Shaughnessy Barker recebeu os amigos para um jantar em sua casa. A jovem de 25 anos, que aderiu ao estilo de vida analógico, dá valor aos encontros sociais, uma vez que está desligada do mundo digital
Nova Iorque – Com as nossas casas e vidas repletas de dispositivos, assistentes e chatbots com inteligência artificial, começa a surgir uma reação contrária.
Apresentada como "estilos de vida analógicos", esta tendência é diferente de uma desintoxicação digital de curta duração. Em vez disso, trata-se de um esforço para abrandar e encontrar formas tangíveis de realizar tarefas diárias e de se entreter, especialmente porque as plataformas de IA (Inteligência Artificial) generativa estão cada vez mais a pensar e a fazer por nós.
É difícil quantificar a dimensão do fenómeno, mas certos passatempos offline estão a explodir em popularidade. A Michael's, uma rede de lojas de artesanato, deu conta dos efeitos: as pesquisas por "hobbies analógicos" no seu site aumentaram 136% nos últimos seis meses. As vendas de kits de artesanato guiado aumentaram 86% em 2025, e a empresa espera que este número suba mais 30% a 40% este ano.
As pesquisas por kits de tricô, um dos "hobbies de avó" mais populares, aumentaram 1.200% no ano passado. A diretora de merchandising da Michael's, Stacey Shively, adianta à CNN que a empresa planeia aumentar o espaço nas lojas destinado à venda de materiais de tricô.
Cada vez mais pessoas usam o artesanato como forma de cuidar da saúde mental e de se desligarem das notícias negativas, especialmente após a pandemia de Covid-19, assume Stacey.
"Acho mesmo que estamos a passar por uma grande mudança cultural”, sublinha a diretora.
Inspirada pela tendência, quis experimentar por mim mesma. Durante 48 horas, vivi como se estivesse nos anos 90.
Desligarmo-nos por apenas dois dias parece fácil. Para a maioria, provavelmente é. Para mim, significou abandonar os meus três iPhones, um MacBook, dois monitores de secretária ainda maiores, um Kindle, uma Alexa — e o impulso primitivo da Geração Z de alternar entre todos eles.
"Detesto a IA, do fundo do meu coração"
Antes de embarcar na minha viagem, conversei com pessoas que ainda usam muito o analógico para me inspirar. Quem quiser falar com Shaughnessy Barker, uma jovem de 25 anos de Penticton, na Colúmbia Britânica, terá de ligar para o seu telefone fixo.
Tal como muitos pré-adolescentes na década de 2010, o primeiro contacto de Shaughnessy Barker com a internet foi através do “stan Twitter”, o Twitter da boys band britânica One Direction. Mas, à medida que foi crescendo, apercebeu-se de que “tudo na internet é direcionado para o lucro e já nada existe apenas diversão”.
A transição para um estilo de vida analógico não foi difícil para Shaughnessy, que se apresenta a si própria como “alguém que detesta a Inteligência Artificial, do fundo do coração”. Shaughnessy cresceu a ouvir rádio e discos de vinil e tem uma vasta coleção de cassetes, DVDs, VHS e discos de vinil. Organiza noites de artesanato e provas de vinhos sem tecnologia, escreve bilhetes e limita o tempo que passa ao computador.
A maior mudança aconteceu quando Shaughnessy comprou um adaptador para usar um telefone fixo em casa e uma aplicação móvel comum quando está fora.
"Se quiserem falar comigo, telefonem ou escrevam uma carta”, avisou Shaughnessy, dirigindo-se aos amigos.
Mas mesmo para esta jovem de 25 anos, é cada vez mais difícil desligar completamente. Por exemplo, a única forma de divulgar a loja de roupa vintage onde trabalha ou o seu "clube de cartas" é através da internet.
"Sou um paradoxo ambulante quando digo coisas como: 'Quero largar o telemóvel e vou fazer vídeos para o TikTok sobre isto’.”
O que significa "voltar ao analógico"?
Os utilizadores de tecnologia estão cansados do scroll infinito de conteúdo e da falta de originalidade gerada pela IA, ou simplesmente frustrados com o facto de o ChatGPT e outros serviços de IA generativa estarem a pensar e a criar por nós.
"A falta de originalidade gerada pela IA é bastante cansativa, tanto pelo ato de visualizar o conteúdo como pelo facto de ser tão repetitivo e pouco original", explica Avriel Epps, investigadora de IA e professora assistente na Universidade da Califórnia, Riverside.
Isto não significa abandonar toda a tecnologia - aliás, quem se desafia a voltar ao analógico não é contra a tecnologia. Algumas pessoas simplesmente adotaram partes deste estilo de vida: por exemplo, substituir o Spotify e a funcionalidade de reprodução aleatória com inteligência artificial por um iPod. Em vez de tirar um milhão de fotografias na mesma pose, abrande o ritmo e tire uma fotografia analógica que possa segurar na mão. Até mesmo pequenos atos, como comprar um despertador físico, podem ser libertadores.
"Adotar o analógico não significa necessariamente desligar-me da informação da internet, mas sim desligar a internet da informação sobre mim", sublinha Avriel Epps, que recentemente deixou de usar o pacote Google e pratica o Domingo Sem Ecrãs.
Será que tudo isto é só fachada?
A manhã foi tranquila no meu primeiro dia offline. Acordei naturalmente com o sol, a fazer cosplay de influenciadora de lifestyle: escrevi no meu diário, abri um exemplar antigo de "O Monte dos Vendavais" e preparei-me em metade do tempo que costumo demorar. Não tive tempo para encontrar um iPod antigo ou uma cassete, por isso desenrasquei-me com trabalhos manuais e leitura para passar o dia.
O meu maior problema era a sensação de estar a encenar uma performance.
Estava a escrever sobre isso para uma publicação digital e a falar com pessoas que encontrei nas redes sociais. Escolhi também as alternativas mais fáceis para a vida digital; sabia que escrever a minha lista de compras seria muito mais fácil do que decidir nunca mais fazer uma videochamada com a minha família.
Ainda assim, na minha caminhada sem tecnologia até ao escritório, reparei quantas outras pessoas também estavam sem ecrãs. Normalmente, desviava-me dos turistas que admiravam os arranha-céus, mas desta vez segui o seu olhar. Naquele dia claro, o Empire State Building estava realmente glorioso.
Quando participei num encontro semanal de tricõ numa biblioteca de Brooklyn durante o meu desafio de dois dias, deparei com mulheres de todas as idades a trocarem dicas de pontos e ideias de cores — tudo isto sem ecrãs à mistura. Naquela sala acolhedora com cerca de 20 pessoas, todas comentaram como utilizam o tempo dedicado ao tricô para relaxar.
“Tricotar dá-te algo para fazer com as mãos, por isso não ficas no telemóvel”, explica Tanya Nguyen, uma participante assídua do evento.
O meu próprio dia ganhou tantos minutos livres que finalmente consegui acabar de ler “O Monte dos Vendavais”, enviar um postal à minha prima de 8 anos e, talvez, depois de mais uma dúzia de aulas de tricô, fazer um cachecol. Senti que realizei algo para além do trabalho e do ecrã azul brilhante.
Tal como muitas pessoas da minha geração, só precisava de uma tendência no TikTok para o fazer.