Proibição de redes sociais aos menores de 16 só funciona se houver uma "regulação interna". "A lei, por si só, não vai resolver o problema"

13 fev, 08:00
Redes Sociais

Para a psicóloga Ivone Patrão, a regulamentação externa não é suficiente, defendendo uma "coprodução" entre o Estado e as famílias, através da supervisão parental e da educação para a autorregulação

O Parlamento votou e aprovou o diploma que vai legislar a proibição de acesso livre às redes sociais para menores de 16 anos e para a psicóloga Ivone Patrão, especialista em ciberpsicologia, professora e investigadora no ISPA, e coordenadora do estudo Ciber Young Security, "a ciência estava a guiar-nos para este caminho".

"A ciência diz-nos que é importante haver esta regulação externa. O que a investigação nos diz é que o consumo de redes sociais e o jogo online, que também tem muita sociabilidade digital sem supervisão parental, tem de facto danos na saúde mental das nossas crianças e dos nossos jovens", explica à CNN Portugal, dando o seu parecer "positivo" à decisão.

Com mais de 15 anos de experiência na área da ciberdependência e dos ciber-riscos, Ivone Patrão diz que as crianças são muito mais vulneráveis a este tipo de fenómenos, porque "o desenvolvimento cerebral ainda não ocorreu de forma a existir uma gestão eficaz das emoções, dos impulsos e no comportamento, nestas idades tão precoces". No entanto, a especialista, que já trabalhou com crianças, jovens, adultos e até com famílias inteiras sobre esta dependência, considera que "não é esta regulamentação externa, por si só, que vai resolver o problema".

"O problema é que a tecnologia e o ecrã vieram e nós, os adultos, não tivemos esta realidade na nossa adolescência como hoje têm as nossas crianças. Somos modelos educativos e aceitámos a tecnologia, porque já tínhamos uma regulação interna mais treinada. Sabemos que temos de dormir, que temos horas para as refeições, que temos de ir trabalhar, em suma, que temos de parar. Ora, as crianças e os jovens não têm isto feito e o ecrã é muito apetitoso e aliciante", esclarece.

A psicóloga alerta que a literatura científica tem vindo a demonstrar que "cada vez há crianças mais novas com tablets, telemóveis, acesso a redes sociais e ao jogo online sem a tal supervisão" e para a necessidade de existir uma "regulação interna" em cada agregado familiar. Ivone Patrão acredita que "cada pai, avó, mãe, tio tem de passar este modelo educativo para que a criança ou adolescente saiba fazer esta regulação do uso do ecrã".

A especialista apelida esta ideia de simbiose construtiva entre regulação externa e interna de "coconstrução ou coprodução" entre as regras do Estado e os pais, os legisladores de casa.

Ivone Patrão alerta que "não é esta regulamentação externa, por si só, que vai resolver o problema" da relação dos adolescentes com os ecrãs e com as redes sociais

O telemóvel atual, sublinha Ivone Patrão, "nem sequer é um telemóvel, é um minicomputador cheio de algoritmos". E é facto que o algoritmo tem uma função: dar ao utilizador o que mais quer ver em troca de uma atenção que equivale a lucro, quanto mais tempo de ecrã mais a empresa por detrás da rede social fatura.

O risco não desaparece com a proibição

Mas o acesso dos menores de 16 anos às redes sociais não desaparece com a proibição. A psicóloga lembra que vai sempre existir algum modo de contornar a regulamentação e confundir a verificação de idade ou, do ponto de vista comportamental, vai haver um telemóvel de um irmão mais velho ou de um primo. "Esta regulamentação vai barrar uma percentagem; se vai barrar todos os acessos de menores? Não", antecipa, lembrando ainda que um outro lado deste diploma: "Há pessoas [adultos] que ainda não sabem bem os riscos do uso da tecnologia e face a uma regulamentação externa consegue-se que o seu comportamento seja também regulado e há pais que vão pensar isto: se é uma regulamentação que está consubstanciada a bem da saúde dos meus filhos, então vou estar atento, vou cumprir e vou pôr mãos à obra."

Quanto à escolha das idades tidas em conta para esta proibição, a psicóloga explica que estas são "idades frágeis". "O córtex pré-frontal que controla aqueles impulsos ainda não está completamente formado e acabam por pensar e agir de uma forma mais impulsiva, muito mais colada às emoções face a um perigo online que está à distância de um clique", diz. E isto torna-se um perigo maior porque "se somos mais impulsivos, vamos, clicamos no link, respondemos logo e este espaço para pensar e do 'deixa cá ver o que é isto' não existe".

Ivone Patrão antevê que depois do projeto de lei entrar em vigor vai existir "um tempo de adaptação" e depois os jovens "vão ganhar". "Fizemos um estudo, no ano letivo passado, em que acompanhámos uma escola que implementou a restrição de telemóveis, antes do Governo a implementar, e foi muito interessante, porque a primeira vantagem que os meninos, professores e pais, ou seja, a comunidade escolar toda apontaram foi o aumento da socialização", partilha a investigadora. "Foi reconhecido por todos no fim do ano e perguntámos - querem continuar com a medida? A resposta foi sim, queremos continuar com a medida."

Projeto de lei visa afastar os jovens de redes sociais como TikTok, Instagram e Facebook (Getty)

O que perdem as crianças com a proibição?

Ivone Patrão conta, porém, que, apesar de os alunos terem reconhecido "vantagens" com a diminuição dos tempos de ecrã, começaram a surgir outros problemas.  "Depois é interessante que viram uma desvantagem: aumentaram os conflitos", conta Ivone Patrão, esclarecendo que não foram casos de bullying, mas sim pequenas zangas motivadas por alguém ter agarrado no casaco errado, ter feito uma rasteira ou passar à frente na fila da cantina. "Enquanto psicóloga, vejo-o como uma vantagem, porque eles não estavam em comunicação e era por isso que não estavam a ter conflito", refere.

Para a especialista, estes "são conflitos naturais" e "é na adolescência que se aprende esta construção de socialização", a estar em grupo, a ouvir o outro, a ter empatia ou a respeitar opiniões. A professora do ISPA garante que esta "é uma das tarefas da adolescência: precisamos de aprender esta construção da socialização".

Quanto ao lado prejudicial deste tipo de regulamentação, Ivone Patrão garante que até agora não encontrou "nenhum estudo que dissesse que não precisamos do toque, do contacto ocular ou do cheiro". "Até experimentámos na covid, estávamos todos isolados e a falar online, mas não resultou, pois não?", questiona.

"Um bebé quando nasce não nasce a pedir um telemóvel nem a precisar de um. Precisa de uma coisa que precisamos para o resto da vida que é do vínculo, a relação. Na adolescência, não podemos esquecer isto: a relação é humana. O ecrã veio para ser uma ferramenta de ajuda, não para substituir a relação humana. Portanto, a sua pergunta é muito válida: o que é que os jovens vão perder com a proibição? As pessoas estão cá todas, estamos cá todos e ninguém vai desaparecer", descomplica, entre risos, a psicóloga, lembrando que "o ecrã é um facilitador comunicacional e não um substituto". "Este é que é o ponto", argumenta.

Nos tempos subsequentes à entrada em vigor da regulamentação, a especialista acredita que será "importante avaliar o efeito que esta medida vai ter nos jovens, sobretudo, naqueles que terão de fazer ajustes na gestão das redes que já tinham". Ivone Patrão antecipa que, em alguns casos, possa existir um sentimento de "perda ou luto". Nestes casos, será "importante haver respostas de proximidade, em cada comunidade, que promovam uma ajuda eficaz às famílias na promoção da autorregulação das emoções e comportamentos associados ao uso dos ecrãs", sugere, realçando que este será um "treino" para a necessária regulação interna.

Em suma, Ivone Patrão considera que esta proibição "é uma boa forma de introduzir o tema" na opinião pública, porque "mais vale que falemos dele ainda que as pessoas não concordem com a regulação externa". 

"Termos crianças tão novas a partilhar nudes, a partilhar vídeos de si e da sua intimidade, porque já têm acesso ao ecrã, já têm acesso ao telemóvel, temos crianças a visualizar pornografia, e a variável aqui que tem de ser tida em conta, por ser muito potente, como temos tido nas nossas investigações, é a supervisão parental digital", defende.

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