"Se não estás nas redes sociais, não existes". Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu (ou disse) esta frase. Mas enquanto o mundo desliza o dedo no ecrã, há quem escolha ficar de fora. Não por moda, nem por vício, mas por convicção. Estes jovens vivem, desde sempre, sem redes sociais. Mas como é que se vive desta forma numa sociedade onde estar sempre disponível, sempre visível e sempre atualizado é quase uma exigência?
No meio da histeria digital, entre notificações que piscam, likes que sobem, algoritmos que adivinham o que ainda nem pensámos, há quem desligue. Ou neste caso, nunca se tenha ligado. Literalmente. São jovens na casa dos 20 que vivem sem Instagram, TikTok ou Twitter. Não porque tenham sido forçados, nem por imposição dos pais, nem por medo da tecnologia. Mas por escolha própria.
Num tempo em que viver online parece a única forma de existir, há quem diga “não” e continue a existir mesmo assim. São poucos. Quase invisíveis. Não aparecem no "para ti", não publicam "stories", não escrevem “o que estão a sentir”. Mas têm vidas cheias, razões profundas e garantem: há vida, e talvez até mais vida, fora do ecrã.
Em pleno 2025, viver sem redes sociais é, em muitos círculos, quase um ato radical. Mas para Alexandre Bento, de 25 anos, é simplesmente um estilo de vida. Um que privilegia o foco, o contacto real, o tempo útil e a liberdade de estar ausente sem estar isolado.
“Foi sempre uma decisão minha. Prefiro focar-me em mim e nos meus interesses do que estar preocupado com o que anda a acontecer na vida dos outros”, explica o treinador de futebol feminino.
A geração mais conectada da história
Os jovens de hoje cresceram com um ecrã na palma da mão e o smartphone tornou-se quase como uma extensão do próprio corpo. São a geração Z. Segundo dados do Eurostat (2023), em Portugal, mais de 95% dos jovens entre os 16 e os 29 anos usam a internet diariamente e 87% têm perfis ativos em pelo menos uma rede social.
“As minhas jogadoras estão sempre agarradas ao telemóvel. É antes do treino, é depois do treino, é no carro, é à espera do carro. Vejo que já não se brinca na rua, nos intervalos. E acho que as crianças que não têm telemóveis acabam por ser isoladas, não por vontade própria, mas porque os outros não sabem lidar com a diferença”, considera Alexandre, que é treinador de futebol.
André Ventura tem 29 anos. Apesar de “reconhecer muito potencial” nas redes sociais, nunca criou conta em nenhuma.
“Sinto que a maior parte das pessoas usa as redes sociais de uma forma com a qual eu não me identifico”, explica o professor do ensino primário.
André assume que não se sente confortável em expor a sua vida. Nunca cedeu à pressão de “estar onde os outros estão” e, mesmo sem condenar quem o faz, nunca viu motivo suficiente para aderir. “O mundo não pára por não termos redes sociais. Continuamos a viver, a saber das coisas, a ter relações. Simplesmente fazemos isso de outra forma", afirma.
Os jovens que escolhem viver offline são poucos. Uma minoria, admite a psicóloga clínica Raquel Raimundo. Mas o facto de serem poucos não os torna diferentes.
“Estes jovens podem simplesmente ter outros interesses que se sobrepõem. Podem ter crescido num ambiente mais equilibrado em relação à tecnologia, com uma família com hábitos conscientes, um grupo de amigos que valoriza a presença real. Ou podem ter um perfil mais introvertido, e isso não é, de todo, um defeito. São características de personalidade”, explica.
Segundo a psicóloga, é um erro comum pensar que a ausência das redes sociais corresponde a uma ausência de sociabilidade. “As redes sociais são uma forma de interação social, mas não são a única. Há quem vá buscar mais energia ao silêncio, que prefira a conversa direta, o olhar frente a frente. E isso também é profundamente humano”.
A liberdade de não saber tudo
Viver offline implica fazer escolhas sobre como comunicar e manter relações. Bruno Mourão, de 22 anos, considera que não ter redes sociais o faz valorizar mais as interações presenciais.
"Ao não te conectares de forma digital, acabas por procurar mais o contacto cara a cara. Para mim isso é mais saudável. Nas redes sociais é muito mais comum conhecermos ou interagirmos com pessoas novas, seja através de seguir, dar um like, ou de responder a uma história e isso faz com que seja um pouco mais estranho haver um primeiro contacto cara a cara. Isso para mim não existe", explica o técnico de tráfego e assistência em escala.
No entanto, André Ventura reconhece que não ter redes sociais pode ter um custo emocional: o afastamento de amigos, a perda de ligações.
“Claro que às vezes fico sem saber onde andam pessoas do meu passado, pessoas que não vejo há muito tempo. Às vezes até tenho curiosidade e gostava de saber como é que estão, o que é que andam a fazer”, admite. “Mas não abdico de viver o presente só para isso, prefiro encontrar as pessoas de uma forma mais natural.”
Nos últimos tempos, tem feito um esforço para recuperar esses laços à maneira antiga: chamadas de voz, mensagens inesperadas, encontros marcados.
“Ligo-lhes e digo ‘olha, não falamos há muito tempo, como estás?’ e vamos falando, tudo de uma forma muito natural. Quando me ligam ou mandam mensagem é porque realmente querem falar comigo. As pessoas que gostam de mim sabem onde me encontrar e quando eu quero saber de alguém, faço o mesmo”, acrescenta.
"Tiras mais proveito da vida"
Inês Duarte tem 20 anos e é estudante de engenharia. Sente que o seu desempenho académico é beneficiado por não ter redes sociais. “Não me distraio tanto, nunca tive de me preocupar em apagar aplicações para estudar, por exemplo”, justifica.
A jovem dá muito valor a "estar presente no mundo real". Nos tempos livres, lê, pinta e gosta de viajar.
“O tempo que eu vejo os outros a gastar no TikTok parece-me tempo roubado a tudo isso. Por isso, acho que ganho mais do que aquilo que perco. Quando estou numa conversa, estou lá mesmo. Quando pinto, estou totalmente no que estou a fazer. Tiras mais proveito da vida e acho que isso hoje em dia não é assim tão comum”, considera.
A ciência confirma estas perceções. Estudos recentes publicados na Journal of Applied Psychology apontam para os impactos negativos das redes sociais na saúde mental dos jovens, nomeadamente no aumento de sintomas de ansiedade, depressão, insónia e baixa autoestima. Além disso, as pausas frequentes para verificar redes sociais estão associadas a maior fadiga mental e a um menor desempenho cognitivo.
Também Alexandre se sente mais presente e produtivo longe de uma exposição às redes sociais. “Sinto que consigo tirar mais proveito e sou mais rápido a fazer as coisas do que os meus amigos que se distraem constantemente com o Instagram ou o TikTok. Não estou sempre a ser interrompido por notificações inúteis. Não perco tempo com coisas que não me acrescentam. Foco-me mais em mim e nos meus objetivos”, nota.
A ausência, neste caso, não é vazio. É espaço. Espaço para a produtividade, para relações mais profundas, para mais introspeção e menos comparação, referem os jovens.
"Existe uma comparação constante com os outros. Não podem tirar fotos com o mesmo outfit que meteram na publicação anterior. Têm de parecer sempre felizes. Sentem necessidade de validação. Isto acaba por ter um efeito muito negativo”, considera Bruno.
Em vez disto, os jovens offline querem autenticidade e mais privacidade.
“Quando vejo os meus amigos a tirarem fotos para publicar, sinto que existe ali qualquer coisa de artificial. Sinto que ter sempre essa preocupação constante de ‘qual é o melhor ângulo’ e coisas do género faz com que não vivam tanto o momento, que estejam ali, mas que não estejam realmente. Claro que eu tiro fotos na mesma, mas não tenho o hábito de tirar o telemóvel do bolso e interromper o momento só para isso”, argumenta André.
O professor do ensino primário considera que as redes sociais muitas vezes “servem mais para alimentar vaidades do que para discutir o que realmente importa”.
“Às vezes penso que até gostaria de ter um canal no YouTube, mas para algo que fosse útil, como explicar o que é o IRS ou a Segurança Social. Isso seria um bom uso das redes, na minha opinião”, justifica.
A pressão existe, mas não pega
Quando alguém diz, com naturalidade, "não tenho Instagram", é comum surgir a pergunta em tom de surpresa: "Mas… porquê?". Em alguns contextos, são vistos como exóticos. Noutros, como retrógrados. E, em muitos casos, como invisíveis. Afinal, no mundo atual, não estar online é quase como não existir. Apesar de não fazerem do seu estilo de vida uma bandeira, os jovens offline sabem que estão a remar contra a corrente.
“Claro que há uma sensação de estar de fora, às vezes falam de coisas que não sei do que se trata. Mas se quiserem que eu saiba, explicam. Mostram-me no telemóvel deles. Claro que antes dizem ‘só me dás trabalho’", conta Alexandre, entre risos.
Viver sem redes sociais não significa viver isolado, mas pode, por vezes, implicar uma sensação de exclusão, ou pelo menos de diferença, explica a psicológa Raquel Raimundo. A pressão para “estar” e o FOMO (fear of missing out, medo de ficar de fora, em português) é real, sobretudo entre grupos de pares onde o digital é a norma.
Não estão a par dos memes do momento, das fotos dos jantares, das sondagens partilhadas em stories, mas o que ganham é mais valioso, acreditam.
“Há sempre piadas, há sempre comentários, mas não me sinto pressionado porque estou convicto da minha decisão. As piadas só têm efeito se permitirmos. Se formos sociáveis e bem resolvidos em relação ao assunto, até acho que dá carisma, é uma coisa fora da regra”, afirma Bruno.
O técnico de tráfego e assistência em escala considera que a maior parte das pessoas pensa que por não ter redes sociais “estamos desligados do mundo” e “não sabemos nada do que se está a passar”. Por esta razão, deixa-lhes um desafio: "Se fizessem este exercício, por algumas horas que fosse, percebiam que o mundo não pára, ganhavam essa consciência”.
Inês refere que tem uma vida social ativa, vai a concertos, organiza jantares e tenta ser o máximo presente na vida dos familiares e amigos. Não ter redes sociais permitiu-lhe desenvolver a sua comunicação, sem filtros nem emojis. O telefone, para ela, é simplesmente um instrumento, não um vício.
“É como se vivesse com menos ruído. Não tenho 50 estímulos por minuto. Posso concentrar-me mais facilmente. E as minhas inseguranças não estão constantemente a ser alimentadas, não me estou sempre a comparar com os outros, por exemplo. Eu vejo a pressão que as minhas amigas sentem para mostrar felicidade, produtividade, beleza, a toda a hora”, argumenta.
Quando lhe perguntam porquê, porque não está online “em lado nenhum”, costuma sorrir e responder: “Estou aqui, não estou?”
"Não digo que nunca vá criar uma conta"
André não se sente pressionado a voltar atrás na sua decisão, mas admite que há desafios, sobretudo por trabalhar na área do ensino, onde as redes sociais estão cada vez mais presentes.
“As escolas usam as redes sociais para comunicar, os alunos têm redes sociais cada vez mais cedo... Eu tento manter-me informado sobre o que se passa online para poder acompanhá-los, alertar para certos riscos, e isso também faz parte do meu papel enquanto professor", afirma.
Apesar das dificuldades pontuais, sente que tem conseguido contornar os obstáculos. “Até agora, tenho conseguido manter-me assim e espero continuar, gosto do que ganho com isso”.
O treinador de futebol concorda que há uma área onde as redes sociais podem fazer a diferença: o trabalho. No universo competitivo do desporto, onde a visibilidade pode significar convites, parcerias e notoriedade, essa ausência pode, admite, ser uma limitação.
“Sinto que na minha área posso perder visibilidade por não estar lá. Se um dia sentir que isso me está a prejudicar ou me pode dar oportunidades, talvez pense nisso. Não fecho portas. Se for mesmo necessário, posso criar uma conta. Mas seria exclusivamente por razões profissionais", explica Alexandre.
Bruno Mourão também não exclui totalmente a possibilidade de, no futuro, criar uma conta online pelo mesmo motivo.
“Se algum dia sentir que é importante para a minha carreira, posso considerar. Mas se o fizesse, seria uma coisa muito restrita, como se fosse a minha lista de contactos. Não me faz sentido seguir 200 pessoas que não conheço de lado nenhum”, argumenta.
Estes jovens não rejeitam, portanto, o digital, apenas o seu domínio absoluto sobre a vida quotidiana. Estão desconectados? Talvez, mas mais presentes do que nunca, garantem.
"Há uma pressão gigante para estar sempre online. Para responder, reagir, mostrar. Ir contra essa corrente exige força e quando é feito de forma saudável, merece ser olhado com curiosidade, não com estranheza", remata Inês.