Opinião. Quem será o primeiro a abandonar o Twitter de Elon Musk?

Kara Alaimo
26 abr, 11:22
Página de Elon Musk no Twitter

Se Musk fizer o que prometeu, suspeito que destruirá a rede social

Esta segunda-feira, a história que o mundo dos negócios estava ansiosamente a acompanhar chegou a um clímax dramático: o Twitter deu sinal verde à sua venda a Elon Musk, num acordo de 44 mil milhões de dólares (41 mil milhões de euros), ou 54,2 dólares por ação.

Se Musk cumprir o que propôs, a venda pode ser a sentença de morte para a rede social. Mas, na melhor das hipóteses, também pode motivar a criação de outras redes sociais que sejam lugares mais seguros e saudáveis ​​para todos nós.

Musk tem defendido que o Twitter deve ser uma plataforma quase sem restrições ao discurso publicado. Numa entrevista na conferência TED no início deste mês, Musk disse que queria manter o máximo de discurso na plataforma, desde que seja legal, e que não queria expulsar os utilizadores – embora, paradoxalmente, também tenha dito que queria reprimir mensagens de “spam” e as contas falsas, conhecidas como “bots”, que, embora sejam irritantes e potencialmente perigosos, são legais.

No mês passado, ele twittou que "a liberdade de expressão é essencial para uma democracia em funcionamento" e perguntou aos utilizadores se eles "acreditam que o Twitter adere rigorosamente a esse princípio".

Prevejo que permitir formas prejudiciais de “liberdade de expressão” - como misoginia e ódio - no Twitter terá o efeito de silenciar muita gente e será desastroso para a rede social. Isso porque utilizadores conscienciosos não vão continuar a usar voluntariamente uma plataforma na qual são bombardeados com abusos.

As primeiras pessoas a fugir serão provavelmente aquelas que estão a receber o pior de tudo: mulheres e pessoas de cor. Um estudo de 2020 da The Economist Intelligence Unit concluiu que 38% das mulheres em todo o mundo já passaram pela experiência de ameaças pessoais online, como “doxxing” [tornar públicos dados privados de pessoas], “hacking” [intrusão], perseguição, desinformação e difamação, e que 85% das mulheres testemunharam-no. De acordo com as Nações Unidas, pelo menos três quartos das vítimas de ódio online, em muitos países, são membros de grupos minoritários.

De acordo com uma sondagem da Pew, embora as mulheres sejam muito mais propensas do que os homens a usar o Facebook e o Instagram, elas são menos propensas a usar o Twitter e o Reddit, que se tornaram famosos por trollagem [assédio e perseguição online]. (A apresentadora da Bloomberg Technology, Emily Chang, escreve no seu livro "Brotopia: Breaking Up the Boys' Club of Silicon Valley" que "o ódio online é um problema muito maior e mais visível no Reddit e no Twitter do que no Facebook e no Instagram. Como a minha conta de Facebook é privada e eu tenho que aceitar amigos antes deles puderem interagir comigo, eu quase nunca vejo comentários ofensivos.")

Isso diz-me que as mulheres já evitam as redes sociais nas quais pensam que serão alvo de abusos - e se o abuso piorar, isso terá um efeito profundo no tipo de discussão que acontece na plataforma.

Como a escritora Lindy West apontou no Guardian, "a trollagem na Internet pode parecer um problema que afeta apenas um certo subconjunto de pessoas, mas isso só é verdade se você acredita que viver num mundo desprovido de vozes diversas - o discurso público moldado principalmente por homens brancos, heterossexuais e fisicamente aptos - não afetaria profundamente a sua vida."

É fácil prever o que aconteceria a seguir. Se o Twitter se tornar um lugar que não é inclusivo e se tornar popular por espalhar conteúdo questionável e odioso, as figuras públicas não vão querer ser associadas a ele e vão parar de usá-lo também.

Apenas 22% dos adultos americanos usam o Twitter, de acordo com uma pesquisa do instituto Pew de 2019, mas a plataforma exerce grande influência no nosso discurso público, porque muitos políticos, líderes empresariais, celebridades e outras pessoas de alto perfil usam-no para partilhar as suas mensagens e a comunicação social, muitas vezes sem parar para respirar, relata o que eles publicam. Mas os líderes do pensamento mainstream não vão querer os danos à reputação que viriam de estarem associados a uma plataforma de discurso extremista. Como disse antes, isso ajuda a explicar por que razão a rede social do ex-presidente Donald Trump, a Truth Social, não foi um grande sucesso.

Muitas pessoas já estão a usar o próprio Twitter para publicar informações para os que planeiam deixar a plataforma, e convocatórias (com diferentes níveis de seriedade) para recorrer a outras plataformas sociais.

Um resultado positivo que podemos esperar da propriedade de Musk é que isso pode catalisar a criação de redes sociais mais cívicas. Como o ativista da internet Eli Pariser twittou na terça-feira: "Estou só a dizer... nós não precisamos de tornar a nossa infraestrutura de comunicações um brinquedo para bilionários inconstantes. Poderíamos construir plataformas sociais de serviço público que Elon nunca compraria. E eu acho que vamos."

Estou a fazer figas para que Pariser – ou alguém com uma visão de como gerir uma rede social com mais responsabilidade do que Musk – siga avante.

Se Musk fizer o que prometeu, suspeito que destruirá a plataforma. Mas esperemos que tê-lo ao comando motive a criação de novas redes sociais que realmente respondam ao interesse público. Se isso acontecer, o resultado será devastador para Musk, mas uma vitória para nós, utilizadores, a longo prazo.

 

Kara Alaimo é professora associada da Lawrence Herbert School of Communication da Hofstra University e escreve sobre questões que afetam as mulheres e as redes sociais. Foi porta-voz de assuntos internacionais no Departamento do Tesouro durante a administração Obama. Siga-a no Twitter @karaalaimo. As opiniões expressas neste comentário são exclusivamente da autora.

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