegais. Desde que a informação sobre as características do produto corresponda à realidade.

Ou seja, ao contrário do que acontece em países como o Brasil, as marcas em Portugal não são obrigadas a comunicar nos rótulos que têm um novo tamanho ou uma nova fórmula. Se um pacote de açúcar, que os consumidores tendem a associar instintivamente a um quilo, passar a 800 gramas, basta a embalagem tenha esta última referência no rótulo. Mas haverá quem continue a comprá-lo achando ter um quilo, pelo hábito.

Um dos consumidores ouvidos pela CNN diz ter notado que os enlatados trazem mais líquido de conservação dos alimentos e menos leguminosas, por exemplo. O peso total da lata é o mesmo de sempre mas com menos produto útil. Neste caso, é preciso estar atento ao peso líquido. “Se houver mais líquido e a informação se mantiver a mesma, estamos no campo das práticas desleais”, lembra Paulo Fonseca. Mas se a informação do rótulo tiver sido atualizada, não há nada que se possa fazer – além de demonstrar o descontentamento junto da marca.

A Deco enviou uma carta ao Governo a defender que, quando existem alterações, as embalagens devem ter a informação sobre o que havia antes e o que há agora, permitindo que os consumidores estejam mais conscientes do que compram. “Essa informação pode mudar a escolha de compra. O consumidor precisa de todas as ferramentas, sobretudo numa altura em que cada cêntimo conta”, insiste Paulo Fonseca.

Um verão menos gelado

À Deco, têm chegado poucas denúncias de reduflação. Questionada pela CNN Portugal, a ASAE não respondeu sobre se recebeu queixas nesta matéria. E um dos motivos para este cenário é simples: pode ser uma verdadeira dor de cabeça identificar uma situação de reduflação.

Em época de calor, um dos exemplos citados de produtos que “encolheram” são os gelados Magnum. O tradicional Magnum Branco tem 120 mililitros. As novas versões destes gelados, apresentadas este verão, como o Gold Caramel Billionaire, têm 85 mililitros. Mas o preço é praticamente o mesmo.

A CNN Portugal questionou a Olá mas não obteve qualquer resposta. O caso destes gelados pode, no entanto, não ser enquadrado na classificação de reduflação, por se tratarem de produtos diferentes. Ainda assim, para alguns dos consumidores, fica a ideia de que os gelados “encolheram”, tornando esse prazer mais caro.

Relação de (des)confiança

Pedro Tavares, especialista na área da reputação de marcas, não duvida que a relação de confiança do consumidor com a marca pode ser posta em causa com uma situação de reduflação. “A partir do momento em que tenho uma determinada perceção, se ela é alterada, sinto-me defraudado na experiência”, afirma. O impacto até pode variar de setor para setor, diz, mas o setor alimentar é um “dos mais suscetíveis às expectativas”.

No setor agroalimentar reconhece-se a situação sem querer alimentar o assunto. “Não falo das opções individuais das empresas. As empresas estão a tentar adaptar-se a este período de inflação”, reage Pedro Queiróz, diretor-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA), em conversa com a CNN Portugal.

Queiróz reconhece que a reduflação “é uma tendência entre muitas” perante um cenário de escalada da inflação. Mas insiste noutra ideia: a de que, neste contexto, é preciso “aumentar o leque de opções para que cada consumidor possa adaptar-se”, disponibilizando opções mais baratas e formatos que permitam reduzir o desperdício alimentar.

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