“Vejo grupos de guerrilheiros a executar uma aldeia inteira, terroristas a torturarem vítimas, vídeos de violência sexual muito gráficos”. “Temos grandes feridas psicológicas”. Teresa é uma das dezenas de trabalhadores que cumpriu na sexta-feira o último dia de greve parcial na consultora Accenture. Exigem receber um subsídio de risco e maior acompanhamento psicológico
Todos os dias, Teresa senta-se no seu pequeno compartimento no edifício da Accenture, em Algés, e, durante sete horas praticamente seguidas, fica à frente de um ecrã. Pelos seus olhos, passam centenas de vídeos. Curtos, na sua maioria. Muitos impercetíveis. Um, no entanto, ficou na sua memória até aos dias de hoje. “Era um grupo de pessoas a agredir fisicamente, com muita violência, um bebé”. Teresa não conseguia parar de chorar, é mãe e não lhe saía da cabeça a forma como aquela criança aparecia indefesa.
Não foi o único vídeo extremamente violento com que se tinha deparado naquele dia. A natureza do trabalho, obrigava-a a ganhar alguma indiferença face ao sofrimento e o conselho geral que normalmente recebia das suas chefias era de que tem de criar uma separação entre aquilo que é o trabalho e o seu dia-a-dia fora do escritório. “Costumam dizer-me que não posso levar estas coisas para casa, como se fosse uma barreira, mas aquele vídeo é impossível esquecer”.
O trabalho de Teresa é ver aquilo que o resto do universo das redes sociais não vê. Em média, são 500 páginas de conteúdos por dia que tem de detalhadamente analisar para determinar se violam as políticas da determinada plataforma. Ganha menos de 1.000 euros por mês. “Vejo grupos de guerrilheiros a executar uma aldeia inteira, terroristas a torturarem vítimas, vídeos de violência sexual muito gráficos”. Tudo isto, refere, “cria em nós grandes feridas psicológicas”.
Teresa, que deu um nome fictício por medo de represálias da empresa, é um dos cerca de 50 trabalhadores que estiveram diariamente em greve parcial entre 2 e 6 de junho nos escritórios da Accenture. Exigem aumentos salariais com um mínimo de 150 euros por trabalhador, o aumento do subsídio de alimentação para 12 euros por dia e a atribuição de subsídio de risco aos trabalhadores que, como ela, analisam conteúdo sensível.
A CNN Portugal contactou a Accenture para tentar entender qual a disponibilidade para negociar um acordo com os trabalhadores, mas até ao momento não obteve resposta. A greve foi convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) que tem vindo a denunciar a existência de um elevado número de trabalhadores que colocam baixa médica por motivos de saúde mental.
Os trabalhadores da Accenture estão em greve já pela terceira vez em 2025. “A empresa continua a recusar reunir-se” com as estruturas sindicais “para discutir as reivindicações dos trabalhadores”. “A Accenture tem o título de "Best Place to Work", mas as condições de trabalho que uma empresa multinacional e multimilionária deixam muito a desejar”. “Material tecnológico que não funciona bem, cadeiras partidas, falta de espaço para guardar pertences de valor”, sublinha Cátia Martins, trabalhadora da Accenture que tem estado a coordenar esta greve.
O trabalho de Teresa é, também, executado por turnos, no qual se trabalham quatro dias e descansa-se dois dias. Estes horários são divididos entre turnos que vão das 07:00 às 16:00; das 16:00 à 01:00 ou das 22:00 às 07:00. “Não há ninguém no seu perfeito juízo que, sujeito aos vídeos que vemos constantemente, consiga ter um sono reparador”.
Ricardo Mendes, representante do CESP que tem também estado envolvido na greve, sublinha que a empresa não tem disponibilizado suficiente apoio psicológico aos trabalhadores que executam a visualização deste tipo de conteúdo gráfico e sensível. “O que queremos é que a empresa tenha atenção ao tipo de trabalho que ali é executado”. “Além de melhorar as condições de trabalho, disponibilizando melhor acompanhamento, é preciso haver aqui uma forma de compensar pelo prejuízo que lhes causa, porque é mesmo um grande prejuízo”. “Mas da parte da empresa não houve qualquer resposta”, destaca o sindicalista.
O que neste momento está a acontecer, refere Teresa, “é que, para além da hora de almoço, não saímos de fora do computador”. “É que se não tivermos as sete horas de produção marcadas no contador, acabamos por ser penalizados nas promoções e nos aumentos salariais”. “Portanto, o que estamos a pedir é só não passarmos sete horas seguidas a ver constantemente conteúdos violentos, sanguinários, chocantes, sensíveis”. “Ter algum tempo de descanso”.