Estudo revela que a maioria dos adolescentes do sexo masculino é exposta nas redes sociais a conteúdos sobre "masculinidade", corpo e género, com impacto na autoestima e nas emoções. Especialistas explicam como os pais podem intervir
Se o seu filho adolescente está online, é quase certo que esteja a ver conteúdos que promovem a masculinidade e sugerem ideias preocupantes sobre as raparigas, de acordo com uma investigação.
A maioria dos rapazes - 73% - vê regularmente conteúdos sobre "masculinidade digital", que incluem publicações sobre lutas, ganho de massa muscular e como ganhar dinheiro, segundo um inquérito da Common Sense Media.
Os rapazes com maior exposição a este tipo de conteúdos têm autoestima mais baixa e sentem-se mais sozinhos, aponta o estudo realizado em julho junto de mais de mil rapazes entre os 11 e os 17 anos que vivem nos Estados Unidos. Estes adolescentes também têm maior probabilidade de esconder as emoções e de acreditar que não devem expressar sentimentos, como chorar ou demonstrar medo.
Curiosamente, os rapazes não procuram ativamente este tipo de conteúdos, explica Michael Robb, autor principal do estudo e diretor de investigação da Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos sediada em São Francisco que ajuda pais e professores a desenvolver o pensamento crítico nas crianças.
"Apenas um pequeno número disse que efetivamente procurava este tipo de conteúdos", diz Robb. "Sessenta e oito por cento disseram que o conteúdo começou simplesmente a aparecer nos seus feeds, sem terem procurado por ele."
Isso acontece provavelmente porque os algoritmos aprenderam que os adolescentes do sexo masculino tendem a ser recetivos a este tipo de publicações, acrescenta.
Quase todos os rapazes - 91% - veem conteúdo sobre imagem corporal ou aparência, como vestir-se de determinada forma ou ter uma pele perfeita, segundo o estudo. Os que estão mais expostos a este tipo de publicações têm quatro vezes mais probabilidade de afirmar que as redes sociais os fazem sentir que devem mudar a sua aparência.
E a maioria - 69% - vê regularmente conteúdos que promovem papéis de género de forma problemática, como publicações que sugerem que as raparigas preferem namorar com um certo tipo de rapaz ou que usam a aparência para alcançar os seus objetivos, segundo o inquérito.
Para mim, os resultados são especialmente preocupantes, porque a minha investigação sugere que, quando mensagens negativas sobre mulheres e raparigas se tornam normalizadas online, isso pode conduzir a violência fora do ambiente digital.
O uso das redes sociais por rapazes tem sido "pouco estudado", aponta Robb. Aqui, estamos a documentar de que forma os algoritmos que moldam a experiência digital das crianças influenciam diretamente a formação da sua identidade durante este período crucial da adolescência, que é uma fase de construção da identidade.
Robb reconhece, no entanto, que o estudo não conseguiu provar que o uso das redes sociais tenha causado efeitos específicos. Acrescenta ainda que os resultados podem subestimar até que ponto os rapazes adotaram crenças ligadas à masculinidade, já que os que as possuem podem não ter admitido no inquérito que enfrentam dificuldades emocionais ou se sentem vulneráveis.
Felizmente, os pais podem ajudar os filhos adolescentes a processar de forma saudável o que veem nas redes sociais e a contrariar os efeitos negativos.
Fale sobre "masculinidade digital"
Em primeiro lugar, parta do princípio de que os seus filhos serão expostos a este tipo de conteúdos, diz Melissa Greenberg, psicóloga clínica no Princeton Psychotherapy Center, que não participou no estudo. "Mesmo que monitorizemos e limitemos o que os nossos filhos veem em casa, eles serão expostos a conteúdos que desconhecemos noutros contextos e através de amigos e colegas", explica por email.
Por isso, fale com os adolescentes sobre o que estão a ver online. "Um pequeno segredo é que as crianças ficam bastante entusiasmadas em falar sobre o seu uso das redes", afirma Robb.
Se estas conversas parecerem desconfortáveis, uma boa estratégia é tê-las no carro, sugere Justine Carino, psicoterapeuta em Westchester, Nova Iorque, que trata jovens e não participou no estudo. "Estar lado a lado é menos intimidante do que o contacto direto de olhos nos olhos, e o facto de estarem num espaço confinado ajuda os adolescentes a sentirem-se mais seguros para se abrirem", diz Carino à CNN por email.
Ensine os adolescentes a questionar o que veem
Explique por que devemos questionar o que vemos nas redes sociais, aponta Greenberg.
"Quando vemos algo online, especialmente quando vemos as mesmas mensagens repetidamente ou publicações com muitos ‘likes’, podemos, sem nos darmos conta, começar a acreditar nelas", afirma.
Se um jovem parecer ter aceitado algumas dessas mensagens problemáticas, não basta dizer que estão erradas. "Podemos ter uma reação instintiva a essas mensagens e sentir vontade de as rejeitar de imediato", diz Greenberg. "Mas isso pode ter o efeito contrário, pois pode ensinar-lhe que os pais ‘não compreendem’ ou que não podem falar sobre as suas dúvidas relativamente a essas ideias."
Em vez disso, reconheça que os conteúdos nas redes podem ser muito convincentes, especialmente quando são partilhados por pessoas de quem gostamos. Dê um exemplo pessoal e questione o tema em conjunto, dizendo algo como "desde que era criança, vejo programas e filmes onde os rapazes são ridicularizados quando choram ou mostram emoção", afirma Greenberg. "Mas porque é que isso deve ser assim? É realmente verdade que as emoções nos tornam fracos? Podemos ver isto de outra perspetiva?"
Com tanta desinformação nas redes sociais, estas conversas ajudam a desenvolver competências essenciais que permitem aos adolescentes decidir se devem acreditar no que veem e ouvem, incluindo notícias falsas.
Os pais devem também "enfatizar o quanto é seguro" para os filhos falar com eles sobre estes assuntos (e sobre quaisquer outros), sublinha Carino. E seja sincero quando o disser.
Promova bons exemplos e comunidades saudáveis
Uma das razões pelas quais os rapazes consomem este tipo de conteúdos é o facto de "procurarem ligação, inspiração ou orientação, porque são importantes para o seu desenvolvimento nesta fase", afirma Robb. "São necessidades fundamentais para o desenvolvimento.”
Os pais podem ajudar a satisfazer essas necessidades de forma saudável fora do mundo digital.
O estudo descobriu que os jovens que tinham pelo menos uma pessoa a quem recorrer offline apresentavam melhores indicadores de saúde mental, explica Robb. Sugeriu ainda incentivar modelos positivos para os rapazes - como pais, familiares, professores, treinadores ou líderes de escuteiros.
"Os rapazes precisam de ver e ouvir que os homens à sua volta podem expressar uma ampla gama de emoções e que há muitas maneiras de ser homem, e que não devem ser tão rígidos sobre como os rapazes e os homens devem comportar-se ou expressar sentimentos", afirma.
É também importante que os rapazes façam parte de comunidades físicas, através de atividades como teatro ou desporto, acrescenta Robb. Seja criativo. Por exemplo, se um rapaz gosta de jogos, "isso não precisa de ser uma atividade solitária", diz. "Existem clubes locais de gaming, equipas de eSports, aulas de programação e equipas de robótica - muitas opções que combinam interesses com interação presencial."
Sim, o estudo sugere que a maioria dos rapazes é exposta a conteúdos sobre masculinidade, ideias negativas sobre género e imagem corporal - e que aqueles que consomem mais este tipo de conteúdos têm piores resultados em termos de saúde mental. No entanto, os pais podem usar esta oportunidade para conversar com os filhos, ensiná-los a questionar o que veem online e garantir que têm modelos positivos e atividades saudáveis longe do ecrã.
As redes sociais podem expor os adolescentes a conteúdos potencialmente prejudiciais, mas é possível contrariar isso com melhores experiências offline.
Kara Alaimo é professora de Comunicação na Fairleigh Dickinson University. O seu livro "Over the Influence: Why Social Media Is Toxic for Women and Girls - And How We Can Take It Back" foi publicado em 2024 pela Alcove Press.